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 O álbum que fez a dupla Claudinho e Buchecha conquistar o Brasil   7/6/2020

CD Claudinho & Buchecha, de 1996: qualidade musical e expressão contundente de uma época. Foto: reprodução do site Funk Antigo.
Claudio Rodrigues de Mattos (Claudinho) e Claucirlei Jovêncio de Sousa (Buchecha) fizeram o Brasil balançar em 1996, ao som do funk carioca. O CD Claudinho & Buchecha (MCA, 1996), produzido pelo DJ Memê, foi uma revolução na história do gênero e é lembrado até hoje como um divisor de águas no segmento, tanto pela qualidade sonora quanto pelas letras, que popularizaram o funk melody. O álbum, que recebeu disco de platina triplo pela Associação Brasileira dos Produtores de Disco (ABPD), hoje Pró-Música Brasil Produtores Fonográficos Associados, expressa toda a vivacidade dos funks de então, com mensagens que falam de amor, de festa e da realidade social de quem está imerso na manifestação cultural própria de "preto, de favelado..."*. 

O baile em forma de disco da dupla é aberto com Pra Lembrar de Você (Buchecha), em que os MCs começam fazendo um convite para os ouvintes se divertirem com eles. Nesse sentido, citam algumas regiões e bailes famosos do Rio daquela época. Mas, ao longo da música, o eu lírico percebe que tudo que faz no presente é motivo para lembrar um romance que ficou no passado e deixou saudade. O término se deu por ciúmes e insegurança, mas não ficou ressentimento, como comprovam estes versos: "Minha rainha, foi bom te namorar/E sempre no meu ser, eu vou te coroar".  Depois, a gente ouve uma versão cheia de identidade do clássico Tempos Modernos (Lulu Santos), que foi gravado por Lulu em 1982, no seu primeiro e homônimo disco. É impossível não ir para a pista com a batida da regravação de Claudinho e Buchecha. 

Em Temperamental (Claudinho/Buchecha), os amigos fluminenses elevam ao grau máximo a coisa melodiosa do funk. Na introdução, um trecho instrumental de Nosso Sonho; na letra, uma exposição do que acontece em toda e qualquer relação amorosa: "Temperamental é o nosso amor/Feito de malícia, implicância e dor/Mas contém razão, harmonia e paz/E, além de tudo, isso satisfaz". O eu lírico pede uma definição para o relacionamento, se vai mudar ou se vai continuar como está. No final, o arremate: "Deixa o coração, Amor, guiar você"Chance (Buchecha) segue a mesma linha de Temperamental. Trata-se de um exemplo emblemático do funk melody de Claudinho e Buchecha. Aqui, o mote da letra é outro. O relacionamento já acabou, o eu lírico reconhece os erros, mas pede uma outra chance: "Sei que errei e você também errou/Te dei tanto amor, será que acabou?". Destaque para as partes em que Claudinho canta, "rapeando" o funk. A quinta faixa, Nosso Sonho (Claudinho/Buchecha), é uma das músicas mais conhecidas da dupla. Quem, que viveu aquela época, não sabe de cor a marcante introdução? Duvido se tem alguém que não se rendeu ao "Gatinha, quero te encontrar/Vou falar: sou Claudinho/Menina, musa do verão/Você conquistou o meu coração/Tô vidrado/Eu hoje sou um Buchecha apaixonado. Liberta, DJ!". O DJ libertou e todo mundo entrou no sonho da fã e do ídolo. A música narra uma história de amor iniciada durante um show, mas que não se concretiza, porque a fã é muito mais nova que o ídolo: "Seus doze aninhos permitem somente um olhar", diz um dos versos. A letra traz ainda duas palavras pouco usadas no nosso cotidiano: "desditoso" (infeliz) e "adjudicar" (que, na música, não tem o sentido de "conceder", mas de "permitir"). Assim como a introdução, muita gente queria (e conseguiu!) cantar de cor o trecho no qual o eu lírico enumera os possíveis locais em que poderia encontrar a fã, já que no show não foi possível, devido ao tumulto comum da ocasião.

