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 "Não vote em branco. Vote em Colé!" 9/8/2020 

Raulino Santos Cerqueira e Raulino Santos Cerqueira Júnior: 💝💝

Esta crônica estava na minha cabeça há muito tempo, desde que eu soube do slogan do meu pai para a campanha em que ele almejava uma vaga na Câmara Municipal de Conceição do Jacuípe, nas eleições de 1988. Só faltava um mote para poder derramá-la. Hoje, Dia dos Pais, achei que fosse uma boa ocasião. 

Meu pai é uma figura. De fato! Divertido, boa praça, simpático. É muito conhecido em Berimbau (apelido de Conceição do Jacuípe), cidade onde mora e que ama (amamos, no caso). Por muito tempo, chegar aos lugares e falar que era “filho de Colé”, lá em Berimbau, se tornou uma referência para mim. Já tinha, como a gente fala, meio caminho andado. É que painho é um cara influente, de boas relações, de coleguismo, de amizades. Empreendedor nato! Foi um dos pioneiros a produzir eventos com bandas na cidade. Também foi responsável por um dos trailers de lanches mais badalados de lá, o KarlaK, nome que homenageia a minha irmã mais experiente, Karla Kristyane. E teve outros empreendimentos! Loja de colchão (RKR Colchões), barraca no Arraiá do Berimbau… Enfim, com todo esse espírito de vanguarda, só não me conformo de ele não ter formado a dupla “Karla e Júnior”, para eu e minha irmã podermos, hoje, estar contando (e cantando) a #NossaHistória em shows lotados pelo país. Bem, isso é pauta para outra crônica…

Só faltou isso...

Meu pai é uma referência para mim e para todos da família. Sempre assumiu quem era e representava isso nas atitudes, nas músicas que ouvia e, às vezes, no vestuário. De forma leve, educada e sem radicalismos. Ficou de lição. Sempre acompanhou as tendências! Lembro que, numa época, adotou um visual semelhante ao de Tatau, então vocalista do Ara Ketu. Eu, que já gostava dessa vertente da música baiana, pensava: “Tenho um Tatau em casa!”. Era o máximo!

Despojado, festeiro, o adolescente da turma. Até hoje! E popular! Muito popular! Tanto é que essa popularidade toda o fez acreditar que venceria as eleições municipais de 1988, em que se candidatou a vereador. “Para nossa alegria”, teve míseros 32 votos. Ufa! Ainda bem! Ele pode contribuir para o Poder Legislativo de outra forma, não é? Vencedor e progressista mesmo foi o slogan criado para a campanha, idealizado pelo amigo Marcos Grilo: “Não vote em branco. Vote em Colé!”. Meu pai é uma figura! Meu pai é genial! 

Sigamos.
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Sobre rompimentos e afins... 8/7/2020 


Romper não é fácil para ninguém. Independentemente da relação que foi rompida. Não é fácil. A impressão, por exemplo, é de que o ano de 2020 rompeu com a Humanidade e, como cantou Kátia"não está sendo fácil". Porém, romper também não é tão difícil assim. Principalmente, quando o rompimento contribui para a nossa sanidade física e emocional. Para viver, temos que ter saúde. Por isso, a ruptura é bem-vinda quando a gente opta pela gente. Não é egoísmo, é amor próprio. Romper dói, mas, muitas vezes, tem que ser feito. 

No início do ano, vi uma postagem de um talentoso comunicador de Salvador, em seu perfil no Instagram, que me fez refletir bastante. O texto dizia: "Botando a cara pra trocar toda energia positiva do mundo. Os sugadores, e aproveitadores, eu já dispenso há muito tempo". Na foto, ele aparecia em pé, de olhos fechados, tomando um banho de sol. A mensagem, que soou como uma indireta, e isso é uma interpretação minha, me levou a pensar em quem são os "aproveitadores" e "sugadores" na minha vida. Porque, muitas vezes, a gente é usado e nem nota. Quando a ficha cai, a gente percebe o quanto a nossa ingenuidade não nos fez enxergar algo que estava ali, nítido, na nossa cara. O que (ou para quem) o comunicador queria falar, é uma incógnita. O fato é que aquelas palavras remeteram a um rompimento. E, na real, é preciso muita energia positiva para se reerguer de um. Isso é sério.

De todos os rompimentos, para mim, o de uma amizade é o mais danoso. Talvez, porque me abale mais pensar que o íntimo virou um estranho. Afinal, é complicado saber que alguém que se diz seu amigo prefere falar DE você a falar PARA você. Aí, no meu caso, é rompimento na certa. Sem espaço para diálogo. Porque perde toda a irmandade que, na minha cabeça, é imanente numa relação amistosa. É que sou adepto de falar a verdade para os meus amigos, de opinar com sinceridade, de elogiar quando devo elogiar e de criticar quando acho que devo criticar. Tenho amizades longevas. Só não aceito sacanagem. Isso é também um defeito. Isso faz parte da minha "ser humanidade", da minha imperfeição. Na canção Bola de Meia, Bola de GudeMilton Nascimento e Fernando Brant escreveram: "Pois não posso, não devo, não quero viver/Como toda essa gente insiste em viver/E não posso aceitar sossegado/Qualquer sacanagem/Ser coisa normal". É bem por aí.

O rompimento é fruto da decepção. Quando você se decepciona com alguém que você tinha estima, fica difícil manter a relação como era. Você não quer o mal da pessoa, você torce por ela, você quer vê-la feliz, mas longe de você. Não tem como emanar energia boa para quem não vibra na mesma sintonia. Em Me AdoraPitty diz: "Tantas decepções eu já vivi/Aquela foi, de longe, a mais cruel". É cruel quando "aquela" é de uma pessoa que você (ainda) ama e para quem sempre se doou, atendeu aos pedidos e fez esforços. Difícil. Por isso, a traição não pode virar tradição. A gente tem que romper com isso.

Sigamos.
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Manias, manias e manias... 19/4/2020 
EFT São Paulo: Compulsão à repetição e como a EFT pode te ajudar
Imagem: site da EFT São Paulo.
Esse período de isolamento social, além de tantas outras coisas, fez a gente ver ainda mais de perto (e reforçar) as nossas manias, não foi? Mania é algo tão automático que você nem percebe que tem, mas sabe que tem. Quando alguém aponta, você não desmente nem retruca. Apenas concorda. Hoje em dia, como o advento das tecnologias digitais de informação e comunicação, as manias também são mediadas por aparelhos que temos em todos os cantos da casa. Tem gente que, ao acordar, a primeira coisa que faz é acionar o Wi-Fi do celular para conferir tudo aquilo que perdeu enquanto esteve dormindo. É arriscado afirmar, mas essa é, atualmente, uma mania de quase todo mundo, não é não? Tem gente que liga a TV e muda de canal alucinadamente, sem prestar atenção em nada. O prazer está na troca dinâmica de uma emissora para outra. Engraçado. 

As nossas "manias.com" são uma extensão das nossas manias de sempre. Quem tem a mania de mandar um áudio pelo WhatsApp e assim que acaba de enviar a mensagem aperta imediatamente o play para se ouvir? Engraçado, não é? Mania... Será que o ímpeto é para ouvir a própria voz, por achar bonita, ou verificar se falou tudo corretamente, de forma pausada e lógica? Fica a questão. E quem relê as mensagens enviadas? É um exercício muito bom. Você vê as coisas que escreveu ("Puxa! Poderia ter dito melhor isso""Exagerei demais aqui!""Que chato! Foi com um erro ortográfico que eu não percebi na ocasião!"), o que escreveram para você ("Fulano falou isso para mim? Kkkkkk! Que engraçado!""Ah! Liguei os pontos e só agora percebi que Beltrana me ignora hoje em dia por causa dessa discussão que tivemos no Messenger!"), dá risada ("Quanta besteira eu falo quando estou conversando com Sicrano! Kkkkkk! Reler as mensagens é diversão na certa!") e reflete ("Na época que eu mandei essa mensagem cheia de amor, considerava tanto essa pessoa. Hoje, tudo mudou. Ficou no arquivo...").

As manias, muitas vezes, nos salvam. Tem gente que controla a ansiedade roendo unha. É a turma da onicofagia. Tem gente que arranca os cabelos, literalmente, para não pirar diante de tudo que está acontecendo. O nome disso é tricotilomania. Já vi uma famosa dizer, em entrevista na televisão, que não pode ver uma placa de carro ou de moto que sai fazendo a soma dos algarismos. Se mania é algo incontrolável, imagina o quanto ela já não somou na vida? Engraçado. Será que as manias que atribuem ao cantor Roberto Carlos é folclore ou é fato? Ave! Que chato se for verdade e coitado do povo que convive com ele.

