Arquivo da página "RauLendo: leituras em pauta": 2015-2020

 Lima, Dias e Gil: crônicas de um inquérito na barca 20/5/2020

Lima Barreto: genialidade e crítica social. Imagem: Livros Grátis.
Lima Barreto é um dos mais inspiradores e geniais escritores que o Brasil já teve. Caso alguém duvide disso, uma passada de olho nas suas crônicas, só para dar um exemplo de parte da sua produção, faz a dúvida ir para o espaço. O carioca, que nasceu sete anos antes da Abolição da Escravatura (13 de maio de 1881) e morreu no ano da Semana de Arte Moderna (1922), fazia um retrato contundente da sociedade da época nos seus textos. Com olhar apurado, irônico e debochado, Lima conseguiu desnudar a hipocrisia daquele Rio do início do século XX nas crônicas que deixou para a posteridade. Algumas merecem destaque, como A Polícia Suburbana, de 1914 ("Os policiais suburbanos têm toda a razão. Devem continuar a dormir. Eles, aos poucos, graças ao calejamento do ofício, se convenceram de que a polícia é inútil. Ainda bem")As Enchentes, de 1915 ("Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com os aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social"), Elogio da Morte, de 1918 ("A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência; ela só quer acompanhadores de procissão...""Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas") e Não as Matem, de 1915 ("Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor. Pode existir, existe, mas, excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver, é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento. Deixem as mulheres amar à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus!"). Ler Lima Barreto não é apenas ter contato com uma literatura social, criativa e política, é ler o Brasil de ontem e, infelizmente, ainda o de hoje. Mesmo passando por dificuldades e sofrendo todo tipo de exclusão, Lima conseguiu sobrepujar tudo isso e ser farol. Para sempre. 

Referência: 

BARRETO, Lima. Crônicas. 1911-1922. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bi000173.pdf>. Acesso em: 20 maio 2020.


O Santo Inquérito: crítica ao catolicismo. Imagem: reprodução da internet.


Dias Gomes, assim como Lima Barreto, descreveu o Brasil de forma muito peculiar, com críticas e humor. O Pagador de Promessas (1960) atesta isso e O Santo Inquérito (1966) também. A peça critica a Igreja Católica, destacando a violência da Inquisição e mostrando como a força religiosa pode fazer uma pessoa se sentir culpada, mesmo sem culpa. Branca Dias, a protagonista, prova isso na pele, ao ser punida por algo que não sabe, porque não cometeu nenhum ato que justificasse o seu julgamento. Padre Bernardo representa um líder religioso típico: manipulador e sempre cheio de razão. Contudo, Dias Gomes ultrapassa a dicotomia da mocinha e do vilão, compondo uma Branca altiva e debochada. Claro que, muitas vezes, ela cai na ingenuidade. Isso dá frescor à história, tornando a dramaturgia ainda mais interessante. O baiano, nascido em Salvador, em 1922 (ano da morte de Lima), sabia prender o leitor com as suas histórias. A leitura de O Santo Inquérito faz a gente querer virar a página o tempo todo, para saber as emoções que virão e como a injustiça com Branca e sua família vai acabar. É uma pena que o final reflete muito a realidade. A lei dos homens, muitas vezes, vence. "Até quando as fogueiras reais ou simplesmente morais (estas não menos cruéis) serão usadas para eliminar aqueles que teimam em fazer uso da liberdade de pensamento?", Dias Gomes. 

Referência:

GOMES, Dias. O santo inquérito. 9. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985. Disponível em: <http://escoladacrianca.com.br/ws/wp-content/uploads/2017/03/dias-gomes-o-santo-inquerito.pdf>. Acesso em: 20 maio 2020.

Auto da Barca do Inferno por [Gil Vicente, Midgard Editores]
Auto da Barca do Inferno: crítica de costumes. Imagem: reprodução do site da Amazon.

Auto da Barca do Inferno (1517), do dramaturgo português Gil Vicente, é uma obra que caracteriza muito bem o teatro de tipos, aquele em que os personagens reúnem características mais evidentes de determinadas classes sociais. Em geral, eles não têm uma personalidade formada, determinante. Vicente narra uma história que tem como intuito moralizar, mas que mostra que ninguém está tão distante de fazer coisas ruins e de ter atitudes reprováveis. É um teatro bem humano. As pessoas morrem e chegam a um lugar em que tem duas barcas, uma comandada pelo Diabo (que leva para o Inferno) e outra pelo Anjo (a que vai para o Céu). Obviamente, ninguém quer ir para o Inferno. É aí que Gil Vicente deita e rola para criticar os costumes: traição, falsidade, ganância. O maniqueísmo que a obra traz não é bobo. Mostra o trânsito entre o bom e o mau, natural a todo ser humano. A narrativa não é tão empolgante. É, inclusive, maçante em alguns momentos, por ter ações muito repetitivas, que não desafia a expectativa do leitor. Virou clássico e isso não se explica.

Referência:


*
O Caso Escola Base e a falta de uma regra básica do Jornalismo  16/8/2019
Escola Base: caso marcou a história do jornalismo brasileiro. Imagem: site da Editora Casa Flutuante
Não precisa fazer nenhuma pesquisa para afirmar que, de 1994 para cá, é quase impossível ter um estudante ou profissional de Jornalismo, no Brasil, que não conheça o Caso Escola Base. Se tem, as faculdades estão falhando. O emblemático episódio começou a figurar nas manchetes dos jornais, rádio e TV em março daquele ano e, por falta de um requisito básico da prática jornalística, a apuração, "matou" socialmente seis pessoas. Explico: Icushiro ShimadaMaria Aparecida Shimada e Paula Milhim, donos da Escola de Educação Infantil Base, localizada em São Paulo, foram acusados de abuso sexual por Cléa Parente e Lúcia Tanoue, mães de estudantes da instituição. Além deles, Maurício Alvarenga (marido de Paula e motorista do transporte escolar) e o casal Mara França e Saulo Nunes (pais de aluno da Escola Base) também foram acusados de fazer parte do suposto esquema de pedofilia. O fato é que a imprensa, capitaneada pela Rede Globo, dona do furo jornalístico (Cléa e Lúcia entraram em contato com a emissora com o objetivo de que a denúncia não deixasse de ser investigada e, claro, buscando uma notoriedade para o caso), tomou a queixa das mães como verdade e uma série de reportagens que exploravam o episódio de forma sensacionalista foram veiculadas a partir de então. O estopim foi a reportagem da Globo, conduzida por Valmir Salaro, no Jornal Nacional, em 29 de março de 1994. A única "prova" sobre o "crime" que os jornalistas tinham era o depoimento das mães e as declarações de Edélcio Lemos, delegado do caso, que também deixou de cumprir a sua função com responsabilidade. Por falta de provas, o inquérito foi arquivado, mas os acusados ficaram com marcas que ressoam até hoje.