Conquista (Buchecha) faz jus ao nome. Com a música, os MCs conquistaram, literalmente, o reconhecimento em todo o Brasil. Com ela, Claudinho e Buchecha se apresentaram em inúmeros programas de TV e ficaram nas paradas de sucesso das rádios. Foi a música de trabalho do disco, a carro-chefe, com clipe e tudo. Ela atendia a todos os ingredientes do mercado da época: tinha uma batida envolvente e suingada, letra interessante, que muita gente se identificava ("Você junto a mim/Nada se compara a esse prazer"), e uma dança que todo mundo queria imitar (um dos passos fazia referência ao jeito de andar de Dino, da Família Dinossauros, série que fez sucesso na TV).

Contracapa do CD Claudinho & Buchecha, de 1996: um sucesso atrás do outro. Foto: reprodução do site Funk Antigo.

Se em Temperamental e Chance a relação estava com problemas, cheia de altos e baixos, em Apaixonados (Buchecha) está tudo azul, como se diz: "Hoje, somos dois apaixonados/Cada dia mais te amo/Sou teu coroão, teu príncipe encantado/Aos delírios eu te chamo".  A música é muito boa. A única ressalva está nos versos iniciais, que trazem uma ideia que fica sem lógica, por causa do uso da palavra "sonolência": "Lembro o dia em que você me olhou/'Tá aqui no pensamento/Era o início do nosso amor/Sonolência total no momento". Em Pedra Preciosa (Claudinho/Buchecha), o eu lírico busca a reconquista e sabe que a mulher ainda gosta dele: "Amor, eu sei que errei/Venho lhe pedir perdão/Não adianta tentar fugir/Sei que você me quer". É um hino do "só dá valor quando perde". Por isso, descamba para o romantismo exagerado: "Hoje, tornou-se obsessão/Esse sabor de amor"Teu Olhar (Buchecha) retrata uma paixão ao primeiro olhar. Daquelas em que o apaixonado já começa a fazer planos de algo que ainda não aconteceu: "E vamos seguir/Juntos até que a morte nos separe/Usufruir/A vida enquanto tudo vale"

Carrossel de Emoções (Claudinho/Buchecha) abre a parte rap do álbum. Aqui, já se percebe uma preocupação em emitir mensagens que evocassem a união do lazer com a paz: "Nós viemos ao baile pra nos divertir/A paz no salão tem o dom de nos unir". Com Barco da Paz (Claudinho/Buchecha) a mensagem ganha maturidade: "As equipes fazem tudo para melhorar/Lutam pela paz, para o show continuar/As gatas vêm ao baile e só querem amor/Mas alguns vacilões vêm brigar, botar terror". O Rap do Salgueiro (Claudinho/Buchecha) é uma homenagem a São Gonçalo (cidade onde nasceram) e ao Salgueiro (comunidade da qual são oriundos) e fecha a trilogia dos raps. Uma letra mais despojada, mas que insiste na pacificação nos bailes. Nele, está um dos versos mais bonitos da dupla: "No escuro/Eu levo a paz como iluminação"Só Nós Dois (Buchecha) fecha o álbum e destoa totalmente da sonoridade das outras músicas. Trata-se de um pagode/samba romântico. Tem explicação: na época, o gênero estava no auge. Então, Claudinho, Buchecha e a produção do CD não queriam perder o bonde. Foi em vão. A música não se destacou tanto, mas é boa. Segue a gramática do estilo e tem refrão que pega: "Vem acabar com o tormento/Paixão, venha nesse momento/Amar, só nós dois/O amanhã é o talvez/Ou quem sabe depois".  

