Julho de Oliveira: "Demarco minha negritude em todos os espaços que ocupo"

  Aniversariante do dia, Julho de Oliveira expressa os seus valores em versos e muita prosa

Julho de Oliveira: literatura, música e negritude. Foto: autorretrato

Por Raulino Júnior ||Domingueiras: entrevistONAS de Domingo|| 

Julho de Oliveira Souza faz 29 anos hoje. É natural de São José do Jacuípe, mas foi criado em Feira de Santana. Por isso, se considera feirense. Desde 2012, mora em Jacobina. Filho de Adelice e Angelino, ele tem mais de vinte irmãos por parte de pai e dois da união de seu pai e sua mãe: Sérgio (o mais velho) e Raulindo (o caçula). Formado em Letras, na Universidade do Estado Bahia, Julho é poeta e compositor. No blog Julho Compositor, que mantém desde 2012, publica alguns de seus poemas. Quem acessa a página, lê de imediato os seguintes versos: "Eu sou o Fotógrafo. O que frisa momentos. O que visa grandes apoteoses a partir de pequenos gestos. O que decifra grandes apoteoses em pequenos versos". Questionado se, de fato, é fotógrafo, ele filosofa: "Os versos de apresentação do meu blog não passa de analogia semiótica. Pensei no ofício de um escritor, que 'fotografa' os sentimentos, a história, os conhecimentos, as culturas, as artes, a política etc. Através das palavras escritas, fui um fingidor e fingi fazer outra arte. Aliás, apesar de entender algo de enquadramento, luz, cor etc., sou um péssimo fotógrafo". Em breve, será um dos autores que vão integrar a antologia Bardos Baianos, da Cogito Editora. Nesta entrevistONA, feita por e-mail, Julho fala sobre literatura, música, família e diz como demarca a sua negritude no mundo: "Faço isso a cada 'respirar'". Leia e fique à vontade.

Desde que eu me entendo por gente - O que te fez escolher o curso de Letras?  

Julho de Oliveira: Quando estava lá no site do Sisu, em 2012, vendo os cursos das universidades públicas de toda a Bahia, percebi que minha nota era melhor nos cursos de ciências humanas, sobretudo em Letras. Minha maior nota foi da redação. Outro motivo era o fato de estar escrevendo letras de músicas e poemas há quase 3 anos. Então, estava em dúvida qual curso de Letras entraria, escolhi, na primeira opção, Letras - Língua Inglesa e Literaturas, em Conceição do Coité; e na segunda opção, Letras - Língua Portuguesa e Literaturas, na UNEB - Jacobina. Daí, passei na segunda opção, arrumei as malas e corri atrás dos documentos em escolas feirenses, em plena greve da PM na Bahia.

Desde - No seu blog, você publica poemas com temáticas bem diversas. Quais poetas fazem a sua cabeça? Por quê?

JO: Os versos que fazem e fizeram minha cabeça são os de Sérgio Vaz, Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Hilda Hilst, Álvares de Azevedo, Lima Barreto, Machado de Assis, Elisa Lucinda entre outros diversos autores de letras de músicas. Cada uma dessas autorias me conquistou por suas características mais marcantes, do que por sua fama. Creio que nem preciso mencionar.

Desde - No primeiro verso do poema "É fogo?", você diz: "Quanto mais um coração bate, mais ele tem validade". Essa imagem é bem interessante. O que te inspirou?

JO: Sobre esse trecho do poema "É fogo", eu pensei na contradição de quanto mais uma coisa é utilizada, mais ela perde a validade. Daí, inverti. Também pensei nesse bater do coração como o viver da vida, como às vezes não vivemos certas coisas por medo do coração bater mais forte.

Desde - Quando começou a compor? E quais são os gêneros que compõe?

 JO: Comecei a compor letras em novembro de 2009. Em 2008, eu criei dois poemas para a aula de redação no Ensino Médio, porém as perdi, eram muito baseadas nas letras dos Racionais MC's. Os gêneros que componho são pagode baiano (com influências do rap e reggae), sertanejo e pop rock.

