Vinicius Mallick: "Acredito na função social da literatura"

 Literato de São Francisco do Conde usa a arte da palavra para firmar posicionamentos e transformar o mundo

Vinicius Mallick: "Considero-me um homem preto em desconstrução". Foto: Thainara Matos

Por Raulino Júnior ||Domingueiras: entrevistONAS de Domingo|| 

Marcos Vinicius da Hora Silva, o Vinicius Mallick, tem 22 anos, é natural e morador de São Francisco do Conde, cidade do interior da Bahia. Filho de Evonete Silva e João Silva, exalta a sua genitora: "Minha mãe é meu tudo: a força motriz da minha vida. Um exemplo de mulher guerreira e batalhadora"; e irmão de Bruno Silva, Gilvan Silva e Juliana Silva. Formado em Letras - Língua Portuguesa, pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), e especialista em Psicopedagogia, pela Faculdade Descomplica, atualmente estuda Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades, na UNILAB, e é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Estudos Literários, da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Desde 2016, é falante de kriol, língua guineense que aprendeu com a convivência com falantes nativos, colegas da UNILAB. Nesse mesmo ano, rompeu com o cristianismo. "Não me considero mais evangélico, embora tenha crescido na religião. Hoje, se eu voltar a frequentar uma igreja evangélica, será com um pensamento mais crítico. A minha fé em Deus é imutável, mas minha visão sobre a religião mudou completamente", enfatiza. Nesta entrevistONA, feita por e-mail, Vinicius fala sobre literatura, escolhas acadêmicas, racismo e diz como era dez anos atrás: "Me cobrava muito". Leia e fique à vontade.

Desde que eu me entendo por gente - Por que usa o Mallick? Qual é a origem? 

Vinicius Mallick: Gosto de utilizar o Mallick - um nome de origem árabe, por causa de sua significação: "Malique (em árabe: ملك; romaniz.: malik) é uma palavra árabe que significa "rei" ou "chefe". Foi adotada por diversas línguas asiáticas, principalmente em sociedades islamizadas ou arabizadas, para designar seus monarcas, príncipes ou referir-se a reis de outros locais". [Fonte: Wikipédia].

Desde -Você cursou Letras, fez especialização em Psicopedagogia, agora estuda Humanidades e faz mestrado em Estudos Literários. O que justifica essas escolhas?

VM: Desde criança, eu já tinha definido a minha profissão, sempre quis ser professor. Até os anos finais, eu queria fazer pedagogia, mas ao ingressar no Ensino Médio, despertei-me para Letras, por sempre ter gostado de escrever e de literatura, pois, de qualquer forma, continuaria a ser professor. Decidi fazer Humanidades por gostar da abertura que o curso tem para as diversas áreas das ciências humanas e porque não queria ficar parado, enquanto não abria o edital do mestrado. A especialização foi motivada por uma necessidade pessoal, para poder ajudar os alunos com dificuldades e compreender melhor o universo da inclusão escolar. As novas agendas educacionais exigem professores atualizados e preparados para as dinâmicas e transformações da sociedade. A escolha do mestrado se deu porque quero aprofundar os estudos no âmbito da Literatura e trilhar os caminhos da docência no ensino superior.

Desde - Na página Frases do Vinicius, que mantinha no Facebook, você colocava alguns de seus poemas. Muitos tinham a mulher como tema, outros falavam de amor. O que mais te inspira a escrever? Por quê?

VM: O amor sempre foi palco das minhas escritas, desde os oito anos de idade. Ainda continua sendo, mas atualmente meus olhares têm se inclinado mais para questões de gênero e raciais, bem como para a crítica social. Gosto de escrever sobre estes assuntos por acreditar na função social da literatura, que pretende tecer críticas sobre variados aspectos da vida em sociedade, e não só.

As novas agendas educacionais exigem professores atualizados e preparados para as dinâmicas e transformações da sociedade.

Desde - "Amor que não é dado, jamais servirá se for mendigado". Esses seus versos são fortes. Qual amor que você não mendiga mais? Por quê?

VM: No meu processo de desenvolvimento pessoal e social, fui descobrindo que o amor próprio deve vir primeiro e que nenhum sentimento deve ser implorado, pelo contrário, tem que ser natural e recíproco. Falo de todos os amores: materno, paterno, conjugal, familiar etc.

Desde - "Saia da frente com seu racismo/Que nosso bonde é desenfreado", dizem alguns de seus versos. Para você, quais são as medidas que devem ser adotadas para frear o racismo de uma vez por todas? Por quê?

VM: Não sabemos se o racismo será freado de uma vez por todas, mas acredito que o caminho é sermos mais enérgicos em nossas militâncias; sairmos de nossas zonas de conforto e lutar, de fato, contra o racismo, não abdicando da fundamentação teórica, mas sendo mais pragmáticos. É necessário estarmos vigilantes frente às multifacetas do racismo!

Desde - Dá para fazer um paralelo do Vinicius de antes da UNILAB e o de depois? O que mudou?

VM: Nossa! O Vinicius de antes era imaturo, ingênuo, o de agora é mais crítico, amadurecido e convicto de suas escolhas e decisões, sejam elas quais forem. Muita coisa mudou: a maneira de ver o mundo a minha volta, a forma de compreender a sociedade e suas diferenças. Me tornei mais tolerante, em questão de diversidade religiosa e de gênero. Hoje, considero-me um homem preto em desconstrução, tentando aprender a cada dia.

Desde -  Você gosta de escrever. De quem são os escritos que você gosta de ler? Destaque autores e autoras também.

VM: Costumo ler Homi K. Bhabha, Stuart Hall, Eduardo de Assis Duarte, Antonio Candido, Regina Dalcastagnè, Inocência Mata e outrxs. Na literatura: Conceição Evaristo, Mia Couto, Filinto de Barros, Abdulai Sila, Odete Semedo, Ana Maria Gonçalves etc. São tantos autores e autoras maravilhosxs! [Como a entrevista foi feita por e-mail, por decisão editorial, o Desde manteve a forma como o entrevistado escreveu as palavras outrxs e maravilhosxs]

O caminho é sermos mais enérgicos em nossas militâncias; sairmos de nossas zonas de conforto e lutar, de fato, contra o racismo, não abdicando da fundamentação teórica, mas sendo mais pragmáticos.

Desde - Quem era o Vinicius de dez anos atrás?

VM: O Vinicius de dez anos atrás era um adolescente sonhador, cheio de projetos e com uma sede de transformar o mundo. Aquele mesmo Vinicius já carregava consigo o peso da  responsabilidade e do amadurecimento precoce. Me cobrava muito, sempre buscando resolver os meus conflitos e os de pessoas próximas. Há dez anos, eu estava descobrindo como a vida é dura, sobretudo para nós que somos negros.

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Perfil de Vinicius Mallick no Instagram:

@MallickVinicius

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É Desde! É Dez! É DEZde!

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