Infelizmente, no dia 13 de julho de 2002, Claudinho sofreu um acidente de carro e morreu. Dessa forma, chegava ao fim a parceria musical que teve início em 1995. Há um projeto de filme sobre a história da dupla, chamado Nosso Sonho. A previsão é de que o lançamento seja neste ano. Contudo, com a pandemia do novo coronavírus, tudo pode mudar. O nosso sonho mesmo é de que a história de Claudinho e Buchecha nunca seja apagada e continue conquistando fãs. Esse sonho não pode acabar. Segue libertando, DJ!
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* Trecho do funk Som de Preto (MC Amilcka/MC Chocolate/MC Baby).

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Tropicália na História e a história da Tropicália
 7/6/2019
Tropicália: música e manifesto. Imagem: reprodução do site da Editora 34

Lançado em 1997, o livro Tropicália: a história de uma revolução musical, de Carlos Calado, é um importante registro para a história do movimento. Para quem não foi contemporâneo daquela efervescência artística, vale a pena se debruçar nas mais de 300 páginas que narram como o Tropicalismo nasceu, chegou ao ápice e se desfez. A obra é repleta de depoimentos de pessoas que participaram ativamente da revolução artística e cultural que entrou em cena, no Brasil, entre 1967 e 1968. Além disso, retrata, com se Carlos fosse uma testemunha ocular, os bastidores dos festivais de música que marcaram a história da televisão brasileira. Com linguagem simples e atraente, Calado consegue "prender" o leitor durante toda a narrativa. Isso se dá também porque ele entrelaça o que conta com muitas curiosidades, o que faz o interesse pela história manter-se sempre vivo. 

O livro começa do fim, narrando a prisão de Gilberto Gil e Caetano Veloso, expoentes da Tropicália, em 27 de dezembro de 1968, e segue falando da influência de João Gilberto na musicalidade dos dois artistas. No terceiro capítulo, intitulado A Turma do Vila Velha, o autor conta como Gil e Caetano se conheceram (uma curiosidade que quase todo mundo quer saber! De acordo com o jornalista, "Gil e Caetano se conheceram pessoalmente em Salvador, numa tarde de 1963. Caetano vinha andando pela rua Chile, próximo da Farmácia Chile, quando viu o violonista se aproximar. Ele estava acompanhado por Roberto Santana, amigo em comum que já tinha prometido apresentá-los [sic] ao saber que Caetano era fã do violão e da bossa de Gil", p. 45) e, obviamente, fala sobre a estreia do show Nós, Por Exemplo, apresentado no Teatro Vila Velha, em 22 de agosto de 1964. Além de Gil e Caetano, o show reuniu, entre outros artistas, Maria Bethânia e Maria da Graça, a Gal. O quarteto formaria, doze anos depois (1976), o grupo Os Doces Bárbaros

Carlos Calado vai mostrando para o leitor cada artista que contribuiu para formatar a Tropicália. Nesse sentido, fala de Tom ZéGal CostaMaria BethâniaNara LeãoCapinanTorquato NetoRogério Duprat e Os Mutantes (Arnaldo Baptista, Sérgio Dias e Rita Lee). Bethânia substituiu Nara Leão no musical Opinião e emprestou toda a sua dramaticidade à interpretação da música Carcará (João do Vale), que virou uma canção de protesto. Sempre que se apresentava num show, o público pedia para Berré (como a irmã de Caetano era chamada pelos mais íntimos) cantar. Bethânia foi ficando desconfortável com essa situação de ser "musa de canção de protesto". Por isso, não participou do disco coletivo dos tropicalistas, porque não queria mais integrar grupos ou movimentos artísticos.

A antológica capa do disco Tropicália ou Panis et Circenses, de 1968. A foto foi feita pelo fotógrafo Olivier Perroy. Imagem: reprodução do site da Revista Fórum.