De acordo com o site Origem da Palavramania vem do grego (e também do latim!) e significa loucura. Nenhuma surpresa com o significado, não é? Afinal, quase sempre, a gente classifica a mania alheia como sendo uma doideira, uma maluquice. Quando você se depara com alguém falando sozinho na rua, o que você conclui dessa pessoa? Diga a verdade. Parodiando Sartre, a gente tem a mania de dizer que os loucos são os outros, até descobrirem a nossa mania e a gente ser o alvo do preconceito. Julgar é uma mania de muitos. Engraçado...

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Chegar em casa 27/8/2019
Crédito da imagem: Emoji Terra
Não há nada melhor do que chegar em casa. Depois de um dia de trabalho cheio de desafios, muitas responsabilidades e prazos para cumprir, chegar em casa é um bálsamo. É encontrar-se consigo no lugar mais íntimo do mundo para você. A sensação é a de que todos os problemas ficam do lado de fora da porta e que você ganha mais uma chance para se reconectar. É um alívio.

Casa é refúgio. É lugar de abrigo e de amor. Você sai com a sua turma, visita parentes, fica o dia todo na rua, mas, quando chega em casa, não quer mais nada. Quer só ficar ali, de pernas para o ar, descansando e pensando nas coisas que fez. Claro que, por causa da rotina maluca que a gente vive, muitas vezes, não podemos chegar em casa e não fazer mais nada. É uma pena.

Mas, vamos pensar na alegria que é chegar em casa. Há uma satisfação quando a gente bota o pé no piso e abre a porta. A casa pode estar uma zona, toda desorganizada, uma bagunça total, mas nada tira a sensação de prazer ao chegar no seu lugar de conforto, no seu carinho de concreto, no seu ninho. 

Chegar em casa é uma terapia. Faz um bem danado. Você fica descalço, à vontade, recebendo toda a energia positiva do único lugar do mundo que você pode chamar de seu. Independentemente de ser o proprietário ou não, a casa é sempre sua. No refrão da música A casa é sua (Arnaldo Antunes/Ortinho), Arnaldo Antunes canta: "A casa é sua/Por que não chega agora?/Até o teto tá de ponta-cabeça porque você demora/A casa é sua/Por que não chega logo?/Nem o prego aguenta mais o peso desse relógio". A casa é sua. Chegue logo e aproveite o tempo que passa nela.

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A esmola e a culpa 24/7/2019
Imagem: reprodução do site Diário de Contagem.

Andar pelas ruas de alguns grandes centros urbanos do Brasil é se sentir culpado o tempo todo. Explico: cada vez que somos abordados por pessoas pedindo esmolas, o sentimento de culpa vem imediatamente. Porque não dá para pensar: "Eu não tenho nada a ver com isso". Não dá. Às vezes, você não tem dinheiro mesmo para dar; às vezes, você tem e não quer dar, porque pensa no problema estrutural que o gesto pode perpetuar; e, às vezes, você ignora o pedido e se sente culpado por isso. 

Ninguém é o salvador da pátria. Muitas vezes, tendemos a pensar que somos e queremos resolver tudo que está ao nosso alcance. É muito triste encontrar pedintes, diariamente, querendo uns míseros reais para matar as fomes (tenho certeza de que o leitor entendeu o porquê do uso do plural). É triste. Quando a gente lembra que o atual presidente da República afirmou que é "uma grande mentira" falar que se passa fome no Brasil, a revolta se alia à tristeza. É mais uma prova de que o chefe do Executivo nacional não tem nenhuma noção do país que preside. Não é preciso muito esforço nem muito estudo para saber que o problema da fome no Brasil é crônico. Voltemos à esmola.

O que vamos fazer com esse Brasil que faz do pedido de dinheiro uma profissão? Uma blogueira achou melhor debochar da cara de uma idosa e reagiu ao pedido perpetuando mais uma violência: "A senhora tem troco pra R$ 100?". Pelo visto, não estamos fazendo e não vamos fazer nada. Estamos impotentes e já banalizamos a presença, nas esquinas, de quem tem o pedido de dinheiro como um ato de desespero ou de acomodação.

Os governantes não pensam em políticas públicas para tirar, de fato, os pedintes das ruas. A sociedade violenta física e simbolicamente. A gente caminha cheio de culpa. Só isso. Pensar em resolver o problema seria pedir demais?

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Nossa fissura por brindes 5/5/2019
Imagem: reprodução da Loja EuQuero

Eu tenho a impressão de que o ser humano não pode ouvir a palavra "brinde", que já quer, mesmo sem saber o que vai ganhar. A gente tem uma fissura por brindes que não se explica. Ela existe e ponto. Quando a gente fica sabendo de alguma promoção de loja ou de algum produto que vem com brinde, a tendência é comprar, independentemente de qual brinde seja. A gente só sabe que quer. E acabou. Esse comportamento é muito engraçado. Muito.

Em festas populares, como Carnaval, por exemplo, é muito comum artistas e promotores distribuírem brindes no meio do circuito. O público se "mata" para pegar aquilo que está sendo jogado de cima do trio, mesmo não sabendo o que é. E pode até acabar em briga! Alguém pode alegar: "O artista jogou o objeto na minha direção e você pegou". Aí é barril!

O curioso é que, muitas vezes, o objeto conquistado, quando levado para casa, não ganha nenhuma utilidade. Quem pegou, deixa o brinde largado em qualquer cômodo. O prazer era só em pegar, em sair vitorioso da disputa.

O fato é que, ao ouvir a palavra "brinde", alguma coisa é ativada no nosso cérebro e a sensação de felicidade já aparece. É a expectativa de que vamos ganhar alguma coisa, não importa o quê. A gente quer é ser feliz, mesmo por uma fração de tempo. Freud explica.

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Gostar por extensão 8/12/2018
Crédito da imagem: Dreamstime

Acontece sempre comigo. Quando conheço alguém que me lembra alguém que eu gosto, eu já passo a gostar da pessoa também. De bate-pronto. Claro que esse "gostar" limita-se a ter um certo carinho, certa afeição. Não significa que eu morra de amores pela pessoa. Não é isso. Mesmo porque, rechaço toda e qualquer forma de hipocrisia. Contudo, o apreço já nasce.

Tenho três alunos que despertam esse sentimento em mim. O curioso é que eles são da mesma sala. Uma turma que eu adoro e tenho grande consideração. Dois irmãos, gêmeos, me fazem lembrar de um colega jornalista que admiro muito. Até já trabalhamos juntos, num tradicional evento de música que acontece em Salvador. Olho para os meninos e associo imediatamente ao meu colega. Não é só semelhança física, é de temperamento também. Percebo que a minha relação com eles já vem carregada desse preâmbulo mnemônico, o que me faz tratá-los de uma forma especial. Em geral, sempre que isso acontece, aqueles que me fazem lembrar de quem eu admiro são tão admiráveis quanto. Ainda bem! E os gêmeos são responsáveis, educados, atenciosos e "na deles". Igualzinho a um jornalista que conheço...

A outra aluna é uma querida e me remete a uma colega que, além de jornalista, é produtora cultural. Elas têm o biótipo muito parecido. A argúcia e a perspicácia são as mesmas. Minha aluna tem sempre um sorriso no rosto e é bem consciente em relação ao seu lugar de mulher negra na sociedade machista e racista em que vivemos. Educada, sensata, calma, compreensiva. Ela é a mulher dos dias de hoje: empoderada. Eu gosto muito dela! E é uma empreendedora de mão cheia! Tal qual a minha colega. Não tem como não gostar. Gosto de gostar por extensão...

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O dia "D"   25/10/2018
Vladimir Herzog. Foto: arquivo do Instituto Vladimir Herzog

Hoje, é o Dia da Democracia aqui no Brasil. A data foi escolhida para lembrar a luta e a resistência do jornalista Vladimir Herzog, que foi torturado pelo governo militar em 25 de outubro de 1975. Estamos prestes a decidir o que vai ser do Brasil até 2022. Estamos com medo. O pânico está se instalando. Nenhuma pessoa que pensa no próximo, que respeita a nossa peculiar diversidade, que sabe da importância de ter direitos e que quer viver num país democrático está tranquila neste momento. Muitas vezes, a gente se pega atônito, assistindo a vários absurdos e, na prática, pouco podemos fazer. A sensação é a de que estamos voltando para os porões da História. O pior: essa sensação pode se tornar real.

Na rua, quando a gente encontra com alguém, é impossível não pensar: "Será que essa pessoa é a favor de práticas antidemocráticas? Será que ela concorda com a chacina de negros, de LGBTI+, de mulheres? O que será que ela pensa para o país?". Essas indagações são feitas também quando estamos conversando com pessoas próximas, como parentes, amigos e colegas. O duro é constatar que gente do nosso microcosmo apoia discursos nazifascistas. 

