Chegar ao fim não é fracasso

Imagem: reprodução do site Slideshare

Por Raulino Júnior ||Desde Já: as crônicas do Desde|| 

As coisas findam, acabam, terminam. E não há nada de mau nisso. Faz parte do processo natural da nossa "ser humanidade". Não é fácil constatar, mas é algo que acontece e a gente não deve se culpar. Tem coisas que já acabaram, já deram o que tinham que dar e as pessoas insistem em mantê-las, apenas por orgulho. Isso faz aquilo que foi genial ir perdendo a graça, o vigor, o ânimo. Desde criança, a gente aprende que tudo nasce, cresce, se desenvolve e morre. Na vida adulta, parece que a gente gosta de ver a coisa agonizar.

Na sua excelente autobiografia, Rita Lee explica por que resolveu se aposentar dos palcos: "Aquela cena manjada da celebridade vetusta solitária e saudosa de sua juventude não era minha praia, nem lamentar que os bons tempos não voltam mais, menos ainda tentar exibir boa forma em público com plásticas e botoxes para me dizer viva. Envelhecer com bom humor e uma boa dose de sarcasmo não é para maricas. Sempre dei mais valor à dignidade de uma Hilda Hilst do que àquelas em busca da fonte da juventude que não percebem o tempo como aliado da feitiçaria feminina", p. 326. Uma decisão corajosa e muito acertada. A cantora e compositora percebeu que já tinha dado o que tinha que dar. A sua contribuição para a música e para a cultura brasileira já tinha sido reconhecida e foi bem-sucedida. Só chegou ao fim. Melhor do que ficar fazendo o mais do mesmo, de novo, mais uma vez.

A televisão é fera em insistir em formatos que já se desgastaram, que não têm mais oxigenação. Vejo A Praça é Nossa no ar e fico me perguntando: por que manter um programa de "humor" com piadas sem graça e superultrapassadas na grade? Só pela tradição. Envaidece dizer que o programa está no ar há duzentos e cinco anos. Insistir na mesma coisa é matar a criatividade. Não só nas artes, mas em qualquer âmbito da nossa vida.

Chegar ao fim não pode ser sinônimo de fracasso. Houve um percurso, uma caminhada, um tempo produtivo. O que vale é o que foi vivido. O fim é só o começo de algo que também chegará ao fim. Tudo é um ciclo.

Sigamos.

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