Além de conhecer a história da Tropicália e a importância do movimento para a História do Brasil, quem lê o livro fica sabendo algumas curiosidades: o rápido casamento, informal e contra a vontade das respectivas famílias, de Gil e Nana Caymmi; que Caetano já foi apelidado de "Caretano"; que a convivência entre emepebistas e tropicalistas não era boa; que Nara Leão e Capinan não estão na foto da capa do disco Tropicália ou Panis et Circenses (Philips, 1968) porque não chegaram a tempo para participar da sessão de fotos. Por isso, usaram molduras com as imagens dos ausentes. Caetano segura a de Nara; e Gil, a de Capinan; que o nome Tropicália foi uma sugestão do produtor de cinema Luís Carlos Barreto, que se baseou numa exposição homônima de Hélio Oiticica; e que "a foto com os integrantes do grupo tropicalista não foi realizada com um conceito muito definido", p. 196.

Os incontáveis erros ortográficos encontrados na obra causam estranheza, uma vez que, antes de ser publicado, em geral, o texto de um livro passa por uma rigorosa revisão. O leitor encontra "espectativas" (p. 43), "em baixo" (p. 57), "bode espiatório" (p. 141), "destróem" (p. 155) e "sizudo" (p. 183). Isso não compromete em nada a narrativa, mas, obviamente, deve ser motivo de atenção. Calado esmiúça a explosão do movimento tropicalista, narrando os shows, os festivais dos quais os artistas participaram e todos os conflitos envolvidos no manifesto cultural, que, respeitando as razões e o contexto, remete muito à Semana de Arte Moderna, de 1922. O livro, assim como a Tropicália, vai ficar para a História.

Referência:

CALADO, Carlos. Tropicália: a história de uma revolução musical. 1ª ed. São Paulo: Ed. 34, 1997. (Coleção Ouvido Musical).
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A música da Copa 31/5/2018
Há 20 anos, o Time Campeão dava voz à música Festa Brasileira. Imagem: Spotify

Em época de Copa, é sempre a mesma coisa: o mercado da música se movimenta para lançar o hit do evento esportivo. No mundial de 1998, que aconteceu na França, não foi diferente. A gravadora PolyGram (hoje, Universal Music) colocou em campo a faixa Festa Brasileira (Mais uma Vez), composta por Seu Jorge e Gabriel Moura. A gravação fez parte do CD Festa Brasileira - Ao Vivo, produzido pela PolyGram e dirigido por Alexandre Agra. O álbum em questão continha 22 faixas, entre elas, a versão em estúdio de Festa Brasileira. O disco está disponível no Spotify. O curioso é que a última faixa, Acabou, com Jheremias Não Bate Corner (embrião do Jammil e Uma Noites) traz uma versão de Festa Brasileira com o Brasil já vitorioso com o pentacampeonato, como aconteceu. Os versos dizem: Mais uma vez vamos vestir/A bela camisa amarela/Aquela que é pentacampeã.... Obviamente, a faixa tinha sido previamente preparada.

O Time Campeão (como os intérpretes foram chamados pela gravadora) que deu voz, literalmente, à música foi formado por Cheiro de Amor (Carla Visi), Banda Eva (Ivete Sangalo), É o Tchan (Beto Jamaica), Netinho e Zeca Pagodinho. Como de praxe em obras dessa natureza, a música convoca a torcida brasileira e o grande destaque da letra é o último verso do refrão, que diz "Eu tô torcendo daqui, mas na verdade eu tô lá". Ou seja, todo mundo está no espírito da Copa, independentemente de onde esteja. A distância não separa, une. Esse é principal conceito da música feita sob encomenda. Abaixo, você confere a letra completa e um vídeo com a participação dos artistas (exceto Netinho) no programa de Hebe, há 20 anos. O vídeo está hospedado no canal de Gisele Garcia e traz trechos do clipe oficial, que foi lançado na época.

Festa Brasileira (Mais um Vez)
(Seu Jorge/Gabriel Moura)

Mais uma vez, vamos torcer
E vestir a camisa amarela
Aquela, que é tetracampeã
Aquela, do nosso coração, Brasil
É, galera! Tira o pé do chão, Brasil!