A nossa democracia está ameaçada. No próximo domingo, a população brasileira tomará uma das decisões mais importantes da história do país. Quem for eleito, obviamente, vai ser escolhido por meio de um processo democrático. Isso ninguém discute. O que é urgente pensar é no que vem depois disso. Diante do cenário que está se desenhando, os anos de chumbo vão voltar. Pelo que se vê, teremos um país esfacelado em 2022. Isso não é pessimismo, é constatação do caos.

No Dia da Democracia, o que a gente pede é coerência. Olhe para a história do Brasil e veja como o que estamos vivendo tem semelhança com um período nem tão distante assim. Se você se diz democrata, não é coerente ser a favor de candidatos que plantam a barbárie como forma de governo. Quantos Vlados terão que morrer para que você viva livre?!

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Quem conhece, aprova!   5/9/2018
Camisa do Grandes Mestres sem a pontuação adequada. Imagem: divulgação

Voltando da aula, metrô lotado. Avisto um casal. Eles aparentam ter a mesma idade. Uns 17, 18 anos. A menina sentou. O menino ficou em pé. Pelo visto, eles estão indo para o cursinho, porque, além de a menina carregar os cadernos, o menino usa uma camiseta onde se vê a marca de um famoso cursinho da cidade. Na camisa, o slogan: "Quem conhece aprova". De imediato, identifiquei a falta da vírgula no período, que é composto por coordenação. Não me contive. Fui até o rapaz.

  Você estuda no "Grandes Mestres"?
  Estudo.
  Vai ter aula de Língua Portuguesa hoje?
  Não.
  Eu estava reparando o slogan que está na sua camisa, tem um erro aí. Deveria ser "Quem conhece, aprova", com a vírgula. É um período composto por coordenação, tem duas orações: "conhece" e "aprova".
  Mas o professor lá até falou sobre isso. Ele disse que está certo.
  Qual foi a justificativa que ele usou para dizer que estava certo?
  Você lembra? (para a menina, que faz um gesto negativo com a cabeça). Ele disse... (tentando encontrar uma resposta). É porque eu não sei explicar.
  Beleza! Falo no intuito de ajudar, uma vez que é um cursinho, não é? (o menino fica meio que assustado, meio que agradecido). Desculpa a abordagem assim.
  Tranquilo.
O metrô chegou na estação de desembarque obrigatório e nos despedimos. Fui para casa pensando naquela oração coordenada assindética e de como uma vírgula muda tudo.

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Quem deu a coroa? 22/6/2018
Imagem: Depositphotos

Liguei a TV num jornal de meio-dia e vi a apresentadora anunciar um forrozeiro como atração do vespertino: "No musical, tem Fulano de Tal, ele que é o 'Rei do Forró Temperado'!". Fiquei pensando na necessidade que alguns artistas têm de ter um título pomposo para chamar de seu. O pior é que, quase sempre, é o próprio artista que se intitula como isso ou aquilo. Durante o programa, o forrozeiro fazia questão de reforçar o rótulo. Que coisa!

Hoje, todo mundo quer ser rei de alguma coisa. Não existe mais a consagração vinda do público para fazer o artista ser reconhecido como tal. A coisa fica tão forçada que deixa bem evidente a falta de substância. Se a gente fizer uma enquete pedindo para as pessoas cantarem uma música do Rei do Forró Temperado, vamos, certamente, ter o silêncio como resposta. A mesma coisa acontece se a pergunta for relacionada ao próprio "gênero" forró temperado. O que é isso? Tudo bem que a gente pode facilmente supor, mas não há nada de novo. Contudo, é importante garantir a coroa.

Na ânsia de ser considerado rei de alguma coisa, o artista acaba sendo rei de coisa alguma. O que deveria acontecer de forma natural, fica extremamente mecânico. Luiz Gonzaga tornou-se Rei do Baião por sua obra musical. E só. O título foi fruto de um trabalho de criação. O velho Lua não precisou propalar aos quatro ventos que ele era o rei do gênero. A sua arte falou por si só.

Quem consagra o artista disso ou daquilo é o público. O artista faz a sua arte sem buscar títulos (ou deveria agir assim). Eles vêm naturalmente, não precisa forçar a barra. Fica esquisito. Fica chato.

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Não sei dar presentes 11/3/2018
Fonte da imagem: Sofos.ru


Dentre os meus defeitos, este é o que mais tenho raiva: o de não saber dar presentes. Não fui educado para dar. São muitas as razões. Deixa quieto. O fato é que me enrolo todo quando vou presentear alguém. E não tem nada a ver com gostar mais ou gostar menos da pessoa. Não sei e ponto. Tem gente que eu amo, mas não consigo captar o que gosta e o que vai agradar. Até me esforço, mas, em 99% dos casos, acabo errando bonito.

Eu admiro muito quem consegue fazer uma análise minuciosa e escolher o presente que é "a cara da pessoa". Isso é um talento. Quem tem, tem. Comigo, acontece exatamente o contrário. Eu vejo algo, acho que é a cara da pessoa, mas, quando entrego, constato a verdadeira cara do presenteado: de decepção. A pessoa até se esforça, esboça uma falsa alegria, mas, no fundo, a vontade é de jogar o presente na minha cabeça. Deve levar em consideração o meu intuito.

Não dá para quebrar o caráter de surpresa que está atrelado a um presente. A gente podia combinar antes com a pessoa que vai receber a lembrança, saber o que ela quer, o que está precisando, o que gosta. Mas, confesso, isso seria muito sem graça. Presentear é mais do que dar um objeto para alguém, envolve sensibilidade e dedicação.

Por isso, gosto e não gosto quando o amigo-secreto já pré-determina a lista de presentes. Gosto porque é muito mais prático! A pessoa coloca o seu interesse e a surpresa fica em saber quem tirou quem. O estranho é saber o que já vai ganhar. O encantamento com o presente vai para o espaço. Tudo tem seu ônus. Inclusive, a prática de presentear.

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Meus dois minutos e meio de fama! 10/9/2017
Em comum: a nacionalidade. Fotos: Djavan (Jairo Goldflus); Seu Jorge (sem indicação)

Foi numa sexta-feira. Início de junho. Mais precisamente, no dia 2. Em plena rodoviária de Salvador. Sentei numa das cadeiras daquelas lanchonetes que também povoam o lugar. Coincidentemente, estava tocando a música Mina do Condomínio, de Seu Jorge. Avistei um grupo que estava imediatamente na minha frente e percebi o olhar curioso dele sobre mim. Num determinado instante, ouvi alguém dizer: "Seu Jorge! Seu Jorge!". Fiquei, como sempre, orgulhoso com tal associação. Aí, para reforçar ainda mais a suposta semelhança com o artista, comecei a cantar a música. Quis também evidenciar que conhecia o repertório de Seu Jorge. Entretanto, lembrei que tinha esquecido o livro que levei para ler na viagem no guichê de compra da passagem. Corri para buscar, tendo que abrir mão dos meus dois minutos de fama. Dois mesmo!

Quando retornei, a música ainda estava tocando e eu fiz as vezes de cantor; empunhando, como de praxe no meu cotidiano, um microfone imaginário. Em seguida, já perto de embarcar, senti vontade de ir ao banheiro. Perto do local, encontrei um grupo de garotas. Elas bebiam e comemoravam a vida num café. Assim que me avistaram, falaram: "Djavan! Djavan". Ao passar bem perto de todas, uma delas me disse: "Canta pra gente!". Vontade não me faltou, mas, respeitando o ídolo, soltei risonho: "Quem me dera! Eu queria ter a voz dele!", e segui o meu caminho. O encontro com essas meninas deve ter durado uns 30 segundos. Mais um tempinho de fama para a conta!

Isso [de ser associado a Djavan e a Seu Jorge] sempre acontece comigo. E eu adoro! Certa vez, também numa viagem de ônibus, recebi a alcunha de Seu Jorge por uma ex-famosa cantora de Axé. Não quero revelar o nome dela porque, como todos sabem, hoje em dia, tudo gera processo; mas garanto que a história é verdadeira. Tinha identificado a moça antes de ela entrar no ônibus. Resolvi sentar logo na minha poltrona, para surpreendê-la quando entrasse. Pensei assim: "Não sei se todo mundo lembra dessa cantora. Quando ela entrar, vou fazer algazarra". Eu queria homenageá-la de alguma forma. Principalmente, por sempre ver que ela aparecia nos programas de TV lamentando da atual situação de vida, da falta de reconhecimento e outras coisas. Fiz mais por pena do que qualquer outra coisa. Pensado e feito. Assim que entrou no carro, eu comecei a gritar o nome dela e a bater palmas. Ao mesmo tempo, convocava o restante da galera. Mas a recepção não foi legal. A cantora passou pelo corredor ensimesmada e de cara fechada. Além disso, nenhum passageiro me acompanhou na algazarra. Fiquei sem graça e na minha. O que eu podia fazer depois daquele papelão?