No intuito de descobrir como o caso marcou a vida dos envolvidos, o jornalista e editor-chefe do portal Casa dos FocasEmílio Coutinho, lançou, em 2016, o livro-reportagem Escola Base: onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira (Editora Casa Flutuante, 135 páginas). Com prefácio de Heródoto Barbeiro, a obra traz um significativo trabalho de investigação de Emílio. Em dez capítulos, o jornalista descortina a história e mostra para o leitor o que aconteceu com as pessoas que participaram diretamente dela. A narrativa é interessante e quem lê se coloca o tempo todo no lugar de Coutinho, na difícil jornada de busca dos personagens, uma vez que, na época de lançamento do livro, o episódio já tinha 22 anos de ocorrido. O casal Shimada, por exemplo, já morreu. E será que todo mundo quis falar sobre o caso ou, como alguns jornalistas que cobriram, na época, as pessoas preferiram o silêncio? No livro, Emílio Coutinho narra todas as aventuras para colher os depoimentos e consegue uma entrevista exclusiva com Valmir Salaro, um dos poucos profissionais que reconhecem o erro. A leitura vale a pena.

Em tempo: Emílio Coutinho está prestes a lançar mais um livro sobre o caso, mas com outra perspectiva. Trata-se de O Filho da Injustiça, parceria do jornalista com Ricardo Shimada, filho do casal Shimada. De acordo com uma postagem do próprio Emílio, no portal Casa dos Focas, o livro "mostrará outro aspecto dessa história e colocará o leitor na pele de umas das vítimas mais próximas da Escola Base". Vamos aguardar.

Referência:

COUTINHO, Emílio. Escola Base: onde e como estão os protagonistas do maior crime da imprensa brasileira. São Paulo: Editora Casa Flutuante, 2016.

*
Hebe Camargo: vida, obra e outras gracinhas  8/7/2019

Hebe Camargo: na capa da biografia, a foto de Petronio Cinque faz a gargalhada de Hebe ecoar. Imagem: site do Grupo Editorial Record

Se estivesse viva, a apresentadora Hebe Camargo estaria com exatos 90 anos e quatro meses de idade. Certamente, cheia de vida, como era comum vê-la sempre que entrava no ar na TV ou nas inúmeras entrevistas que concedeu em mais de 60 anos de carreira. A paulista de Taubaté estreou na vida em 8 de março de 1929 e viu a cortina se fechar em 29 de setembro de 2012, vítima de uma parada cardíaca. Apesar de ter nascido na cidade que virou sinônimo de "mentira", devido a um caso de falsa gravidez de uma mulher, que ganhou repercussão na mídia, em 2012, Hebe Camargo carregou uma verdade durante toda a sua vida: era a melhor apresentadora da televisão brasileira. E era mesmo! É oportuno até fazer uma brincadeira com o nome dela, para ratificar essa qualidade: HEBEst! Quem assistia aos programas de Hebe, podia constatar isso. Segura, carismática, inteligente e a que melhor sabia usar as deixas para introduzir um merchan.

Em 2017, a editora BestSeller colocou no mercado o livro Hebe: a biografia, de autoria de Artur Xexéo. A obra segue o feijão com arroz de publicações dessa natureza, cheia de linearidade e sem nenhum esforço criativo por parte do autor. O fato de Hebe ser a personagem do livro é o que faz a biografia ser interessante. Hebe era gigante e, dificilmente, um produto em homenagem a ela ficará ruim. Por sinal, em 26 de setembro, estreia o filme Hebe - A Estrela do Brasil (direção de Maurício Farias e roteiro de Carolina Kotscho), com Andréa Beltrão no papel da artista.

Em mais de 200 páginas, Xexéo conta como Hebe começou a carreira, a fase de cantora, atriz e a consagração como apresentadora. As curiosidades da vida da Rainha da TV, os amores, as decepções, as brigas, os embates com políticos e os desafios estão presentes no documento. Nele, o leitor fica sabendo que Hebe quase seria "Beatriz". Contudo, uma tia fez o pai mudar de ideia. Com tanta vivacidade, a dama da TV brasileira não poderia ter outro nome mesmo. Na mitologia grega, "Hebe" é a deusa da juventude. Para quem gosta de cultura nacional e televisão, vale muito a pena conhecer um pouco mais da vida dessa artista cheia de "gracinha".

Referência:

XEXÉO, Artur. Hebe: a biografia. 7ª ed. Rio de Janeiro: BestSeller, 2018.

*
Tropicália: a história de uma revolução musical 22/4/2019
Tropicália e seus personagens na capa do livro de Carlos Calado. Imagem: reprodução do site da Editora 34

A riqueza musical do Brasil é indiscutível. De tempos em tempos, surgem movimentos que são capazes de transformar a nossa realidade sociopolítica e cultural, mudando tudo. Assim foi a Tropicália, uma revolução artística que sacudiu o país na década de 60, do século passado. Capitaneado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, o Tropicalismo, como também ficou conhecida a subversão artística dos jovens, teve manifestações nas artes plásticas e na literatura, mas foi na música que ganhou corpo e notoriedade.

Carlos Calado, jornalista e crítico musical brasileiro que acompanha a cena fonográfica nacional desde a década de 80, registrou, no livro Tropicália: a história de uma revolução musical, toda a pulsação artística do movimento. Com fotos, muitos depoimentos e algumas boas curiosidades, Calado apresenta uma narrativa interessante e cheia de detalhes sobre a Tropicália. A viagem tem sido rica e surpreendente. Vai ter, em breve, resenha sobre a obra aqui no blog, na seção Desde Então. Até lá!