Mais uma vez, vamos torcer
E vestir a camisa amarela
Aquela, que é tetracampeã
Aquela, do nosso coração
Brasil!

A nossa seleção vai dar as mãos de novo
Balançar a rede
Sacudir o povo
Nosso país com fé, chuteira no pé
E bandeira na mão
Vai ligar a televisão
Se Deus quiser, o caneco vem pra nossa mão

Bola na área encobrindo o zagueiro
O Brasil inteiro vai cabecear
Eu sinto cheiro de vitória no ar
Eu tô torcendo daqui, mas na verdade eu tô lá!

Bola na área encobrindo o zagueiro
O Brasil inteiro vai cabecear
Eu sinto cheiro de vitória no ar
Eu tô torcendo daqui, mas na verdade eu tô lá!


Em 2013, mirando a Copa de 2014, a LG contratou Seu Jorge como seu garoto-propaganda e produziu um clipe, dirigido por Spike Lee, da mesma música. Contudo, o que se percebe, é que lá a letra aparece na sua forma original, como foi criada pelos compositores. A versão traz alguns trechos diferentes do single lançado pela PolyGram, em 1998. Assista neste link: https://www.youtube.com/watch?v=O_9HWL3cCPY.

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O primeiro da Ana 11/10/2017
Ana Carolina na capa do seu primeiro CD. A foto é de Greg Vanderlans. Imagem: reprodução do site da artista 

"Minha garganta estranha, quando não te vejo/Me vem um desejo doido de gritar/Minha garganta arranha a tinta e os azulejos/Do teu quarto, da cozinha, da sala de estar". Em 1999, esses versos eram bastante populares no Brasil. A responsável por isso foi a cantora e compositora Ana Carolina. O primeiro CD dela, intitulado Ana Carolina (BMG), ecoou com o grito forte de Garganta, música de Totonho Villeroy,  faixa 6 da obra. A canção traz um eu lírico feminino "empoderado" e bastante coerente com os debates dos dias de hoje: "Sei que não sou santa, vezes vou na cara dura/Vezes ajo com candura, pra te conquistar/Mas não sou beata, me criei na rua/E não mudo minha postura só pra te agradar".

O disco de estreia da mineira de Juiz de Fora trouxe também a metafórica Tô Saindo (Totonho Villeroy): "[...] Eu tô saindo, eu tô saindo deste buraco/Help! Eu preciso sambar [...]"; e Alguém Me Disse (Evaldo Gouveia/Jair Amorim), uma dessas de dor de cotovelo, com melodia agradável, arranjo de bolero e letra interessante: "[...] Se vais beijar/Como eu bem sei/Fazer sonhar/Como eu sonhei/Mas sem ter nunca amor igual/Ao que eu te dei". A faixa 3, Nada Pra Mim, tocou bastante no rádio. A letra de Jonh Ulhoa (da banda Pato Fu) ganhou força na interpretação de Ana Carolina, ficando ainda mais filosófica. Trancado, a primeira da série de canções da própria Ana que figura no CD, tem eu lírico masculino e mensagem introspectiva: "Eu tranco a porta para todos os gritos/E o silêncio também está lá fora/Agora, a porta está trancada". Em Armazém (Ana Carolina), a cantora deixa evidente o seu lado de instrumentista. O pandeiro bem marcado ajuda a dar graça à letra simples e descomprometida.