A cantora sentou numa poltrona bem próxima da que eu estava. Só o corredor nos separava. Durante a viagem, "puxou conversa" comigo. Perguntou o que eu fazia, de onde eu era, para onde estava indo. Num determinado momento, disse que eu parecia Seu Jorge e começou a me chamar assim até eu chegar ao meu destino. Eu bem que podia pedir para ela me chamar pelo meu nome, uma vez que fiquei um pouco desapontado com a atitude dela, mas preferi ser educado ao extremo. A artista me falou sobre um projeto social que mantém no Pelourinho e pediu meus contatos. Até hoje espero a ligação dela. Quem sabe não chego aos famosos quinze minutos de fama? Também dizem que eu pareço Toni Garrido, do Cidade Negra e Dodô, do Pixote...

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A gente não poderia ter um outro da gente?  05/7/2017
Fonte da imagem: Dreamstime
Não poderia? Ia resolver muitos dos nossos problemas. Às vezes, não dá para dar conta de tudo. Nada melhor do que um outro da gente para assumir as responsabilidades que temos (e que adoramos ter, mas que cansam muito!). É uma ideia egoísta mesmo, sem subterfúgios nem esforços para dizer o contrário. Sendo assim, não teríamos problema de confiança nem de falta de disciplina. O outro eu seria exatamente como somos, física e intelectualmente. O barato é que ele se revezaria com a gente em todas as atividades do cotidiano. De fato, seria muito bom.

Enquanto eu fosse ao trabalho, o meu outro eu ficaria em casa adiantando o texto que eu teria que produzir e as leituras que eu teria que fazer. À noite, quando chegasse em casa, seria dispensado dos afazeres domésticos, pois ele assumiria essa parte também. No dia seguinte, o meu outro eu ficaria mais "de boas" e eu seria responsável pelas coisas mais chatas e pesadas. Tudo assim, num harmônico equilíbrio. A gente revezaria as doenças e também o "acordar cedo" para um compromisso. Nos dias de frio, isso seria sopa no mel! Eu ficaria enroladinho nas cobertas, enquanto o meu outro eu sairia para mais um dia de lida. O máximo de esforço que eu poderia fazer era dar um sonolento "bom dia". Olha que beleza!

Imagine ter um outro de você para fazer aqueles exames médicos periódicos que são indiscutivelmente necessários? Outra vantagem é que você poderia participar de todos os eventos de que tivesse interesse, sem sacrificar o trabalho para isso. Quando precisasse lidar com gente falsa e de discurso estrategicamente sedutor, você teria como escapar. Falaria para o seu outro eu: "Você pode dar atenção a ela? Não tenho saco! Para aproveitar o tempo, faço as compras do mês e reservo a pousada da próxima viagem". Seria a glória!

Ter um outro eu significaria não perder tempo, fazer tudo e não se cansar (física e emocionalmente). A vida ficaria bem mais equilibrada. Todos teriam direito a um outro eu. Contudo, se fizessem ações que prejudicassem outras pessoas, perderiam esse "benefício" da vida. Por um outro eu urgente!

Sigamos. 
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A incrível falta do que falar  18/05/2017
Imagem: Raulino Júnior

A era é do nada e do esvaziamento. Por mais contraditório que pareça, a sociedade da informação vive desinformada. A palavra eleita para preencher essa lacuna? Incrível. Pois é! Tudo é incrível! Ou melhor, quando não se tem o que dizer, diz-se que algo é incrível e ponto. Resolve. Saco vazio, ao contrário do que dizem, fica em pé; e por muito tempo.

Na comunicação, isso é muito comum. Recentemente, um apresentador de TV daqui de Salvador, ao fazer a cobertura ao vivo de um show que unia dois expoentes do forró tradicional, soltou: "O show tem um repertório incrível!". Limitou-se a isso. Ele não tinha mais o que falar. Ou não sabia, coitado. Talvez, por viver numa era de poucas exigências, nem se preocupou em pesquisar sobre os artistas, a fim de conhecer melhor o universo de cada um. No fundo, não era necessário. Ele sabia que não seria cobrado. Nem pelo público nem pelo seu chefe. O jogo virou. Agora, é a vez da superfície. É incrível!

Na vida, isso está presente o tempo todo. Por exemplo: ao ser convocada para dar uma opinião acerca de um produto cultural, pela falta de repertório não assumida, a pessoa limita-se a resumir tudo num sonoro "incrível". Falar que não conhece, no pensamento dela, é pior, vale mais ser uma repetidora do adjetivo que caiu nas graças do povo. Outro bom sinal do "incrivilismo" fica evidente quando o espectador sai de um espetáculo de teatro ou dança, cujo conteúdo não ficou, assim, tão compreendido na cabeça e, na falta do que falar quando o amigo que estava em cena indaga sobre o que ele achou, o "incrível" aparece.

De incrível em incrível, a pessoa enche o papo. Fica bem na fita, finge enganar a audiência, que finge acreditar, e tudo permanece como está: incrível!

Sigamos. 
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Longe pode ser tão perto...  12/03/2017 
Avenida Sete de Setembro, em Salvador-BA. Foto: Raulino Júnior
As ruas de Salvador são uma comédia. E o povo que está nelas, também. É bastante curiosa a noção que as pessoas daqui têm sobre alguns lugares da cidade. Na verdade, acho que isso é um mal de quem mora em metrópoles. Tenho a impressão de que quem vive no interior, tem uma ideia mais clara sobre distâncias. Estou falando, exatamente, do seguinte: quando a gente pergunta a um transeunte ou a um motorista de ônibus onde fica um determinado lugar, e se esse lugar dista muito daquele ponto onde a gente se encontra, eles  o transeunte e o motorista —  fazem um estardalhaço, uma agonia, explicam tudo e emendam com um "Está muito longe daqui" ou "Para você descer [do ônibus] e ir andando, é muito longe". E, muitas vezes, o "longe" pode estar ali do lado.

Certa vez, estava na Avenida Sete de Setembro, na região do Relógio de São Pedro, e perguntei para alguém, não lembro se homem ou mulher, se o Santo Antônio Além do Carmo era perto dali, se estava muito longe e se dava para ir a pé. Prontamente, a pessoa me explicou o caminho, disse que era longe do ponto no qual me encontrava, que se eu fosse a pé iria andar muito e que era preferível pegar um ônibus. Eu agradeci, mas, confiando no meu faro, segui viagem. A pé, é importante pontuar. Como era novato em Salvador, queria conhecer, desfrutar a cidade. Porém, se fosse hoje, já tido como "veterano", teria a mesma atitude. Nesse sentido, a minha decisão de chegar ao destino na onze* foi muito acertada. Pude ver a dinâmica da centenária avenida, contemplar a emblemática Praça Castro Alves, respirar história na Rua Chile, na Praça Municipal, no Pelourinho e viver, de fato, a cidade. Quando pisquei, estava no Santo Antônio, num trajeto de pouco mais de 20 minutos. Quanta beleza passou pelos meus olhos durante o percurso! Eu só ganhei.

Lembro também que, há alguns dias, queria ir a um lugar nas imediações do Centro de Convenções. Sem paciência para pegar o ônibus ideal, entrei no primeiro que chegou e que me deixaria próximo. No caso, a linha Alto do Coqueirinho. Ainda assim, para me certificar, perguntei ao motorista se passava perto do meu destino. Intensificando ainda mais o "muito", ele respondeu: "Você vai andar muito para chegar". Mais uma vez, acreditei no meu faro e embarquei. O "andar muito" consistia em atravessar a rua e caminhar uns 15 minutos. Melhor do que ficar no ponto, esperando o ônibus ideal por 40, não é? 

Talvez, o motorista quisesse me preservar da exposição numa cidade perigosa como Salvador. Será?! A distância entre mim e ele impede que eu tenha essa resposta. E essa distância é grande e real. Só sei que as pessoas aqui estão tão acostumadas em transitar com carros de passeio e ônibus, que qualquer andadazinha curta se torna um caminho extenso.

Sigamos.

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*Na onze = a pé. (Fonte: Dicionário de Baianês, de Nivaldo Lariú)

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"Quando você sai com as suas amigas, eu também fico superenciumado. Você pensa que eu gosto?!"  3/12/2016 
Imagem: Raulino Júnior

Salvador, 1º de dezembro de 2016, um cara falando ao telefone numa das avenidas mais movimentadas da cidade: "Quando você sai com as suas amigas, eu também fico superenciumado. Você pensa que eu gosto?!". Pois é. Parece mentira, mas foi verdade. E isso abre espaço para a gente pensar sobre como as pessoas se comportam numa relação amorosa. A era da dominação ainda não passou e o respeito parece ser um elemento dispensável no convívio a dois.