Referência:

CALADO, Carlos. Tropicália: a história de uma revolução musical. 1ª ed. São Paulo: Ed. 34, 1997. (Coleção Ouvido Musical).
*
Passo a passo para o respeito 23/7/2018
Reprodução da capa do Manual de Comunicação LGBTI+

Da inadequada sigla GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes) à LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexuais. O "+" se refere a outras orientações sexuais, identidades e expressões de gênero), muita coisa mudou, mas muita coisa ainda precisa mudar. É com o intuito de fazer com que as coisas mudem, que a rede GayLatino e a Aliança Nacional LGBTI lançaram recentemente a 2ª edição do Manual de Comunicação LGBTI+, cujo objetivo é "contribuir para diminuir preconceitos e estigmas e colaborar para o melhor entendimento de termos que são recorrentes entre a população LGBTI+, mas que podem não ser usuais no dia a dia de comunicadores(as) e estudantes, a fim de contribuir para um jornalismo mais inclusivo e atento às realidades". O documento, que foi organizado por Toni Reis (presidente da Aliança Nacional LGBTI), é rico em informações e apresenta os conceitos de forma muito didática, para ninguém se confundir. Por isso, o tempo todo, o livreto pede para o leitor "substituir preconceito por informação correta". 

E, pelo didatismo da obra, isso pode ser feito sem muito esforço. Basta ler. O leitor vai se deparar com a explicação de conceitos que podem parecer simples, mas que carregam uma carga ideológica importante. Um exemplo introdutório é o uso de "orientação sexual" no lugar de "opção sexual". Justificativa: ninguém opta por sua orientação sexual. A atração sexual, afetiva e emocional, nesse caso, é involuntária. Além disso, o manual traz uma boa reflexão sobre identidade e expressão de gênero, mostrando o lado científico da coisa, e explica o motivo do uso da Bandeira do Orgulho LGBTI+ e o que cada cor representa. Questões relacionadas a preconceito, discriminação e estereótipos também são tratadas no documento, com destaque para a LGBTIfobia institucionalizada. Tudo que foi conquistado até agora, no Brasil e no mundo, é abordado no texto do impresso. Contudo, o mais importante que a leitura evoca é aquilo que todo mundo quer: respeito.

Explicação didática sobre identidade e expressão de gênero e orientação sexual. Imagem: reprodução do Manual

Toda a sociedade deveria ler o manual, independentemente de trabalhar na área de comunicação ou não. Com conhecimento, ninguém vai sair por aí falando "homossexualismo", "o travesti" e tantas outras inadequações. 

Referência:

REIS, Toni (org.). Manual de Comunicação LGBTI+. 2ª ed. Curitiba: Aliança Nacional LGBTI/GayLatino, 2018.

*
Conta Raul! 14/5/2018
O Raul que me contaram: a história de Raul Seixas contada através de entrevistas com colegas, amigos e familiares. Foto: divulgação

Em agosto de 2015, mais precisamente no dia 20, a TV Brasil exibiu o especial Raul: "Esse caminho que eu mesmo escolhi", no programa Caminhos da Reportagem. A produção foi capitaneada pelo jornalista Tiago Bittencourt e uma equipe de mais de dez profissionais. Do programa, nasceu o livro O Raul que me contaram: a história do Maluco Beleza revisitada por um programa de TV (Martin Claret, 2017, 451 páginas), de autoria de Tiago. Em entrevista para o programa Sem Edição, aqui do Desde, o jornalista explicou a razão de transformar o audiovisual em material impresso: "Foi de uma necessidade. Você faz um programa de uma hora como esse, você grava vinte horas, trinta horas, talvez. Você grava muito mais! Tivemos 23 entrevistados, só da nossa equipe de Brasília, fora os apoios de outras praças. 23 entrevistados: umas quarenta, cinquenta horas deve ter gravado. Era muito material, muita história que eu achei que a gente não devia perder. Como é que a gente vai não perder esse material? Vamos trazer as entrevistas na íntegra. O livro é isso: são as entrevistas na íntegra, em que eu trago os meus relatos em relação à produção do programa, a como chegamos a essas pessoas, como elas me receberam, o ambiente que foi aquilo, qual é a relação, por que ela entrou na história. Não temos só pessoas conhecidas, temos desconhecidas no meio de Raul também. Ou seja: a gente contou a história de Raul dentro do contexto da história do programa. Por isso que tem entrevistas também com a nossa equipe de produção".

A narrativa do livro é dinâmica e causa muito interesse, principalmente porque traz depoimentos de pessoas que conviveram diretamente com Raul, como Sylvio PassosCarlebaMarcelo NovaKika Seixas e o guitarrista Sydney Valle, o "Palhinha", que faz questão de não endeusar o roqueiro baiano. A cada página virada, o leitor fica curioso para descobrir mais sobre Raul Seixas, para idealizar quem foi esse artista que mexeu com a música brasileira e deu contribuições valorosas para a nossa cultura. A obra também se torna rica com as histórias de bastidores que Tiago traz e com as estratégias criadas, e não explícitas, para arrancar as informações mais importantes dos entrevistados. Na entrevista com Marcelo Nova, Tiago utiliza técnicas que nenhuma faculdade de jornalismo seria capaz de ensinar. É fruto da prática mesmo. Para quem gosta de música, de cultura nacional, de jornalismo, de comunicação e de TV, o livro de Tiago vai agradar em cheio.

Referência:

BITTENCOURT, Tiago. O Raul que me contaram: a história do Maluco Beleza revisitada por um programa de TV. 1. ed. São Paulo: Martin Claret, 2017.

Assista à edição do programa Caminhos da Reportagem que deu origem ao livro:


Assista à entrevista que Tiago Bittencourt concedeu ao programa Sem Edição:


*
Solano e o seu Canto 26/3/2018
Canto Negro, de Solano Trindade: literatura engajada. Foto: Raulino Júnior

Você é mais da prosa ou da poesia? Eu sou da prosa, mas algumas obras de poesia me arrebatam. Canto Negro, de autoria de Solano Trindade, é uma delas. A poética de Solano é leve e profunda; social e romântica. Cabe tudo nela. Quem lê os poemas do livro percebe o olhar atento do autor para os problemas que insistem em fazer parte do cotidiano do seu povo. Solano fala de violência e das dificuldades enfrentadas pelos negros: Eu sou o poeta negro/De muitas lutas/As minhas batalhas/Têm  a duração de séculos. Contudo, os seus poemas também desconstroem muitos estereótipos e evidencia a potencialidade dos afrodescendentes. Muleque (assim mesmo, com "u"), que reproduzo abaixo, é um dos mais emblemáticos nesse sentido:

Muleque, muleque
quem te deu este beiço
assim tão grandão?

Teus cabelos
de pimenta do reino?