A Canção Tocou Na Hora Errada (Ana Carolina) é a sétima faixa do CD. Tem ótima letra e melodia. É uma das melhores do álbum. Assim como Agora Ou Nunca (Arnaldo Antunes), O Melhor De Mim (Frejat/Paulinho Moska/Dulce Quental), O Avesso Dos Ponteiros (Ana Carolina) e Beatriz (Chico Buarque/Edu Lobo). Aqui, valem algumas ressalvas: Agora Ou Nunca é uma daquelas letras cheias de ludicidade e de espírito filosófico que saem da cabeça de Arnaldo Antunes: "Nunca se responde uma pergunta/Nunca é o Dia de São Nunca"; O Melhor De Mim é uma declaração de amor sem moderação. Beira o ultrarromantismo: "[...] Se amor tivesse um nome/Seria o seu [...]"; O Avesso Dos Ponteiros tem poesia rica, que fala de transitoriedade do tempo: "A idade aponta na falha dos cabelos/Outro mês aponta na folha do calendário/As senhoras vão trocando o vestuário/As meninas viram a página do diário/O tempo faz tudo valer a pena/E nem o erro é desperdício/ Tudo cresce/ E o início/Deixa de ser início/E vai chegando ao meio/Aí começo a pensar que nada tem fim/Que nada tem fim". A melodia é primorosa, com o som dos violinos contribuindo para que a canção fique ainda mais bonita; Beatriz dispensa comentários, não é? A interpretação de Ana é certeira e cheia de personalidade.

Além de regravar Chico (Beatriz) e Tom Jobim (Retrato Em Branco e Preto, parceria dele com Chico Buarque), Ana regravou Lulu Santos (Tudo Bem). Em todas, ela emprestou muito bem a sua identidade musical. Perder Tempo Com Você (Alvin L.) destoa do bom repertório do CD. Foi uma perda de tempo gravá-la. Tô Caindo Fora (Ana Carolina/Marilda Ladeira/Fernando Barreto) fecha com qualidade o primeiro trabalho da cantora. De fato, o disco é muito bom. Escute. A sua garganta não vai estranhar.
  
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Ping Pong Records Guinness   15/6/2017
Livro Ilustrado lançado pelo chiclete Ping Pong em 1995. Foto: Raulino Júnior

Quase toda criança adora colecionar coisas e o capitalismo sempre esteve de olho nisso. Em 1995, o chiclete Ping Pong lançou mais um de seus inúmeros álbuns: o Ping Pong Records Guinness. Como o nome já entrega, a ideia era divulgar os recordes registrados no então Guinness Book. Hoje, chama-se Guinness World Records. Quase ninguém conseguia completar o livro ilustrado, porque, por mais que se comprasse o chiclete, muitas figurinhas se repetiam. Daí rolava a troca com outros colegas e amigos que também colecionavam. Um hábito muito comum na época.

O livro se destacou pelo caráter informativo que trazia em cada figurinha. Além da vontade de completar o álbum, os colecionadores tinham a curiosidade em saber sobre cada recorde. Era muito interessante. A seguir, veja algumas figurinhas e informações que faziam parte do Ping Pong Record Guinness.

A apresentação com a história do Guinness Book. Naquela época, o livro estava na sua 41ª edição
Contracapa do álbum
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Só Pra Contrariar Só Para Curtir. E muito!   28/11/2016
Capa do CD Depois do Prazer, um clássico na discografia do grupo Só Pra Contrariar. Imagem: reprodução do site da banda

Em 1997, o grupo Só Pra Contrariar (SPC) lançou um CD que ficaria marcado por toda a sua trajetória: Depois do Prazer (BMG). O disco foi produzido pelo então vocalista Alexandre Pires e por Romeu Giosa. A direção artística teve a assinatura de Sérgio de Carvalho. Para quem é romântico e gosta de música que fala de amor e de relacionamento, Depois do Prazer é uma excelente referência.

