Saio do interior/Vou morar na capital/Esqueço as minhas raízes/E me acho o maioral: o ser humano e a sua grande pequenez

 Tem gente que vai pra nunca mais*

Por Raulino Júnior ||Texto de Quinta|| 

"Tem gente que é metido a besta". Quem é interiorano, já deve ter ouvido essa frase. Os mais velhos costumam dizê-la para se referir às pessoas que mudam de comportamento, de postura e de personalidade quando se mudam, quando vão morar num lugar que é considerado mais desenvolvido do que aquele de origem. Será que a pessoa muda, de fato, ou apenas achou uma oportunidade para botar a asinha de fora? Para mostrar ser quem realmente é? Hum... Questionamentos que dão uma pesquisa de doutorado. De qualquer forma, se achar melhor que os outros a ponto de esquecer de onde veio é de uma pequenez tão grande. Tem gente que só se acha porque não se encontra. Aí, fica perdido.

Quantos exemplos que corroboram o que está sendo dito aqui você tem na cabeça? Não é difícil mesmo encontrar casos. É muito comum. A pergunta que fica é: por quê? Por que uma pessoa, bem-sucedida (e, talvez, seja até por isso!), renega o lugar que contribuiu para a sua formação cidadã e humanística? O lugar de sua base, de suas raízes? O lugar que formou parte de sua identidade? Por quê? Por quê? Por quê? Quem tiver a resposta, sinaliza. Eu não consigo entender.

Buscar uma vida melhor é um direito de todos. Ninguém está no mundo para estacionar, para ser sempre a mesma coisa. Migrar faz parte desse pacote. A gente não encontra mais sentido em continuar no nosso lugar de origem e vai atrás de novos ares, para manter o equilíbrio, a satisfação pessoal e alcançar os nossos objetivos. Legítimo e natural. Isso sempre tem que ser a nossa meta. Contudo, fazer disso um trampolim do esquecimento de onde você veio é tão esquisito que não tem nem o que pensar. É só lamentar.

A sociedade brasileira adora uma diferença, uma escala, uma dicotomia entre "ser melhor" e "ser pior". Isso explica o comportamento das pessoas que saem do interior para morar na capital e, por isso, se acham superiores. Essa superioridade se configura no desprezo a tudo que se relaciona com a cidade onde nasceu e/ou viveu parte considerável da vida. Há um distanciamento consciente, um silêncio que faz barulho, por dizer muita coisa. Tem gente que, no fundo, acaba sendo de lugar nenhum.

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É Desde! É Dez! É DEZde!

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