Teu nariz
essa coisa achatada?

Muleque, muleque
quem te fez assim?

Eu penso, muleque
que foi o amor...

Outro poema  marcante de Canto Negro é Mulher Barriguda, que profetiza algo que, infelizmente, ainda está longe de acontecer:

Mulher barriguda
Que vai ter menino
Qual é o destino
Que ele vai ter,
Que será ele,
Quando crescer...

Haverá inda guerra?
Tomara que não
Mulher barriguda
Tomara que não

Tomara, não é?!

 Referência:

TRINDADE, Solano. Canto negro. São Paulo: Pallas, 2006.

*
Um livro cheio de Axé! 16/8/2017
As donas do canto, de Marilda Santana. Foto: reprodução do Wikimedia
Por Raulino Júnior 

A indústria da Axé Music e o Carnaval de Salvador, certamente, são temas de vários estudos acadêmicos Bahia afora. Em 2009, foi a vez da pesquisadora Marilda Santanna se debruçar sobre a temática. Da sua tese de doutorado, nasceu o livro As donas do canto: o sucesso das estrelas-intérpretes no Carnaval de Salvador, publicado pela EDUFBA (Editora da Universidade Federal da Bahia).

Na obra, Marilda mostra todo o contexto que possibilitou a explosão da Axé Music no Brasil e concentra o seu estudo analisando as trajetórias artísticas de Daniela MercuryMargareth Menezes e Ivete Sangalo. Nesse sentido, a autora destaca como cada "estrela-intérprete" ganhou notoriedade na já referida indústria e enfatiza as especificidades da carreira das cantoras.

Para quem tem interesse em saber mais sobre a história da vertente da música baiana que tomou conta do país nas décadas de 80 e 90 do século passado, o livro é uma ótima indicação.

Referência:

*
 Um manual para as notícias de hoje 23/7/2017
Manual de Diversidade no Jornalismo: importante e necessário. Imagem: captura de tela
O mundo mudou e a forma de fazer jornalismo também. Na verdade, nem tanto. Se as tecnologias da informação e da comunicação ajudaram a democratizar a prática de produção de conteúdo informativo e contribuíram para fomentar o caráter multimídia dos gêneros jornalísticos, as redações espalhadas Brasil afora ainda não democratizaram muitos dos seus hábitos. Nesse sentido, a falta de diversidade em toda a cadeia de comunicação é uma das questões mais significativas desse processo. Esse é o assunto abordado no Manual de Diversidade no Jornalismo, lançado em junho deste ano, pela Énois Inteligência Jovem, uma agência-escola de jornalismo fundada em 2009, com sede em São Paulo.

Trecho presente na segunda parte do Manual de Diversidade no Jornalismo: imprensa do lado de lá. Imagem: captura de tela

No documento, os leitores são convidados a refletir sobre questões como representatividade e empatia. Além disso, conferem dicas de como diversificar as fontes e as pautas. A ordem é garantir a diversidade no universo dos produtores de mídia e abordar assuntos que não são comumente abordados ou que são veiculados de forma preconceituosa. O guia, como está explícito na sua capa, tem como lema ser "aberto e não definitivo", em busca de uma prática mais consciente. Isso é muito importante. Em 30 minutos, você lê o manual. E vale a pena!

Referência:

WEINGRILL, Nina; CUNHA, Simone (org.). Manual de Diversidade no Jornalismo: um guia aberto e não definitivo para uma prática mais consciente. 1. ed. São Paulo: Énois Inteligência Jovem, 2017.
*
O Avesso da Cena: prazer pelos bastidores    10/6/2017 
Imagem: reprodução do perfil de Romulo Avelar no Facebook
Por Raulino Júnior 

O que um produtor cultural faz? Tem diferença, no que diz respeito ao trabalho que é realizado, entre produtor e gestor cultural? Quais são as etapas de uma produção? Como gerir grupos culturais? Essas e outras perguntas são respondidas no livro O Avesso da Cena: notas sobre produção e gestão cultural, de Romulo Avelar. A obra, lançada em 2008, está na sua 3ª edição e se tornou consulta obrigatória para quem trabalha no universo cultural. Romulo, administrador, produtor e gestor cultural, usa uma linguagem simples para abordar questões fundamentais sobre a área.

O Avesso da Cena é rico em depoimentos de artistas, gestores e produtores de todos os cantos do Brasil. Avelar consegue fazer uma boa costura e mostrar para o leitor como o trabalho dos bastidores é tão importante quanto aquilo que vai para a cena. O autor compartilha as próprias experiências no ramo e, vez ou outra, entrecorta a narrativa com seus artigos reflexivos. Um dos mais interessantes é o intitulado "'Você sabe com quem está falando?'", que fala sobre a famosa tradição da carteirada. O livro tem passagens técnicas e discussões necessárias acerca da trajetória da política cultural do país. Quem lê, é obrigado a percorrer outros caminhos, para o processo de leitura fazer ainda mais sentido. A caminhada é muito prazerosa. Siga em frente.

Referência:

AVELAR, Romulo. O avesso da cena: notas sobre produção e gestão cultural. 3. ed. Belo Horizonte: Ed. do Autor, 2013.
*
 O Fino da Bossa nas páginas de um livro    6/4/2017  
O Fino da Bossa: livro documenta parte importante da história da Música Popular Brasileira. Imagem: reprodução do site da editora Panda Books

Em maio de 1965, a TV Record (hoje, Record TV) colocava no ar um programa que revolucionaria a televisão brasileira e, principalmente, a nossa música: O Fino da Bossa. A atração, que tinha no comando Elis Regina e Jair Rodrigues, foi palco para artistas que têm suas carreiras consagradas até hoje e para aqueles que permanecem vivos na memória musical do Brasil.

A história do programa que popularizou o termo MPB (Música Popular Brasileira) é contada pelos jornalistas Lucas Reginato e Júlia Bezerra, no livro-reportagem O Fino da Bossa: o programa de televisão que revolucionou a Música Popular Brasileira, publicado pela editora Panda Books. A obra faz parte da coleção Movimentos Musicais, que é composta por mais dois títulos: Funk: a batida eletrônica dos bailes cariocas que contagiou o Brasil e Manguebeat: guitarras e alfaias da lama do Recife para o mundo. Todos os livros da coleção são de autoria dos jornalistas citados.