O CD é repleto de sucessos e, de acordo com informações do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, vendeu mais de três milhões de cópias no Brasil. A obra tem músicas com boas letras e arranjos muito bem executados. A começar pela faixa que dá título ao CD. Composta por Chico Roque e Sérgio Caetano, a música Depois do Prazer mostra a complexidade humana no âmbito dos sentimentos. A letra traz versos que, aparentemente, soariam controversos; mas, no fundo, todo mundo sabe que eles revelam uma verdade muito possível: "Tô fazendo amor com outra pessoa/Mas meu coração vai ser pra sempre teu/[...]/Posso até gostar de alguém/Mas é você que eu amo". Na faixa seguinte, Tá por Fora (Adalto Magalha/Lourenço), o mote é o desgaste de uma relação, embora o eu lírico não queira dar o ponto final no enlace: "Amor, nosso amor anda meio doente/Dando a impressão que está tudo acabado/Nossa felicidade já não anda contente/E não nos olhamos tão apaixonados/[...]/Dizer adeus a quem se ama/Tá por fora".

Com Mineirinho (Alexandre Pires/Lourenço), o SPC mostra que o samba é a base do som da banda. Isso se repete em Doido Varrido e Artilheiro do Amor, que também são composições de Alexandre Pires e de Lourenço. Mineirinho tem uma malandragem comum ao universo do samba e a letra reforça o estereótipo do mineiro "come-quieto": "Eu não tenho culpa de comer quietinho/No meu cantinho, boto pra quebrar/Levo a minha vida, bem do meu jeitinho/Sou de fazer, não sou de falar"Doido Varrido, como o próprio título já entrega, fala de alguém que está amando de forma exacerbada, que está doido de amor. Para encerrar a trilogia de letras divertidas do CD, eis que surge Artilheiro do Amor. A música usa uma metáfora simples, mas a letra criativa a enriquece: "A galera me disse que nunca viu ela tão empolgada/Mas eles querem saber qual será a minha jogada/Eu sei que esse gol não será fácil de marcar...".

Quando é Amor (Carla Morais/Chico Roque) apresenta sentimentos típicos de quem está apaixonado e é o retrato de um romantismo próprio do SPC: "A gente sente, é pra valer/O corpo treme todo, a voz não quer sair/Não dá pra disfarçar, os olhos não conseguem mentir"Minha Metade é uma versão da música Take Me Now, de David Gates, feita pelo compositor Luiz Cláudio. A letra reflexiva mostra um eu lírico em busca de sua metade, com a esperança de não mais sofrer por amor. O arranjo e a melodia são primorosos. Assim como os de Você de Volta (Alexandre Pires/Marquinhos). Contudo, nessa, o mote é outro. O personagem quer ser perdoado porque menosprezou um alguém que vivia aos seus pés: "Amor, não dá pra te esquecer/Tô sem razão, só te fiz sofrer/O teu perdão, pra mim, tem gosto de prazer...". Em Tem Tudo a Ver (Peninha), o SPC descreve a sensação de quem, sem aviso, é fisgado pelo amor: "[...] Foi, quem sabe, o teu sorriso/Quando esbarrou comigo/Esse amor foi me pegando/Sem aviso". Com Amor Verdadeiro (Luiz Cláudio/Regis Danese), o CD chega ao ápice do romantismo. É uma declaração de amor daquelas que pouca gente resistiria. Os primeiros versos dizem: "Olhe dentro de mim/Você pode se ver/A todo momento". Demais, não é?

Caminhando para a parte final do disco, o ouvinte é brindado com Mistérios do Coração (Luiz Cláudio/Regis Danese). O tema é um término de relacionamento: "Só o tempo pra dizer/O que vai acontecer/Minha vida, sem você, como será?". O arranjo, como o da maioria das músicas, é muito bem feito. A propósito, essa é uma qualidade presente em todo o CD. Pura Verdade (Alexandre Pires/Lourenço) e Nosso Amor (Luiz Barbosa/Reinaldo Barriga) não são propriamente ruins, mas destoam das outras canções da obra. Caí na Real (Luiz Cláudio/Regis Danese), uma das melhores músicas de Depois do Prazer, é outra declaração de amor extremamente romântica; basta apenas um verso para comprovar isso: "Te amo além do que o amor é capaz de amar"Menina Mulher (Alexandre Pires/Marquinhos) conta a história de alguém que não percebia que era o objeto do desejo de uma menina. Porém, quando ela vira mulher, o amor é notado e correspondido: "Me dá todo amor que sempre escondeu no peito/Foi surpresa, fiquei tão sem jeito/Eu que não via nem o seu olhar/Que sonhava um dia, quem sabe, me amar". A música é boa e narra algo que, certamente, acontece com frequência no cotidiano.