Já ouvimos dizer por aí que ninguém é de ninguém, tem até livro com esse título. O fato é que ninguém é de ninguém mesmo e isso tem que ficar bem pontuado numa relação. A sociedade estimula essa coisa violenta da posse e isso não é legal não. Nem um pouco. Antes de a gente entrar na vida da outra pessoa, a outra pessoa já tinha a vida dela. Ponto. Isso não pode ser desrespeitado em troca de "prova de amor" ou coisas correlatas. Respeito, sempre! Privação da liberdade, nunca!

É estranho saber que uma pessoa se limita para não desagradar quem está ao seu lado e que, ironicamente, diz que a ama. Que amor é esse? Quem ama, não coíbe. Quando o amor convive com a repressão, é sinal de que alguma coisa não está caminhando bem. Isso evidencia falta de confiança, falta de empatia, falta de amor ao próximo.

Opinar sobre a liberdade do outro não passa de intromissão. Por trás de um "Você pensa que eu gosto?!", tem um bocado de coisa que não presta: machismo, egoísmo, intimidação... A nossa vida é nossa. Não pertence a ninguém. Isso precisa ser respeitado.

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A coletiva de imprensa e as vaidades miúdas   17/11/2016          
ACM Neto faz coletiva para lançar a campanha "Salvador, capital oficial do Verão". Imagem: reprodução de vídeo

Hoje, a equipe de Antonio Carlos Peixoto de Magalhães Neto (ACM Neto), prefeito de Salvador, realizou uma coletiva de imprensa, em São Paulo, para lançar a campanha Salvador, capital oficial do Verão. O evento teve como intuito falar das novidades da cidade para a estação das férias e, claro, atrair turistas daquelas bandas para cá. Normal. Afinal, a equipe de marketing de ACM Neto é sempre infalível. A coletiva foi transmitida, ao vivo, na página oficial do Facebook do chefe do executivo municipal. Outra ação certeira. Contudo, e é algo que parece ser absurdo de questionar, qual deve ser a postura dos profissionais da imprensa nessas ocasiões? A resposta parece óbvia, mas não é.

Chega a ser vexatória a forma como alguns profissionais atuam nesses eventos. Numa coletiva, em condições normais de temperatura e pressão, jornalistas e outros produtores de mídia devem fazer perguntas que, de fato, esclareçam o assunto que motivou a reunião, não é? Hoje em dia, não. A vaidade não deixa. Para eles [jornalistas e produtores de mídia], principalmente "os mais chegados" com os responsáveis pela coletiva, o importante é mostrar o quanto eles são chegados. Quem deveria noticiar, quer ser parte da notícia. Ou, sendo um pouco mais realista, quer ser a própria notícia. É uma autorreferência de lá, um questionamento mal planejado de cá, e assim o laço amistoso se mantém.

Na coletiva de hoje, ACM Neto ouviu, de um famoso apresentador de Salvador, a seguinte questão: "Prefeito, comenta-se muito nos bastidores que o jingle da sua campanha é uma [sic] forte candidata a ser música do Carnaval. Eu não sabia se o senhor já sabe disso [sic], já chegou pra você? Já sabe disso? Dessa informação?". Ao que o prefeito respondeu, sorrindo: "Não. Fora de cogitação. Gostei da repercussão que teve. Foi muito bacana! Enfim... de fato, foi um hit que pegou, mas política, política; Carnaval, Carnaval. Andam separados".

Enfim, de fato, muitas outras coisas deveriam andar separadas, mas a vaidade não deixa. "Bota os pés no chão, Salvador!".

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Ironias Profissionais   10/11/2016      
Celular: um objeto tão pequeno diante da vida. Foto: reprodução do site da Samsung

Hoje, é dia de agradecer a dois ladrões profissionais. Obrigado, queridos! A vida precisa de uma emoçãozinha de vez em quando, não é? Não bastam as estripulias dos nossos políticos. É preciso algo que faça o nosso coração acelerar, para comprovar que estamos vivos. É bacana demais!

Só sendo muito profissional mesmo para poupar mais uma vida, mesmo tendo todo o cenário para transformar um roteiro sem graça numa bela tragédia brasileira. Diga aí: qual bandido vai entender a reação da sua vítima? Quase nenhum! Tem que ser profissional.

O cara vai andando, de boa (expressão da moda por aqui), e é abordado por dois profissionais desprovidos de algumas oportunidades na vida. Aí, esses profissionais, que estão numa motocicleta (provavelmente, emprestada por algum outro profissional bróder. Porque, coitados, eles não têm condições de ter uma moto. Eu superentendo!), emitem expressões rápidas, com rispidez, e pedem para o carinha passar o celular. O carinha passa, imediatamente (ele adora viver!). Só que, na agonia, a vítima joga o celular com um pouco de força. O objeto passa por cima da moto e cai no chão. Um dos ladrões, tão sensato o menino, que estava com uma arma de fogo na mão, não faz uso dela. Olha que legal! Ele não poderia ter apertado o gatilho? Poderia, mas ele era profissional. Que bala!

No final, os dois profissionais vão embora levando o celular, um objeto tão pequeno diante da vida, não é? Eles estão felizes. Mais um dia cumprido!

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   O serto é ser falço?   26/10/2016 
Foto: Eduardo Dantas

Viver não é fácil. Isso já foi amplamente dito por aí. Viver e lidar com pessoas é algo mais difícil ainda. E olha que eu adoro gente! Adoro mesmo! Quando passo por locais em que há muitas pessoas reunidas, a vontade que tenho é de falar com todo mundo, saber das histórias, dos rumos de vida. Sou um curioso nato. Gente me estimula. Não é por acaso que o nome do blog é Desde que eu me entendo por GENTE. Contudo, como diz uma famosa música do nosso cancioneiro, "não está sendo fácil/não está sendo fácil viver assim...". Nesse "assim" cabe um monte de coisa. Inclusive, ter que fazer tipo para viver. Definitivamente, não é a minha. Não dá. E ponto.

Basta observar algumas relações interpessoais para ter asco. Pelo menos, essa é a minha sensação. Há situações em que, nitidamente, a falsidade serve de mola propulsora para se conseguir algo. Essa, na verdade, é a regra atual. É um elogio aqui, uma adulação ali, um bajulamento acolá. Dessa forma, a vida segue e os objetivos são alcançados. Tudo na base do sorrisinho, abracinho e tapinha nas costas. Enfim, estamos perdidos.

Às vezes, chego a pensar que o certo é ser falso. Dá menos dor de cabeça. Não que eu concorde com isso, mas muita gente já percebeu que esse é o caminho das pedras. Ou melhor: o caminho mais fácil. O das pedras é feito por quem está do outro lado, do embate. Ser combativo não é e nunca vai ser a forma mais agradável de viver em sociedade, mas, apesar de tudo, vale muito a pena. De verdade. É mais honesto. Em todos os sentidos.

Da falsidade e dos conchavos nascem os nossos piores líderes e representantes, e as nossas referências também. Parece que quase ninguém faz essa associação. Inconscientemente (ou com consciência mesmo!), a sociedade perpetua muita coisa que, para manter um discurso bonitinho e apropriado, diz que rechaça. É a vida...

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"O novo sempre vem"   23/7/2016
Imagem: Raulino Júnior

Já percebeu que quando você está começando um novo projeto, com aquela expectativa danada, cheio de ideias e concentrando as suas energias para que tudo dê certo, alguns sinais aparecem? Do nada, tudo começa a se conectar. Uma coisa puxa outra e, num dado momento, tudo que você planejou começa a acontecer. Isso é incrível! E animador. 

Novidades nos enchem de vida. É muito bom ter coisas novas para contar, poder dividir, ter os olhos brilhando. A gente enche o saco de familiares e amigos, falando sobre aquilo que está nos motivando. É uma necessidade maior de compartilhar, de ter o aval, de ser abraçado (metafórica e fisicamente).

O engraçado é que a gente coloca o assunto na roda até mesmo quando não tem contexto para tal. Por estarmos tão imbuídos naquilo, toda conversa de que participamos, e achamos uma brecha, é motivo para falar daquilo que não sai da nossa cabeça. Isso acontece no dia a dia. Na fila do banco, no ônibus, no trabalho. Quantas vezes você foi vítima disso? Ou seja: quantas vezes alguém dividiu uma novidade com você? Falando com aquele entusiasmo peculiar e querendo a sua opinião sobre tudo que foi dito? Tenho certeza de que já passou por isso. Ou como emissor ou como receptor.

As redes sociais da internet fizeram com que tudo se potencializasse. Nelas, todo mundo faz os dois papéis. Todo mundo tem algo para contar, para dividir e, quase sempre, espera o retorno de quem está do outro lado da tela. "O novo sempre vem" e quer ter audiência. Muitas vezes, tem. Os emissores das novidades agradecem.