Como a Record não tem material de acervo do programa, devido a alguns incêndios que aconteceram na emissora, o livro já se torna importante por documentar uma fase rica e fundamental da MPB. Nele, o leitor se depara com histórias dos bastidores e conhece os principais personagens que fizeram O Fino da Bossa acontecer, como Walter Silva e Manoel Carlos (o novelista das Helenas produziu e dirigiu o programa). Vale muito a pena embarcar nessa viagem. Principalmente, se você gosta de música. O livro é fino. Em todos os sentidos.

Mais uma dica de leitura sobre o mesmo tema: a monografia O Fino da Bossa: tradição e modernidade na Música Popular Brasileira (1965-1967), de Andrea Maria Vizzotto Alcântara Lopes. O trabalho é de 2010 e foi apresentado ao Departamento de História da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Referência:

BEZERRA, Júlia; REGINATO, Lucas. O Fino da Bossa: o programa de televisão que revolucionou a Música Popular Brasileira. 1. ed. São Paulo: Panda Books, 2017. (Coleção Movimentos Musicais).

*
  O legado de Clarindo Silva     3/1/2017
Clarindo Silva: biografia do defensor do Centro Histórico de Salvador. Foto: Raulino Júnior

A coleção Gente da Bahia, ação de marketing cultural da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, já é digna de aplausos apenas pela iniciativa de perpetuar as histórias de importantes personalidades baianas. Porém, quando a biografia em questão é a de Clarindo Silva, o aplauso tem que ser de pé e bastante efusivo. 

Lançado em 2012, o livro Clarindo Silva: o Dom Quixote do Pelourinho, de autoria do jornalista Vander Prata, é uma leitura bastante necessária, por inúmeros motivos: além de conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra do simpático dono da Cantina da Lua, o leitor tem uma visão bastante sólida sobre o processo de transformação do Centro Histórico de Salvador. Ainda que não se tratasse de sua própria biografia, Clarindo seria o protagonista da história, uma vez que sua luta pelo bem do Pelourinho é pública, notória e repleta de premiações.

A narrativa de Prata é envolvente e faz qualquer um querer voltar no tempo para viver toda a pulsação cultural promovida por Clarindo, através de seus projetos, no Terreiro de Jesus. Outra coisa: quem lê a obra não deixa de constatar que o senhor, oriundo de Conceição do Almeida,  e que fez fama em Salvador, é, como o próprio Pelourinho, um patrimônio da nossa cultura. Um salve ao Mestre Calá!

Referência:

PRATA, Vander. Clarindo Silva: o Dom Quixote do Pelourinho. 2. ed. Salvador: Assembleia Legislativa, 2014. (Coleção Gente da Bahia).

*
                 Teatro político e necessário    12/12/2016
Nem Mesmo Todo o Oceano: um drama sobre política e alienação. Foto: Raulino Júnior

"Não consegui mais esconder de mim um juízo que me aniquilava, por ser verdadeiro: eu era um covarde. Eu odiava ser um covarde. Mas não tinha coragem para deixar de sê-lo", p. 42. Esse trecho emblemático descreve com propriedade o protagonista do livro Nem Mesmo Todo o Oceano, adaptação de Inez Viana, atriz e diretora teatral, para o romance homônimo do escritor mineiro Alcione Araújo (1945-2012). Inez transformou a obra de Alcione em peça de teatro e estreou o espetáculo em agosto de 2013, no Rio de Janeiro, com a sua Cia OmondÉ. O drama foi apresentado em Salvador no início de novembro (leia, na seção DESDEnhas, a resenha Vivendo em outro mundo, que fala sobre a montagem).

O protagonista, que na peça não tem nome e aparece no texto como Ele é, de fato, um covarde. Por isso, o destaque para o trecho citado acima, uma fala do próprio personagem. Num Brasil acuado pela ditadura militar, um jovem mineiro, de origem humilde, vive "os anos de chumbo", no Rio de Janeiro, totalmente alheio à situação política do país. Para ele, o que importa é o seu curso de medicina, o seu sonho. Numa época em que o espírito de coletividade era tão necessário, o jovem deixava o egoísmo decidir as suas ações. Por isso, se enrola e acaba como vítima de um sistema que ajudou a construir.

O livro prende o leitor e tem uma trama muito bem conectada com o contexto histórico. Vale muito a pena ler. Principalmente, para não ser mais um Ele.

Referência:

VIANA, Inez. Nem mesmo todo o oceano. 1. ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2015. (Adaptação do romance homônimo de Alcione Araújo).

*
Áfricas no Brasil    31/10/2016
Áfricas no Brasil: linguagem simples e repleto de boas referências. Imagem: reprodução do site da editora Scipione

Estudar a história dos negros no Brasil, além de ser importante para a gente entender e conhecer o nosso país, virou obrigação. Em 2003, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 10.639, que obriga a inclusão da temática da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino. O livro Áfricas no Brasil, de Kelly Cristina Araujo, é um ótimo ponto de partida para introduzir o que a lei preceitua.

Com linguagem simples e repleto de boas referências, a obra fala sobre a chegada dos africanos no Brasil, destacando a violência como isso aconteceu. A autora explora, de forma bastante didática, as contribuições dos negros para a religiosidade e cultura brasileiras. Kelly traz dados importantes no capítulo em que fala sobre o candomblé, como a informação de que o primeiro terreiro instalado no Brasil foi o Casa Branca do Engenho Velho, em Salvador.

O livro é voltado para crianças a partir de 11 anos, mas estudantes e educadores de todas as idades devem ler e aproveitar o que a autora coloca em discussão. É muito bom para começar.

Referência:

ARAUJO, Kelly Cristina. Áfricas no Brasil. São Paulo: Scipione, 2003. (Série Diálogo na Sala de Aula).

*
A Miss que nem era tudo isso!    17/7/2016
Martha Vasconcellos: coroada na capa de sua biografia. Foto: Raulino Júnior

O livro da vez é Martha Vasconcellos: a rainha da beleza universal, biografia assinada pelo jornalista Roberto Macêdo, que presta uma homenagem à segunda brasileira eleita Miss Universo (a primeira foi Ieda Maria Vargas, em 1963). Embora não considere Martha Vasconcellos essa "rainha da beleza universal", a conquista dela serviu de consolo para os brasileiros, que viu o título passar perto em 1954, quando Martha Rocha ficou em segundo lugar. A obra foi lançada em abril de 2015 e faz parte da Coleção Gente da Bahia, ação de marketing cultural da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia (ALBA).