Desde - Quais são os compositores que você admira? Por quê?

JO: Há muitos compositores que admiro e seus motivos são variados, mas, em resumo, gosto de suas musicalidades, repertórios discursivos e estéticos, não necessariamente concordando com as ideias que algumas letras trazem. Como a pergunta pede, vou mencionar alguns poucos dos tantos que gosto: o quarteto de compositores do Harmonia do Samba, o quarteto do Racionais MC's, o quarteto da Cidade Negra, Lulu Santos, Gilberto Gil, Edcity, Victor Chaves, Jau, Criolo, Edson Gomes, Zé Ramalho, Fagner, Ana Carolina, Belchior, Carlinhos Brown, Adriana Calcanhoto, Gabriel O Pensador, MV Bill, Seu Jorge, Luiz Gonzaga, Caetano Veloso, Tim Maia, Teago Oliveira [Maglore], Nando Reis, Arnaldo Antunes, Mateus Aleluia, Raul Seixas, Marisa Monte, Jorge Vercillo e Djavan.

Minha família tem importância central na minha vida, por sempre estar me ajudando em momentos difíceis. 

Desde - O que uma música, na sua opinião, não pode deixar de ter? Por quê?

JO: Sobre música em si, não tenho nenhuma ideia fechada do que uma música deve ter, seja  da letra mais elaborada, passando para o arranjo mais descompromissado, indo até a música com poucas palavras e pensada para dançar. Entre o gênero A ao gênero Z, nenhuma música precisa de nada além de silêncios e sons combinados.

Desde - O que mais te chama atenção: letra ou música? Por quê?

JO: Há música que me chama mais atenção pelo arranjo, a sensação que ele produz. Há outras pelas letras, seja lá qual for seu tamanho. Devo confessar que, geralmente, de cara, a letra atiça as olheiras, mas se o arranjo for ruim [ao meu critério, que não é fechado e depende de cada caso], a música decai.

Desde - Qual a importância da sua família para você (tanto a de origem quanto a que formou)?

JO: Minha família tem importância central na minha vida, por sempre estar me ajudando em momentos difíceis. Vou me reter sobre o assunto, pois não cabem palavras para responder.

Desde - A sua preferência política é d'os que trabalham'. Ainda existem políticos com essa vontade no Brasil? Por quê?

JO: Respondi isso no meu Facebook assim que o fiz, nunca mais mudei. E, sim, temos exemplos positivos no PCB, UP,  PSOL, PC do B, PT. Eu já tive muitas fases sobre meu entendimento político, mas desde que me tornei adulto, sempre fui alinhado com as políticas de esquerda. Hoje, sou um socialista e defendo revoluções socialistas, e há políticos e partidos que têm essa mesma vontade.

Desde - Como você demarca a sua negritude no mundo?

JO: Acho que faço isso a cada "respirar", se fisicamente pode haver alguma dúvida [a questão fenotípica ainda é complexa, sobretudo pelo negacionismo ou tentativa de desafricanização que as elites tentaram encampar por aqui], demarco minha negritude em todos os espaços que ocupo, apontando as questões raciais presentes, fazendo defesa de políticas públicas para as populações negras. Além de gostar, partilhar e exaltar expressões culturais afro. Assim como difundir figuras negras em todos os tipos e áreas do conhecimento que tenham as bandeiras das questões negras consigo, pois essas, entre outras, são as minhas bandeiras.

Eu já tive muitas fases sobre meu entendimento político, mas desde que me tornei adulto, sempre fui alinhado com as políticas de esquerda. Hoje, sou um socialista e defendo revoluções socialistas, e há políticos e partidos que têm essa mesma vontade.

Desde - Quem era o Julho de dez anos atrás?

JO: O Julho de dez anos atrás era um pivete que trabalhava como garçom de noite, estudava de manhã, no 3º ano do ensino médio, e que tinha alguns sonhos: fazer o curso de Educação Física, tocar violão, escrever mais e mais músicas e poemas, cantar de forma amadora e outros mil sonhos que não lembro mais...

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É Desde! É Dez! É DEZde!

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