Jornalismo declaratório: você pratica?

Livro investiga prática comum na atividade jornalística. Imagem: reprodução do site da Editora Casa Flutuante

Por Raulino Júnior ||DESDEnhas: as resenhas do Desde|| 

A pergunta que intitula esta resenha é um convite à reflexão. Será que os jornalistas que estão em atividade já pararam para pensar sobre isso? E como evitar o jornalismo declaratório, uma vez que as declarações são importantes dentro da prática jornalística? É um desafio. O livro Jornalismo Declaratório (Editora Casa Flutuante, 2020), escrito pelo jornalista Israel Dias de Oliveira, discute essas questões e investiga esse fenômeno. A obra é bastante introdutória, mas abre um caminho que não tem mais volta: afinal, o que é jornalismo declaratório?

Logo no início do livro, Israel responde a essa pergunta, mas antes avisa ao leitor que a obra vai discutir "a prática do jornalismo declaratório na editoria de política dos jornais, seu habitat natural", p. 13. Contudo, o autor faz uma ressalva e diz que, embora seja comum na editoria citada, ele não se manifesta apenas nela, mas é lá que se desenvolve de forma mais perversa. Nesse sentido, todas as editorias correm o risco de ficar presas a um amontoado de declarações, sem fazer a devida apuração do que foi dito, sem contrapor. O jornalista chama a atenção para isso ao longo dos capítulos.

Ao passar as páginas da obra de Oliveira, o leitor fica ciente de que não é fácil definir o jornalismo declaratório. "O uso de aspas e do verbo dicendi é a sua materialização linear", afirma na página 17. Na mesma página, um pouco mais na frente, ele simplifica: "[...] o jornalismo declaratório é o jornalismo feito com base em declarações, e somente isso". Como fugir disso? Como fazer de modo diferente? Israel faz questão de não demonizar  a prática, de dizer que ela só tem aspectos ruins. O autor tem consciência de que isso faz parte do fazer jornalístico. Porém, destaca que é importante apurar a declaração, contrapor, ouvir mais de um lado. Ou seja, fazer o que é básico e o que se aprende em qualquer faculdade de jornalismo. "[...] cabe ao jornalista investigar a procedência dessas declarações, não se 'deslumbrar' com a possibilidade de um 'furo' jornalístico e ser mais criterioso", p. 20.

Na narrativa, Oliveira traz os elementos "pressa" e "cumprimento de horário" como  aliados do jornalismo declaratório. De fato, isso abre espaço para a publicação de declarações dadas por alguma autoridade sem que o jornalista faça uma reflexão mais crítica, porque ele tem horário estabelecido para publicar a matéria. Quando se pensa no webjornalismo, essa realidade é ainda mais cruel. Isso pode ser justificativa? O autor acha que não (e ele tem razão!): "Ideologias, posicionamentos estratégicos políticos, mudanças de comportamento social, moda, ódio, guerra e comércio de bens de consumo são beneficiados com a prática da declaração publicada com objetivo jornalístico — daí advém o princípio do jornalismo declaratório", p. 26.

O livro traz o posicionamento crítico de alguns pesquisadores e jornalistas a respeito do jornalismo declaratório. Alberto Di Franco, Bernardo Kucinski, Marcelo Beraba, Cláudio Abramo, Zélia Adghirni e Reinaldo Azevedo criticam a prática. Israel arremata essas críticas citando o jornalista e sociólogo espanhol Ignacio Ramonet: "[...] 'os jornalistas se repetem, se imitam, se copiam, se correspondem e se misturam a ponto de não constituir mais do que um único sistema informacional'. [...] o 'surgimento da internet reforçou ainda mais essa imbricação'”, p. 34.

No capítulo 3, intitulado Exemplos de mau jornalismo, Israel cita alguns casos em que a imprensa errou apenas por dar crédito a declarações cheias de propósitos. O jornalista cita como o governo de Dilma Roussef  foi vítima disso. O caso Escola Base e a invasão do Iraque pelos Estados Unidos, que foi justificada por declarações falsas feitas por George W. Bush em relação à existência de armas de destruição em massa, também figuram na lista. 

Na conclusão da obra, o autor reflete: "Por mais contraditório que pareça, seu uso [se refere ao jornalismo declaratório] é necessário para o jornalismo, principalmente para o jornalismo diário, pois é parte principal na construção da notícia. Além disso, as declarações são essenciais para o jornalismo. Mas elas podem ser utilizadas para criar histórias que sirvam somente para vender publicações, para incutir na sociedade uma consciência de interesse apenas de pequenos grupos ou para beneficiar o interesse público", p. 56. 

Como fugir disso? Como fazer diferente? São perguntas essenciais nesse debate. Ao longo desta resenha, as declarações do autor do livro foram utilizadas para validar algumas informações. O jornalismo declaratório foi usado o tempo todo. A obra de Oliveira serve para levantar questionamentos sobre isso, além de fazer com que os profissionais da área pensem em estratégias para não reproduzir comportamentos que estão arraigados na prática jornalística. Quem lê, fica com vários nós na cabeça. O livro é, como já foi dito, uma introdução. Vale a leitura, porque ele cutuca, faz a gente pensar em como sair desse lugar. Esse é o grande desafio. 

Referência:

OLIVEIRA, Israel Dias de. Jornalismo declaratório. 1. ed. São Paulo: Editora Casa Flutuante, 2020.

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Hoje, às 19h, estreia o programa Comunicação e Poder, apresentado por Vinicius Souza e Israel Dideoli. O tema escolhido para o debate da primeira edição foi jornalismo declaratório. A atração será transmitida quinzenalmente no canal do YouTube Iaras e Pagus. Segue o link do vídeo:

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É Desde! É Dez! É DEZde!

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