A publicação nos ajuda a ter noção de como os concursos de misses movimentavam o país naquela época. Em 1968, Martha foi eleita Miss Bahia, Miss Brasil e Miss Universo. Roberto conta como tudo isso aconteceu, trazendo até detalhes desnecessários para a narrativa, como neste trecho em que fala do embarque dela para a disputa do título em Miami"Compareceram ao embarque de Martha as Misses Ceará, Paraná, Piauí e Maranhão. A cearense estava aniversariando e todos cantaram parabéns para ela no Galeão", p. 166. E daí, não é?

Durante a leitura, dá para perceber que o livro é um presente de fã. A narrativa é, cansativamente, elogiosa, mostrando uma Martha perfeita no corpo e na alma. Na época do lançamento, em entrevista exclusiva para o Desde, indagado se houve algum tipo de censura por parte da ex-miss, Roberto revelou: "Há um detalhe que ela não queria que tocasse. Eu cheguei para a direção da Assembleia e disse: 'Ela não gostaria de tocar nesse assunto'. O pessoal da Assembleia disse que esse projeto é uma homenagem, que não quer constranger ninguém. Então, foi ótimo, porque o meu pensamento estava indo ao encontro do pensamento da Asssembleia. E assim foi. O detalhe dizia respeito ao segundo casamento dela, uma coisa que não acrescentava nada na vida dela. A gente nem tocou, só disse que ela teve um segundo casamento".

Desde a sua primeira edição, em 1954, até hoje, o concurso Miss Brasil perdeu prestígio no país. Entre as eleitas, há nomes como o de Martha Rocha (que venceu em 1954, tornando-se a primeira Miss Brasil), o de Adalgisa Colombo (1958) e o de Vera Fischer (1969). Quando foi eleita em 1968, Martha Vascocellos não imaginava que fosse chegar tão longe. Chegou e a sua história virou livro. Mais uma vitória.

Referência:

MACÊDO, Roberto. Martha Vasconcellos: a rainha da beleza universal. Salvador: Assembleia Legislativa, 2014. (Coleção Gente da Bahia).

*
Jair Rodrigues por Regina Echeverria: para viver a saudade  23/5/2016

Jair Rodrigues e seu inconfundível sorriso na capa da biografia. Foto: reprodução do site da Livraria Imprensa Oficial


Há dois anos, a música brasileira perdia o sorriso e a alegria de Jair Rodrigues. O cantor morreu em maio de 2014, deixando um rico legado de canções e de histórias. Contudo, quem quiser viver a saudade do Jairzão, pode começar lendo a biografia Jair Rodrigues: deixa que digam, que pensem, que falem, da conhecida biógrafa Regina Echeverria.

A obra foi lançada em 2012, pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e faz parte da premiada Coleção Aplauso, que preserva a memória cultural do país. Ao passar as páginas, o leitor tem a sensação de que Jair está narrando a história para ele. O recurso usado por Regina, de colocar a narrativa em primeira pessoa, contribui para isso. Num dado momento, o riso e a simpatia do cantor tomam conta da leitura.

A biografia está disponível para download gratuito no site da Livraria Imprensa Oficial. E, se ouvir Jair já vale muito a pena, ler a sua história de vida é tão bom quanto.

Referência:

ECHEVERRIA, Regina. Jair Rodrigues: deixa que digam, que pensem, que falem. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012. (Coleção Aplauso: Música).

*

O Menino Maluquinho não é um livro inocente   20/4/2016

Por Raulino Júnior

Não é mesmo! A obra de Ziraldo, publicada em 1980, mostra toda a vivacidade de um menino que aproveita a infância de forma intensa, corajosa e sem se importar com a opinião dos outros. O exemplar traz mensagens implícitas que servem para pessoas de todas as idades. Fidelidade, companheirismo e criatividade são tópicos presentes nas páginas de um dos livros mais populares da nossa literatura. 

Em menos de dez minutos, o leitor viaja pelo mundo do Maluquinho. A narrativa é dinâmica e acompanha a agilidade do personagem. É impossível não se lembrar da própria infância durante a leitura. Ou, pelo menos, não se transportar para a história como se fosse o próprio Menino Maluquinho

Menino Maluquinho e uma de suas estratégias para encarar os problemas: boas lições. Foto: reprodução do livro

O protagonista é, como todo humano, uma pessoa que ri, fica triste e se angustia. Num dos trechos mais emblemáticos do livro, Ziraldo diz: "se tinha sombras, ele inventava de criar o riso, pois era cheio de graça". Talvez, essa seja a melhor forma de encarar os problemas. O menino é maluquinho, mas cheio de razão.

Referência:

PINTO, Ziraldo Alves. O menino maluquinho. 1. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1980.

*

Esse tal de jornalismo cultural...   7/11/2015

Foto: captura de tela feita em 7 de novembro de 2015

O artigo A cultura no jornalismo cultural, de Denise da Costa Oliveira Silveira e Euler David de Siqueira, é uma leitura necessária para quem se interessa pela temática. O texto tem uma linguagem bastante simples e toca em questões indispensáveis para a prática do jornalismo cultural. 

Nesse sentido, esclarece que esse tipo de jornalismo é feito quando a cultura é colocada em pauta. A importância dos cadernos de cultura, que ainda sobrevivem em alguns jornais impressos, é destacada pela dupla. Outro ponto de destaque é quando Denise e Euler falam da relação entre a editoria de cultura e a indústria cultural: "...a editoria de cultura lida diretamente com a indústria cultural, sendo, em primeiro lugar, um produto desta e, em segundo, um espaço privilegiado para divulgação de outros produtos da mesma indústria cultural", p. 108.

Mas, e o que é, de fato, trabalhar com jornalismo cultural? No artigo, os autores afirmam o seguinte: "...trabalhar com jornalismo cultural é trabalhar também com formas de arte, com a esfera do simbólico e paralelamente se reeducar no convívio com esses universos", p. 109. No decorrer do texto, o leitor encontra algumas explicações sobre o conceito de arte, a dificuldade de definir cultura e um breve histórico sobre a expansão do jornalismo literário no Brasil.

É interessante também a reflexão proposta pelos autores sobre o que deve ser abordado quando se pensa em jornalismo cultural. E eles indagam: "...uma primeira questão a se abordar quando se pensa em jornalismo cultural seria: o aspecto comercial compromete a atividade crítica nos cadernos de cultura? A segunda questão seria: e o leitor, estaria disposto a ler críticas densas sobre as obras de arte ou buscaria nos espaços das editorias de cultura apenas textos mais amenos?", p. 110. O que você responde, leitor?

