Você viveu a Boo?

Livro-reportagem conta a história da casa de show que se destacou na noite de Salvador

Ilustração: Jajá Cardoso

Por Raulino Júnior ||DESDEnhas: as resenhas do Desde|| 

Se você viveu, ótimo; se não viveu, tem uma oportunidade de conhecer toda a efervescência da casa de show que ficou em atividade por quatro anos (2006 a 2010), na Rua da Paciência, 307, Rio Vermelho: a leitura do livro-reportagem Efeito Boomerangue: o legado da casa de shows na cena cultural de Salvador, de autoria de Luciano Marins, produtor cultural, jornalista e mestre em Comunicação e Educação Audiovisual pela Universidad Internacional de Andalucía. A obra, publicada em 2016, é fruto do Trabalho de Conclusão de Curso da graduação em Produção em Comunicação e Cultura, que Marins fez na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Em sete capítulos, Luciano discorre com propriedade sobre a Boomerangue, através de narrativas compostas por depoimentos, fotos e textos. Tudo com muito detalhe. Quem lê, fica sabendo do rider técnico, do cardápio, de como eram os ingresssos, da dinâmica pensada pela assessoria de imprensa para chamar a atenção da mídia e fazer uma comunicação responsável e de qualidade. A inauguração do espaço aconteceu no dia 28 de novembro de 2006, com show de Mariene de Castro. A última festa (Noite Fora do Eixo + Boogie Nights) foi no dia 4 de junho de 2010, deixando o público carente da Boo, como era carinhosamente chamada pelos frequentadores.

Com o slogan Quem vai, volta, a Boomerangue nasceu do sonho de Alex Góes de abrir uma casa noturna. O cantor e compositor soteropolitano, bastante conhecido na cena cultural da cidade, já tinha dez anos de carreira quando implementou o projeto. Obviamente, contou com a ajuda de parceiros. Além de Góes (responsável pela programação  musical e cultural da casa), André Barreto Gomes (responsável pelo gerenciamento do setor operacional), Aurélio Pires Júnior (relações públicas) e Rui Santos (setor financeiro e recursos humanos) fizeram o sonho acontecer. Técio Filho era sócio-proprietário da Boomerangue, em parceria com Alex Góes. Contudo, no livro, a forma como a sociedade se deu não é narrada. Técio é arquiteto e, em depoimento para a publicação, diz que entrou na casa "apenas para conceber o espaço físico, organizar a estrutura tanto no que tangia à parte funcional quanto estética. Depois que existiu o envolvimento no que eu poderia dizer que foi a segunda gestação, em que começamos a entender a vocação do espaço onde passamos a não só reforçar as diversas vocações percebidas, como também fazer com que elas interagissem de alguma forma, num processo de experimentação mesmo”, p. 15.

A Boomerangue se destacava pela pluralidade de sons. Isso era uma tônica da casa e aparece em quase todos os depoimentos do livro. Por lá, passaram artistas de blues, axé, funk, dance, pop, MPB, reggae e rock. Tudo isso convivia lado a lado na Boo. Ou melhor: no andar de cima e no andar de baixo. Porque o equipamento cultural "tinha dois ambientes independentes e acusticamente isolados", p. 22. Outro ponto alto de lá eram as festas temáticas. O capítulo 4 é todo dedicado a elas e Luciano enumera algumas, como a Nave, o Baile Esquema Novo, a TOP TOP, a Brinks, a Kick e a JUMP UP.

O livro é muito rico em material de acervo. Luciano conseguiu reunir muitas fotos dos artistas que se apresentaram lá e imagens dos cartazes das festas emblemáticas, que marcaram a identidade da Boomerangue. A leitura é agradável. Principalmente, para quem se interessa por música e produção cultural. Quem vai, volta. E não existe ida sem volta. É preciso olhar o passado para construir o presente. A Boo deixou o legado dela. Viva!

Referência:

MARINS, Luciano. Efeito Boomerangue: o legado da casa de shows na cena cultural de Salvador, Salvador: 2016. 

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