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Promessas para o feriadão   26/5/2016

Por Raulino Júnior

Mais um feriadão e mais promessas. Assim é a vida de Sônio. Toda vez que o calendário o deixa mais feliz, ele promete coisas que, quase sempre, não cumpre. "No feriadão, vou arrumar o meu quarto", "Vou aproveitar o feriadão para concluir aquela leitura que se arrasta há seis meses", "Eu só vou poder fazer isso no feriadão", "No feriadão, estarei mais tranquilo. Eu ligo para você e a gente combina alguma coisa". Ultimamente, a vida de Sônio é mais retórica e menos prática.

Quando o feriadão chega, a preguiça vem a galope e ele acaba sem fazer nada. Não faz o que tem que fazer nem faz aquilo que poderia fazer. Poderia aproveitar para ver uma exposição, ir ao teatro, curtir uma praia, visitar os amigos. Poderia. Futuro do pretérito. Sônio faz tanto "tudo ao mesmo tempo agora" que, quando tem uma folguinha, aproveita para dormir.

Nisso, ele é campeão. O celular desperta, ele vira para o lado e fica alheio ao som do aparelho. Promete que vai levantar. Só promete. O telefone, configurado para tocar de 15 em 15 minutos, cumpre a sua função. Já Sônio...

Quando, de fato, vai levantar, perdeu toda a manhã. Aí empurra as promessas para a noite, certo de que vai cumpri-las. Liga o rádio, a TV, o computador. Tudo ao mesmo tempo. É facilmente seduzido pelo entretenimento. Promete que, no dia seguinte, vai cumprir o acordo que fez consigo. O dia chega e a preguiça também. Sônio consulta o calendário para saber quando será o próximo feriadão. Não tem. Desespera-se e tenta fazer "tudo ao mesmo tempo agora". Mas o pouco tempo que resta não vai dar tempo para isso. Sônio promete que vai mudar.

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Usando com culpa   18/3/2016
Menos papel, mais consciência. Foto: Raulino Júnior

É claro que deve ter uma estatística sobre o gasto de papel para enxugar as mãos quando a gente vai ao banheiro. O difícil é encontrar. Na verdade, em relação a isso, não precisa nem recorrer a uma pesquisa. A olho nu, fica evidente o desperdício. 

Se você for contabilizar o número de vezes que vai ao banheiro em um dia e a quantidade de papel que utiliza, pode se contentar com um mundo com menos fotossíntese. A gente usa os papéis disponíveis (seja a toalha de papel ou o higiênico) com uma culpa danada. Quero acreditar, pelo menos, que uma boa parcela da população tenha esse sentimento.

Não é fácil querer ajudar a natureza nesse sentido. Principalmente, porque não tem alternativas que sejam, ao mesmo tempo, higiênicas e ambientalmente corretas. Há muita discussão sobre o uso das toalhas de papel e dos secadores de mãos. O que é melhor? Ainda não há um consenso. Uma matéria publicada no site da revista Galileu, em fevereiro de 2010, afirma que um estudo feito por uma famosa fabricante de papéis sanitários para higiene pessoal apontou que "os secadores de ar quente aumentam em até 254% a porcentagem de microorganismos [sic] nas mãos, enquanto o uso das toalhas descartáveis de papel reduzem [sic] o nível de bactérias em até 77%". Aí está o nó.

E se cada pessoa usasse a sua própria toalha de pano, a fim de reduzir o gasto e o desperdício de papel? Seria uma solução adequada? Hum... Acho que não é uma boa ideia, haja vista os argumentos citados acima e os outros tantos estudos dos microbiologistas. A biossegurança agradece.

O que nos resta é fazer um uso consciente dos papéis. Isso já ajuda.

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O pedestre, o trânsito e a culpa alheia   14/11/2015

Imagem com licença Creative Commons. Fonte: https://pixabay.com

Já reparou como a gente se esbarra no trânsito? É um empurra-empurra, uma falta de paciência, uma pressa em chegar. Daí vem a pergunta: será que só os motoristas transitam de forma irresponsável? Preste mais atenção e veja como os pedestres se comportam nas vias públicas. É um verdadeiro caos. Com direito a congestionamento e tudo.

A verdade é que, como o poeta não previra, não há somente uma pedra no meio do caminho. Há muita coisa: postes, balde de lixo, orelhões (ainda!) e, obviamente, pessoas. Onde tem pessoas, tem confusão, pisada no pé e tombos. Eventualmente, um pedido de desculpa aqui e acolá. Contudo, a culpa por tudo isso acontecer nunca é minha, é sempre dos outros. É assim que justificamos.

Nós, pedestres, somos desatentos, prestamos atenção na vida alheia e não respeitamos o sinal de trânsito. Se ele estiver no vermelho, no amarelo ou no verde, pra gente, muitas vezes, tanto faz como tanto fez. Tal como alguns motoristas, também não seguimos as convenções. Estamos na era do celular na mão e do esquecimento de nosso entorno. A generalização colocada aqui é provocativa.

Será que seremos os motoristas que criticamos? Ou já somos? Uma coisa é certa: o comportamento de quem está no volante reflete a postura de quem está nas calçadas. Absolutamente. O pedestre impaciente de hoje é o motorista impaciente de amanhã. Não há direção defensiva que dê jeito!

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Manda nudes!   24/10/2015
Ilustração: Raulino Júnior

Joãozinho estava todo empolgado! Acabara de conhecer, como ele dizia, a mulher de sua vida.  A escolhida: Mariazinha. Depois daquele dia, eles nunca mais deixaram de manter contato. Foi um encontro frenético.

Contudo, numa ensolarada manhã de domingo, ao abrir a caixa de e-mail, viu uma mensagem de Mariazinha com o seguinte assunto: "Manda nudes!". Estranhou a expressão desconhecida e tratou de pesquisar na rede. Encontrou várias explicações, além de notícias falando de um caso recente, envolvendo um ator famoso e sua mulher. Pensou: "A Mariazinha quer que eu envie fotos assim...".

Como ele não queria sair de careta nem perder a oportunidade de conquistar a moça, sacou o celular e foi para o quarto. Por sorte, o irmão ainda não havia chegado do futebol. Ficou pensando na melhor pose, fez testes no espelho, escolheu o melhor ângulo e apertou o botão. Pronto! Trabalho feito!

Em seguida, voltou para a sala e transferiu os dados para o computador. Escreveu um novo e-mail, cheio expressões picantes e demonstração de carinho. No assunto "Meu nudes!". Enviou. Aí lembrou que não tinha aberto o e-mail de Mariazinha. Ao clicar na mensagem, leu o seguinte:

"Oi, Jô! Td bem? Viu essa notícia sobre aquele ator de novela? Rsrsrsrs! Cuidado! Ñ fica mandando nudes por aí. Que loucura! Mas kda um faz o q qer, né?! Vou ligar pra vc, pra gente marcar alguma coisa. Bjo!

Little Mary"

Joãozinho ficou em pânico. Esperou a ligação de Mariazinha o dia todo. Não dormiu. Às 7h, quando já estava cochilando, ouviu o sinal no celular. Abriu a  mensagem com euforia: "Vc enlouqueceu?! Me conhece há pouco tempo. E seu eu divulgasse aquilo? Precisamos conversar!!!". 

E Joãozinho resolveu dormir, "pro dia nascer feliz".

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Para o dono, o cão é sempre manso   11/9/2015 

Ilustração: Raulino Júnior


 É engraçado: quando a gente anda pela via pública de qualquer cidade, encontra alguém guiando um cão e desvia por temer a fera, a gente sempre escuta: "Não morde! É manso". Quem já passou por isso, levanta a mão! Acho muito engraçado. Primeiro: não morde, você, que é o dono. Segundo: é manso, para você, que é o dono. Terceiro: para morder, basta ter dente. Nesse caso, cão que ladra; morde, sim!

Fico tentando entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que afirma que o seu cão não morde e é manso, mesmo quando um estranho se aproxima dele. É com base em quê? Qual o referencial? Falo com um pouco de ironia, mas, verdadeiramente, quero compreender se há alguma teoria psicológica que respalde isso. Alguém sabe? Será que existe uma ética própria do "mundo cão"? O dono do bicho se apropria de todos os postulados e faz mestrado em comportamento animal. Deve ser.

Ao perceber a nossa vontade de nos esquivar do seu "amigo fiel", o dono, quase sempre, parece esboçar um incômodo. Sei lá! É como se não encontrasse razão no medo alheio, uma vez que o seu bichinho (que, muitas vezes, é quase do tamanho dele) é educado e tratado de forma carinhosa. A fidelidade canina advém de um vínculo, não é? Então...

Comigo, tal situação é recorrente. Quando acontece, dou um risinho passageiro e sigo adiante. Bem longe do cão e do dono. Prefiro não arriscar.