O artigo A cultura no jornalismo cultural foi publicado em junho de 2007, na Revista Líbero, da Faculdade Cásper Líbero. Com ele, o Desde encerra as atividades da seção RauLendo neste ano. Até 2016!

Referência:

SIQUEIRA, Denise da Costa Oliveira; SIQUEIRA, Euler David de. A cultura no jornalismo cultural. In: Revista Líbero, Ano X, n. 19, jun. 2007. Disponível em: <http://casperlibero.edu.br/wp-content/uploads/2014/05/A-cultura-no-jornalismo-cultural.pdf>. Acesso em: 7 de novembro de 2015.


* 

Manual para jornalistas   8/10/2015 

Imagem reproduzida do site da Editora Contexto


Coleção Comunicação, da Editora Contexto, é repleta de títulos interessantes para quem é da área de jornalismo. As obras, escritas por autores com vasta experiência profissional nas temáticas que discorrem, são excelentes guias para aprimorar os conhecimentos. O Manual do Foca: guia de sobrevivência para jornalistas é um deles.

De autoria da jornalista Thaïs de Mendonça Jorge, o exemplar traz informações sobre notícia, pauta, reportagem, entrevista e dá dicas relacionadas a algumas técnicas jornalísticas. Durante a leitura, o leitor descobre por que o termo "foca" é utilizado para se referir aos jornalistas que estão no início de carreira. Outras curiosidades do jargão jornalístico também integram o glossário da publicação.

Thaïs de Mendonça Jorge já trabalhou em renomados veículos de imprensa do Brasil, como o jornal Correio Braziliense e a revista IstoÉ. Atualmente, é professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB).

Para quem se interessou pelo livro, uma boa notícia: ele está disponível em arquivo PDF na web. Aproveita!

Referência:

JORGE, Thaïs de Mendonça. Manual do foca: guia de sobrevivência para jornalistas. São Paulo: Contexto, 2008. Coleção Comunicação. 

*

65 anos de TV no Brasil   18/9/2015

Foto: captura de tela feita em 18 de setembro de 2015


 Hoje faz, exatamente, 65 anos desde que a primeira transmissão de TV foi feita no Brasil. Era 18 de setembro de 1950 e a responsável por essa proeza foi a TV Tupi, que pertencia ao conglomerado Diários Associados, de Assis Chateaubriand

Todo o itinerário da implantação da TV em terras brasileiras pode ser lido no artigo Um olhar histórico na formação e sedimentação da TV no Brasil, do jornalista Plínio Marcos Volponi Leal. O trabalho foi apresentado no VII Encontro Nacional de História da Mídia: mídia alternativa e alternativas midiáticas, em agosto de 2009, em Fortaleza. Nele, Plínio mostra os fatos que precederam e contribuíram nesse processo de implantação, traz algumas curiosidades (o Brasil foi, entre os países da América Latina, o primeiro a ter uma emissora de televisão) e fala do surgimento da Rede Globo e da TV Cultura.

Durante quase todo o texto, o jornalista cita como referência trabalhos de pesquisadores como Sérgio Mattos e Othon Jambeiro. O artigo satisfaz quem está começando a estudar a temática. A única crítica, além de alguns poucos problemas de redação, é que o trabalho de Plínio termina de forma abrupta, sem conclusão.

Referência:

LEAL, Plínio Marcos Volponi. Um olhar histórico na formação e sedimentação da TV no Brasil. Artigo apresentado no VII Encontro Nacional de História da Mídia: mídia alternativa e alternativas midiáticas. 19 a 21 de agosto de 2009. Fortaleza, Ceará. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/alcar/encontros-nacionais-1/encontros-nacionais>. Acesso em: 18 de setembro de 2015.

 *

Esclarecimentos sobre Economia Criativa   7/8/2015

Livro publicado pelo Sebrae: economia criativa em discussão. Foto: Raulino Júnior

Entre novembro de 2012 a março de 2013, a filial soteropolitana do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) realizou oficinas em algumas cidades da Bahia com o objetivo de discutir e diagnosticar os aspectos da economia criativa presente em cada localidade. O itinerário resultou no livro Economia Criativa e Cidades Criativas da Bahia, publicado em 2013. A obra traz artigos de pessoas que pensam e movimentam a economia criativa da Bahia, como Albino Rubim (na época, secretário de Cultura do Estado da Bahia) e Carlinhos Brown. Para quem trabalha, gosta e reflete sobre cultura, a obra é uma ótima introdução para entender o mercado. Vamos lá?!

Referência:
  
FONSECA, Ana Carla; PASSOS, Edival; BARRETO, Luiz; LEITÃO, Cláudia et al. Economia Criativa e Cidades Criativas da BahiaIlustração de Rogério Rios. Salvador, 2013. 

 *

Madrugada, Me Proteja!   15/7/2015 

Foto: reprodução de imagem do site de Cuti


Estou, aos poucos, tentando me reaproximar do teatro, atividade artística que me dá muito prazer. Recentemente, entrevistei Thiago Rigaud, que é profissional de educação física e ator, e, por causa dele, conheci o monólogo Madrugada, Me Proteja!, escrita por Luiz Silva, o Cuti. Em 2012, Thiago atuou na montagem feita pelo Grupo Iwá, em Salvador. 

A peça integra o livro Dois nós na noite e outras peças de teatro-negro brasileiro, que Cuti lançou em 1991. O texto de Madrugada, Me Proteja! toca no racismo, mas, acima de tudo, fala de nossa condição humana, de nossa vulnerabilidade. A dramaturgia é muito bem concebida, cheia de ironia e revelando os preconceitos que habitam a alma de todo ser humano. O monólogo é curto, mas repleto de grandes lições.

Cuti é paulista, de Ourinhos. Formou-se em Letras (Português-Francês), na Universidade de São Paulo e é mestre em Teoria da Literatura e doutor em Literatura Brasileira, pelo Instituto de Estudos da Linguagem, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Foi o criador da série Cadernos Negros.

Referência:
  
CUTI. Dois nós na noite e outras peças de teatro negro-brasileiro2ª edição, revista e ampliada. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2009. 184 p.

