Ruth de Souza: uma estrela (também) da TV!

 Atriz brilhou no teatro, no cinema e deixou a sua marca na televisão brasileira

Ruth de Souza: talento e perseverança. Imagem: reprodução do site da Imprensa Oficial 
Por Raulino Júnior ||DESDEnhas: as resenhas do Desde|| 

É impossível comemorar os 70 anos da televisão brasileira sem citar pessoas que dedicaram toda a vida para essa fantasia acontecer. Nesse sentido, o nosso destaque vai para a atriz Ruth de Souza (1921-2019). Em 2007, foi publicada a biografia Ruth de Souza: estrela negra, de autoria de Maria Angela de Jesus. A obra integra a famosa e bem-sucedida Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, que tem como objetivo "preservar a memória da cultura nacional e democratizar o acesso ao conhecimento".

O livro parte de um depoimento de Ruth a Maria Angela e isso torna a narrativa bem intimista, como se o leitor estivesse na sala da homenageada, ouvindo aquela conversa interessante. Ao tomar parte do bate-papo, ele fica sabendo que a artista carioca não gostava de revelar a idade, de palavrões, nem de falar de sua vida íntima. Embora, se sentindo à vontade diante da autora, soltava uma coisa aqui outra ali. Como, por exemplo, o relacionamento que teve com Abdias do Nascimento, considerado um dos mais marcantes da sua vida. A propósito, com Abdias, fundou, em 1944, o Teatro Experimental do Negro (TEN), importante referência nas artes cênicas do Brasil. No TEN, fez grandes papéis e foi, de acordo com o que é documentado na biografia, a primeira Desdêmona negra do Brasil. Tal personagem integra a peça Otelo, do inglês William Shakespeare. Ao longo da carreira no teatro, atuou em Vestido de Noiva (Nelson Rodrigues) e Quarto de Despejo (adaptação de Edy Lima com base no livro de Carolina Maria de Jesus). Em 1983, Ruth voltou a representar Carolina num episódio de Caso Verdade, programa exibido pela Rede Globo. "Foi um dos melhores trabalhos que fiz na televisão. Era um ótimo papel, interpretando uma pessoa viva, e com uma produção extremamente caprichada da Rede Globo", p. 62.

 Ruth de Souza e Abdias do Nascimento em Otelo, de Shakespeare. Imagem: reprodução do livro

Nascida no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, Ruth viveu um tempo em Minas Gerais e voltou para o Rio quando tinha nove anos, onde fixou residência em Copacabana. Filha de Alaíde Pinto de Souza e de Sebastião Joaquim Souza, a atriz sempre foi apaixonada por cinema. Apesar de o livro trazer a informação de que Ruth evitava fazer discursos sobre preconceito racial, a atriz tinha consciência da violência racista que estava presente nos estúdios e nos palcos pelos quais passou: "O fato é que realmente não existia espaço para o ator negro. Era uma realidade da época. Hollywood também massacrava seus atores negros. Isso é uma verdade", afirma na página 29. 

O sonho de trabalhar com cinema se concretizou na vida adulta e Ruth passou pela Atlântida e pela Vera Cruz, companhias cinematográficas que revolucionaram a sétima arte brasileira. Nelas, entre outros, fez os filmes Terra Violenta (Atlântida, 1948) e Sinhá Moça (Vera Cruz, 1953), que rendeu a sua indicação para o Prêmio Saci, do qual foi vencedora.

Ruth de Souza: linda pela própria natureza. Imagem: reprodução do livro

A biografia mostra a parceria de Ruth com alguns notáveis colegas de trabalho, como Grande Otelo, Oscarito e Mazzaropi. Faz críticas duras em relação a esse último: "[...] Mazzaropi era uma pessoa muito difícil e era muito pão-duro. Era até um pouco racista. Ele não me dava muita atenção. Não era meu amigo. Nunca foi! Ele não era nem um pouco generoso", p. 83. Durante um ano, estudou teatro nos Estados Unidos. Para ela, "o teatro é a base da arte de representar", p. 74. Ainda na mesma página, complementa: "Acho que todo ator tem de fazer teatro para depois partir para o cinema ou televisão. Só assim o artista vai realmente entender o que está fazendo, o que é ser ator".

Brilho na TV

Na televisão, Ruth fez novelas, especiais e participou de programas de humor, como Os Trapalhões. Passou pela Excelsior, Tupi, RecordTV e Rede Globo. A primeira novela que fez foi A Deusa Vencida (Excelsior, 1965) e considerava o trabalho em A Cabana do Pai Tomás (Globo, 1969) com um dos mais importantes da sua carreira na TV: "Se fizer um balanço da minha carreira na televisão, o trabalho em A Cabana do Pai Tomás foi um dos mais importantes. Foi a única novela que estrelei mesmo, fazendo o papel principal da trama: a mulher do protagonista, Sérgio Cardoso", p. 96. Na trama, Ruth fazia Cloé,  principal papel feminino da novela. 

Ruth como Cloé em A Cabana do Pai Tomás (1969). Imagem: reprodução do livro

No livro, ela cita outros trabalhos marcantes que fez na caixinha setentona: Duas Vidas (1977), Sétimo Sentido (1982) e O Grito (1975), todos da Rede Globo; mas também critica outros, como Sinal de Alerta (Globo, 1978) e O Rebu (Globo, 1974). Sobre Sinal de Alerta, esbraveja "Que novela horrorosa! Era sobre poluição, com direção de Walter Avancini. Um papel chato, que não me traz grandes lembranças", p.  101. Sobre O Rebu, é categórica: "Era um papel que não ia me acrescentar nada. Pedi para sair!", p. 102. A atriz também não via com bons olhos a pressão imposta em produções de TV, julgava desnecessária: "A televisão tem uma capacidade muito maior do que o cinema para fazer uma cena bonita, mesmo com toda a correria. Aliás, uma correria que não tem tanta necessidade. Não vejo porque é preciso correr tanto, fazer tudo para ontem, o que é um horror! E o que é a televisão? É uma boa história, um bom texto. Quando você percebe cada ponto, cada vírgula, isso é um bom texto", p. 70 e 71. 

Ler a biografia de Ruth de Souza é estar diante de uma mulher determinada, segura, sem meias palavras, consciente do seu talento e que sempre estava disposta a trabalhar. Durante toda a vida, Ruth mostrou que ser perseverante era o caminho para conquistar os próprios sonhos. Num dos trechos da excelente obra, Maria Angela de Jesus destaca uma reflexão da atriz sobre essa característica: "A força de uma pessoa que tem talento, que persiste no sonho e tem um objetivo, acaba fazendo as coisas acontecerem. Só é preciso planejar. A gente tem de planejar no seguinte sentido: O que eu quero?! Como é que vou conseguir isso? Como é que vou chegar onde quero?", p. 52. Ruth nunca se casou nem teve filhos, mas deixou para a cultura brasileira um legado que vai atravessar gerações.

Referência:

JESUS, Maria Angela de. Ruth de Souza: estrela negra. 2. ed. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2007. (Coleção Aplauso).

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