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"Eu sempre quis ser artista"   27/8/2015 

Imagem: Karla Kristyane


Outro dia, assistindo a um programa de TV, vi um artista da nova geração afirmar que sempre quis ser artista. Achei tal afirmação um pouco estranha. Esse estranhamento acontece de forma recorrente, quando ouço alguém dizer isso. Imediatamente, me perguntei: "Artista é uma questão de 'querer ser' ou é uma questão de 'ser'"? Pois é. Fiquei com esse nó na cabeça.

Antes de desfazê-lo, se é que isso vai ser possível, é importante pensar no conceito de arte. Outro nó. Mas, e acho que todo mundo concorda, arte pressupõe criação. É uma necessidade daquele ser humano criador. Não é só uma busca pelo reconhecimento ou uma iniciativa preocupada com questões financeiras. É, como já disse, necessidade de expressão. E essa expressão pode ser feita em qualquer lugar, para um público diminuto, amplo ou, inicialmente, para ninguém. A satisfação é a mesma.

É bem verdade que, hoje em dia, tudo está muito confuso. Já ouvi jornalista, que trabalha em TV, iniciar uma frase assim: "Nós, artistas que trabalhamos na TV, temos que nos acostumar com o assédio". What?! Basta aparecer na TV para ser artista? Calma, pessoal! Muita calma! Vamos, todos, colocar os pés no chão.

Às vezes, as pessoas confundem (será?! Hum...) e acham que ser famoso é sinônimo de ser artista. Não é. Nem todo artista é famoso. Nem todo famoso é artista.

Para mim, o artista é, não quer ser. E ponto. Claro que, ao longo do seu caminho, ele vai se podando, melhorando. Contudo, "querer ser artista" me remete a algo que tem tendência a ser produzido. Não nasce. Transforma-se. Pode dar muito certo por um tempo. Por um tempo...

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A Salvador do "daqui a pouquinho"   29/7/2015


Imagem com licença Creative Commons. Fonte: https://pixabay.com/en/icon-alarm-clock-clock-time-157349/
 
Em Salvador, quase tudo atrasa; quase nada começa no horário. O atraso está institucionalizado nessa cidade. É incrível e revoltante! Isso é uma verdade tão verdadeira que as pessoas marcam os compromissos já prevendo o atraso. Pois é. Somos todos reféns.

Quem é pontual, perde tempo. O motivo: ter chegado no horário. A pessoa se esforça para chegar ao compromisso com pontualidade, mas como ninguém chega, ela fica lá, isolada, perdendo tempo. Aí, sempre tem alguém que, achando que está fazendo a melhor coisa do mundo, traz a satisfação: "A gente vai começar daqui a pouquinho. Vamos aguardar só mais cinco minutinhos". Tudo em "inho" piora tudo.

Isso também demonstra o quanto o Brasil é um país que valoriza muito mais quem age "fora da lei". Por aqui, alguma coisa só começa quando os atrasados chegam. Pode?! Pode. Quem é pontual que espere! A raiz de muitos problemas está nesse comportamento tão simples e banal. É complicado.

E reunião com colegas? Uma comédia anunciada, mesmo antes de ouvir as desculpas mais "criativas" pelo telefone: 1. "Chego daqui a pouquinho. Me atrasei porque derrubei café na minha roupa e tive que lavar". 2. "Chego daqui a dez minutos. Não tinha ninguém em casa e eu tive que levar a minha vó ao médico". Ah, tá!

Já fui a um evento que estava marcado para começar às 8h e só teve início às 10h40. Haja paciência! Verdade seja dita: espetáculos em teatros costumam sempre começar no horário. Quer dizer, depois dos três sinais, atrasam um minutinho. Falei em "inho", para não fugir da tradição. Mas não serei tão espartano assim. Palmas para os teatros e vaias para Salvador e sua institucionalização do atraso.

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Quando blogueiros e educadores se encontram...   22/7/2015

Convite do evento Encontro com Blogueiros, promovido pelo Colégio Estadual de Conceição do Jacuípe (CECJ). Foto: captura de tela feita em 9 de julho de 2015

É uma festa! Não tem expressão melhor para traduzir um encontro de blogueiros e educadores. Tive a honra de participar de um, no começo do mês, em Conceição do Jacuípe (que, por sinal, é o meu chão), e foi isso que ficou. Ainda mais que o encontro foi feito para e com estudantes do ensino médio. Festa completa.

O verbo compartilhar está na moda e isso ficou evidente na experiência de "ir aonde o povo está". Os estudantes, cheios de vontade de aprender e de ensinar, compartilharam com os convidados o melhor deles: respeito, interessse, educação e inteligência. Narrando, aqui, não dá para descrever o que aconteceu naquela manhã de sábado, 11 de julho. Qualquer palavra que eu use vai ser pequena diante da grandiosidade do fato. 

A educação esteve viva, conectada com a realidade. Por isso, o encontro foi tão prazeroso. Quem disse que estudar é chato? Muito pelo contrário! Estudar, quando a gente encontra pessoas dispostas a fazer a diferença, é a melhor coisa do mundo. É gratificante ver professores comprometidos com a arte de educar. Só os mais sensíveis sabem o que é isso.

Blogueiros são cheios de expectativas e gostam de liberdade. Educadores gostam de liberdade para encher estudantes de expectativas. Quando blogueiros e educadores se encontram, o processo de ensino/aprendizagem ganha mais uma possibilidade de sentido. E isso é muito bom. Dá satisfação.

Ass.: um blogueiro educador.

Sigamos.

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Estou falando é de Amizade 15/6/2015


Nesses últimos dias, estive pensando sobre a Amizade. Principalmente, por observar como as pessoas se relacionam nos tempos de agora. Acho tudo muito estranho. Muito mesmo! A recente morte de Fernando Brant, que, junto com Milton, compôs Bola de Meia, Bola de Gude, a música que me retrata de forma precisa, me fez refletir ainda mais sobre o assunto. A música, não a morte. Que fique claro. É que num dos trechos, os compositores dizem: "E não posso aceitar sossegado/ Qualquer sacanagem/ Ser coisa normal". Penso assim.

Não dá para aceitar tudo e viver sorrindo para os amigos, a fim de não se "queimar", "perder a amizade" ou sair como chato. Se o sentimento de amizade, de fato, existe, a sinceridade vem por tabela. Indispor-se é bom. Nossos amigos, assim como nós, são imperfeitos e cheios de subjetividade. Respeitar as diferenças é saudável. Apontar as falhas, chamar a atenção e discutir posturas também. Isso é amizade.

O contrário disso é qualquer outra coisa. Porque amizade é confiança. Ponto. Hoje, a gente quase não tem isso [confiança]. Não estabelecemos uma relação. A gente pode até achar uma pessoa legal, interessante, mas isso fica da porta pra fora. A gente não quer trazê-la, em definitivo, para o nosso mundo. Às vezes, não serve nem para uma amizade no Facebook, onde a superficialidade impera. Falta confiança. É triste, mas estou sendo sincero. Comigo tem sido assim. Infelizmente.

Talvez, por acreditar muito nas pessoas e me surpreender negativamente com algumas atitudes delas, tenha perdido a vontade de aprofundar a relação. Não quero ser amigo, tampouco inimigo. A indiferença de hoje em dia também me acompanha.

Sigamos.


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Quando a fila é o ombro amigo 10/5/2015  

Ilustração: Raulino Júnior
 
Hoje, infelizmente, ninguém mais conversa. Vizinhos não se conhecem. A poltrona do lado não quer interagir. Às vezes, nem um cumprimento é dado. A interação tem mediador: o aparato tecnológico. Estranho esse tempo atual. Tanto que, quando a "regra" é quebrada, o estranhamento também aparece.

Fila é um ótimo lugar para conhecer pessoas e conversar. Mas, hoje em dia, em que cada pessoa tem um mundo portátil nas mãos, a fila perdeu essa potencialidade. Ainda assim, o milagre acontece.

O milagre, para mim, tem nome: Yolanda (nem sei se o seu "Yolanda" começa com "Y", mas ela tinha cara de Yolanda com "Y"). Dona Yolanda, porque, certamente, ela já deve ter mais de 60 anos. Mas não aparentava. Não sei por qual razão, começou a conversar comigo, contando detalhes da sua vida. Inspiro confiança. Isso me envaidece.

Soube de sua filha que mora na Inglaterra e é fisiculturista; do neto, filho do filho de 37 anos, que vai nascer em junho; do seu afeto pelo genro, mas nem tanto pela nora; até conheci um pouco de seus preconceitos. Foi Dona Yolanda quem me contou sobre o assassinato de um transformista, ocorrido na noite de sexta, no Tororó. Enfim. Uma experiência simples, mas pouco comum na atualidade.

Dona Yolanda estava sedenta por conversar, contar suas histórias. Eu, apenas, me dispus a ouvi-la. Fui seu "amigo", por poucos instantes, numa era de amizades virtuais sem substância. Me senti bem.