*

O homem que amava livros e homens: a autobiografia de José Aparecido Ferreira  18/6/2015


O homem que amava livros e homens: autobiografia. Foto: reprodução do blog de José Aparecido Ferreira


Através da leitura de um comentário feito por José Aparecido Ferreira, na página do Facebook de um programa de TV, descobri o livro O homem que amava livros e homens, de sua autoria. Trata-se de um relato autobiográfico em que José conta ao leitor como se deu o processo de negação e assunção de sua homossexualidade. A narrativa é bem interessante, principalmente por mostrar as ideias e opiniões de alguém que viveu aquilo que narra, sem ficção nem olhar preconceituoso.

José Aparecido Ferreira é professor da rede estadual de ensino de São Paulo, escreve e publica livros desde 2011. No seu blog, ele disponibiliza todas as obras que escreveu até então. Para quem quiser conferir, basta acessar www.joseaferreira.blogspot.com.br/

Referência:

FERREIRA, José Aparecido. O homem que amava livros e homens. 2. ed. Jundiaí, SP: edição do autor, 2013.

*

Tieta do Agreste: a pastora do cabra Amado 21/5/2015

Imagem  reproduzida do site da Fundação Casa de Jorge Amado.


Jorge Amado era (é) genial. De fato! Já li algumas outras obras do autor (A Morte e a Morte de Quincas Berro D'águaCapitães da AreiaGabriela, Cravo e Canela), mas, só com Tieta do Agreste, percebo o quanto Jorge era engenhoso nas suas criações. O texto de Tieta é leve, sem ser bobo; irônico, sem se esforçar para isso; divertido, mas cheio de críticas sociais sérias. É impossível ler e não se imaginar na história. E o pior: mudando de personagem o tempo todo! Às vezes, sou Osnar; às vezes, me sinto livre e combativo como Antonieta. Até com Perpétua me identifico! Enfim, uma obra e tanto! Estou saboreando.

Referência:
 
AMADO, Jorge. Tieta do Agreste. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

*

Amores, rumores, traumas e flores: a poesia de Nalini Vasconcelos  22/4/2015

Foto: reprodução do site de Nalini Vasconcelos

Não sou muito poético. Quer dizer, isso não é o que eu quero expressar. Na verdade, não tenho o costume de ler textos em formato de poemas. Digo isso, porque, mesmo na prosa, existe muita poesia. Mas, de quando em vez (acho bonitinha essa construção!), leio poemas. Os meus prediletos são os dos românticos. Adoro Casimiro de Abreu! Tão eu! Agora, estou lendo Amores, Rumores, Traumas e Flores, de Nalini Vasconcelos, uma artista plural. Nalini canta, compõe e escreve. Cheia de arte! Como a descrevi no perfil que fiz para a série Perfis do Desde. A viagem tem sido simples e boa. Embarque nessa!

Referência:

VASCONCELOS, Nalini. Amores, rumores, traumas e flores. 1. ed. São Paulo: All Print Editora, 2013.

*

Griphos Meus: ensaios de um autor contemporâneo     28/3/2015 

Livro Griphos Meus, de Felipe Ferreira. Foto: Raulino Júnior
   

Vou começar uma viagem num livro que estava doido para ler: Griphos Meus: cinema, literatura, música, política & outros gozos crônicos, do autor baiano Felipe Ferreira. Essa minha ânsia pela leitura da obra advém, certamente, por Felipe ser um autor contemporâneo, que eu conheço e que reconheço todo o seu esforço e o seu empreendedorismo. Fico feliz quando vejo as pessoas se realizando e é muito bom poder ler um livro de alguém que está tão próximo. Sei lá! Isso até envaidece. Mas, óbvio, tenho que ter cuidado para não deixar a minha admiração sobrepor o meu olhar crítico sobre o exemplar.

O livro é uma reunião de ensaios escritos por Felipe e publicados na web. Contudo, a versão impressa traz ainda textos inéditos, crônicas, poemas e  contos eróticos. Griphos Meus será o meu compaheiro de viagem de agora em diante. "Eitcha"!

Referência:

FERREIRA, Felipe. Griphos Meus: cinema, literatura, música, política & outros gozos crônicos. Salvador: Editora do Autor, 2014.


*

Biografias      12/2/2015 

Capa da biografia de Assis Valente, de autoria de J. Pimentel. Foto: Raulino Júnior



Adoro biografias! Acho que isso tem a ver com a minha vontade de jornalismo. Gosto de contar e ler histórias. Conhecer a vida de alguém através de fatos históricos, recortes de jornais, depoimentos de familiares e amigos, é fascinante. Atualmente, estou saboreando (é assim que eu sinto!) a biografia Assis Valente: felicidade é brinquedo que não tem e ela está matando toda a minha fome. A obra foi escrita pelo radialista J. Pimentel e integra a coleção Gente da Bahia, da Assembleia Legislativa da BahiaAssis, compositor baiano, é um personagem que me interessa há algum tempo. São de sua autoria canções como E o mundo não se acabouBrasil Pandeiro e Boas Festas ("Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel..."). Estou feliz em poder conhecê-lo melhor.


Referência:

PIMENTEL, J. Assis Valente: felicidade é brinquedo que não tem. Salvador: Assembleia Legislativa da Bahia, 2013. (Coleção Gente da Bahia)

*

Crônicas e poesias    18/1/2015

Por Raulino Júnior 

Estou lendo dois livros superbacanas: A Outra Margem, de Idmar Boaventura; e Antologia de Crônicas, organizada por Herberto Sales. As duas escolhas foram feitas, principalmente, por causa das transformações que quero implementar no blogue em 2015. No intuito de reforçar o caráter de jornalismo cultural do Desde, achei importante colocar mais literatura na minha vida.

O livro de Idmar foi editado em 2008, pela Fundação Pedro Calmon, e traz poemas que falam sobre estados da alma e temáticas filosóficas. Fica evidente o flerte do autor com a vertente  modernista da nossa poesia. A antologia organizada por Herberto é de 2002 e reúne crônicas de expoentes do gênero, como Carlos Heitor ConyLêdo IvoOtto Lara ResendePaulo Mendes Campos e Sérgio Porto.


Referências:

BOAVENTURA, Idmar. A outra margem. Salvador: Secretaria da Cultura/Fundação Pedro Calmon, 2008. (Coleção Selo Letras da Bahia).

SALES, Herberto. (Org.). Antologia de crônicas. 2. ed. reform. São Paulo: Ediouro, 2002.

Postar um comentário

0 Comentários