Sigamos.

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O vilão  24/4/2014



Foto: Raulino Júnior

Ele está em todo canto. E eu acho que tenho medo dele. Fico trêmulo! Está em dez, de cada dez cidades brasileiras. Se a gente acorda cedo, vai encontrar com ele. De tarde e de noite, também. No meu caso, só até o início da noite. Graças a Deus! Em casa, fico em paz. Para mim, ele é vilão. Sempre!

Posso assegurar: hoje, não existe repartição sem ele. É o mundo moderno ("muderno!"). É um pouquinho de Europa aqui? Será?! Eu não quero me europeizar! Mas é difícil, amigos. Muito difícil! Mesmo porque, ele me persegue. Vixe! Muitos alegam, dizem que a culpa é da queima de combustíveis fósseis. Balela!

Para mim, é hábito. Na verdade, tudo é hábito. Antes, não tinha isso. Não precisávamos dele (e eu ainda não preciso!). Hoje, todos acham essencial. Eu não acho! Por causa dele, meu dentes viram uma ala de bateria de escola de samba. Fico chateado! Não rendo! Minha voz quase não sai! A vontade que dá é de tacar pedra nele e provocar um acidente. Ou seria incidente? Eta! Isso não é importante! O fato é que a minha educação, muitas vezes, não me deixa agir como eu penso. Agradeça, ar-condicionado!

Sigamos.

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Primeiro dia de aula  14/3/2015


Sônio está no ônibus, a caminho da universidade. No trajeto, levanta hipóteses, imagina, faz projeções. Está feliz e a felicidade, para ele, é qualquer coisa que o comove. Estudar é comovente. Mexe com ele. Sônio é mais um dos milhares de estudantes que buscam, que querem e que vão conseguir. Chega, dá bom dia e senta.

O professor também chega, também dá bom dia e também senta. Na aula, há vários questionamentos, inclusive sobre o conceito de cultura. Dífícil reduzir. Difícil conceituar. Sônio pensa em cultura como cultivo, alimento, mas sabe que não é só isso. A aula prossegue, exemplos contemporâneos e tradicionais figuram na discussão. Tudo constrói. Tudo fortalece. 

Sônio tem certeza de que fez a melhor opção: ser um eterno estudante. Isso não invalida outras possibilidades. Acrescenta. Num dado momento, voltando para casa, se certifica do quanto uma aula é importante. Por isso, acha que elas poderiam ser gravadas e disponibilizadas para mais pessoas. Hoje, isso é tão possível, tão comum. "Por que não acontece?", se questiona. Vale ressaltar que ele se refere às aulas normais, com estudantes, professores, debates etc. Enfim, Sônio sonha.

O primeiro dia de aula correu bem. A expectativa ficou. Ele já espera pelo próximo.

Sigamos.  

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Assis Valente está me perseguindo. Espia...  12/2/2015

Capa da biografia de Assis Valente, de autoria de J. Pimentel. Foto: Raulino Júnior
  
 Ano passado, organizando umas coisas em casa — papéis e revistas para jogar fora —, encontrei, numa edição da extinta revista Bravo!, uma matéria que falava sobre Assis Valente. Até então, não recordo se já tinha ouvido falar no compositor baiano. É bem possível que sim, uma vez que já li coisas sobre Carmem Miranda e ela gravou importantes músicas compostas por ele. A verdade é que já conhecia algumas músicas de Assis, mas não sabia que eram dele. Muitas delas são bem famosas, como E o mundo não se acabouBoas Festas ("Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel...") e Brasil Pandeiro.

O texto da Bravo! me deixou bastante intrigado. Assis Valente era baiano, era compositor e, dizem, era santamarense. Muita identificação! Além disso, a sua suposta vida transtornada (principalmente, por não saber lidar com a própria homossexualidade), descrita na matéria da revista, que foi assinada pelo crítico de música Pedro Alexandre Sanches, chamou a minha intenção. Vi, ali, um personagem interessante. Corri para a internet a fim de buscar mais informações sobre o cabra e descobri que muito pouco se encontra sobre ele. No seu texto, Pedro apontara isso. Falava sobre a falta de "livros, filmes e minisséries" sobre o autor. Se estivesse vivo, Assis faria 100 anos em 2011. Na época, foi pouco lembrado.

O fato é que o compositor vem cruzando o meu caminho. Por acaso. Há pouco dias, caiu no meu colo a biografia dele, de autoria do radialista J. Pimentel. A obra faz parte da coleção Gente da Bahia, uma promoção da Assembleia Legislativa da Bahia. Os livros são distribuídos gratuitamente. Estou saboreando o de Assis. Sei que farei alguma coisa grande envolvendo a história dele. Estou entusiasmadíssimo! Como é bom poder ler!

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30 minutos de Face    8/2/2015




Às vezes, eu penso: "A internet é uma ferramenta maravilhosa, que a gente pode se informar, aprender, fazer cursos e eu a utilizo tão mal". E é verdade! Por mais que eu leia muito, esteja atento às coisas do jornalismo e da educação, muitas vezes, me sinto tão medíocre, navegando em sites que não acrescentam nadica de nada. É frustrante!

Puxa! A gente tem um recurso riquíssimo nas mãos e não damos o devido valor. Acho que tudo também depende da organização do nosso tempo. Por que, antes de toda essa revolução, a gente tinha tempo para estudar, ler, visitar os amigos e, ainda, dormir cedo? Meu Deus! Hoje, nosso tempo é do Face! É claro que estou sendo bem radical, usando o Facebook como metonímia disso tudo, mas a lógica existe. Quantas vezes eu digo para mim: "Raulino, hoje, você vai ficar apenas 30 minutos no Face"! Quem disse que eu cumpro? Que raiva! E, assim, a briga interna começa:

"Você já está há 15 minutos no Face", alerta a minha consciência.
"Estou ligado. Só estou vendo as minhas notificações aqui. Saio daqui a pouco", retruco eu.
"Raulino, você disse que ficaria 30 minutos no Face. Já estamos em 28".
"Estou saindo". 
"Você tem livros para ler, texto para produzir e, amanhã, tem compromisso cedo". Aí, beltrana compartilha um link interessante, fulano começa a discutir com ciclano e eu, curioso, quero acompanhar os comentários. Quando vejo, já estou há mais de uma hora e meia na rede. É sério!

Agora, decidi: 30 minutos e não se fala mais nisso! Vou aproveitar o tempo para ler, dar atenção aos meus e fazer um curso de inglês pela internet, é claro! Consciente, sim; mas atenado com o meu tempo, não é?

Sigamos.

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A culpa é do Dias Gomes   18/1/2015

Amo jornalismo! E essa minha paixão pela atividade nasceu na escola e foi corroborada pelo meu vício em TV. Lembro que, na primeira série do Ensino Médio, a professora de português passou um trabalho em que tínhamos de ler uma obra da literatura nacional e fazer uma dramatização com algum trecho dela. Sugeri à minha equipe que trabalhássemos com um clássico de Dias GomesO Pagador de Promessas, peça teatral de 1959. Sugestão acatada, o segundo passo foi o de fazer a imersão no universo do nosso conterrâneo. Pesquisa, leituras, distribuição de personagens. Fiquei com o repórter sensacionalista. A distância ética, entre mim e ele, era abissal. O personagem não tinha o intuito de informar, mas distorcer a peregrinação de Zé-do-Burro. Contudo, o gostinho pela prática jornalística nasceu ali. Quando da morte de Senna, lembro que anotei num caderno algumas informações que, mais tarde, tive consciência de que formavam o lide. Mas meu coração bateu forte pelo jornalismo ao interpretar o personagem criado por Dias Gomes. Na peça, ele nem tem nome e aparece acompanhado por um  fotógrafo, o Carijó.

Hoje, quando saio de casa para fazer uma entrevista, apurar informações ou cobrir algum acontecimento, me sinto a pessoa mais feliz do universo. Afora os devaneios da profissão, os conchavos e os puxa-saquismos, tudo me encanta. De tudo que o jornalismo proporciona, o melhor é conhecer as pessoas e suas histórias. Contá-las é matar a sede com água. E eu gosto de pensar em pautas, e eu gosto de entrevistar, e eu gosto de escrever, e eu gosto de conhecer vários mundos. Enfim, admito, sou um workaholic do jornalismo. Não desligo nunca nem acho que devo desligar. Sinto-me ultrapassado se o fizer. É Charlie Hebdo, na França; esquema de corrupção na Petrobras; escolha do secretariado do governador da Bahia; 30 anos do Axé. Tudo me interessa. Fazer o que gosta é, de fato, sonhar acordado. Visão romântica do jornalismo?! Sim! E daí? "Talvez, eu seja o último romântico...".

Obrigado, Dias Gomes.

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