Depois do Prazer é um clássico na discografia da banda Só Pra Contrariar. Vale a pena escutar as músicas. Se for a dois, é melhor ainda. Depois, você nos confidencia se foi ou não um prazer.

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A saga de Zé-do-Burro   17/6/2016

Foto: reprodução da internet

Intolerância religiosa, machismo, casamento por interesse, traição, subserviência feminina, fanatismo religioso, imprensa sensacionalista, sincretismo, prostituição, crítica social e política. Todos esses elementos compõem a narrativa da peça O Pagador de Promessas, escrita em 1959 pelo baiano Dias Gomes. O drama em três atos conta a saga de Zé-do-Burro, que faz uma promessa para Santa Bárbara e resolve pagá-la após o burro Nicolau, seu melhor amigo, se restabelecer de um ferimento.

Zé e Rosa, sua mulher, andam sessenta léguas para chegar até a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador. Zé faz todo o percurso carregando uma cruz "tão pesada quanto a de Cristo" nos ombros. Ao chegar no destino, ele se depara com preconceito, aproveitadores de todo tipo e a resistência do Padre Olavo. A atitude do padre é provocada por que, ao contar toda a história que lhe levou até ali, Zé afirma ter ido a um terreiro de candomblé, apelar para Iansã. Aí começa todo o conflito religioso, que é a base do texto de Dias Gomes.

A peça estreou no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), em São Paulo, no mesmo ano em que foi escrita. Flávio Rangel assinou a direção e o ator Leonardo Villar fez o protagonista. O texto foi adaptado para o cinema (1962), para a TV (1988), traduzido para mais de dez idiomas e vencedor de prêmios importantes, como o Prêmio Melhor Peça Brasileira, em 1960, pela Associação Paulista de Críticos Teatrais.

Dias Gomes consegue reproduzir com propriedade os costumes baianos em O Pagador de Promessas. Há personagens caricatos na obra, mas isso não tira o seu brilho. O clímax é constante na narrativa, repleta de reviravolta. A trama prende o leitor do início ao fim e o convida a refletir sobre a sociedade brasileira da época, e sobre a atual também. Conheça a saga de Zé!

Referência:

GOMES, Dias. O pagador de promessas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

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Com licença, eu vou à luta: rebeldia com causa   30/4/2016

Fernanda Torres e Carlos Augusto Strazzer em cena de Com licença, eu vou à luta. Imagem: Banco de Conteúdos Culturais
Por Raulino Júnior

Conflitos entre pais e filhos são sempre ótimos ingredientes para a criação artística. Em 1986, o cineasta Lui Farias apostou nisso e lançou o filme Com licença, eu vou à luta, baseado no livro de mesmo nome de Eliane Maciel. No elenco central, Fernanda TorresMarieta SeveroReginaldo Faria e Carlos Augusto Strazzer

O drama é a versão cinematográfica da autobiografia lançada por Eliane três anos antes (1983). Na história, Eliane (Fernanda), de 15 anos, se apaixona por Otávio (Strazzer), de 33, e enfrenta toda a sanha de sua própria família. Principalmente de seus pais, Eunice (Marieta) e Milton (Reginaldo). 

Antes de o romance entre Eliane e Otávio acontecer, o filme mostra que a relação da protagonista com os pais já não é tão amistosa. Impacientes e nada carinhosos com a filha, Eunice e Milton não demonstram um pingo de preocupação com o bem-estar dela. Por outro lado, a adolescente também não faz nenhuma questão de ser obediente.

Quando o namoro se concretiza, Eliane passa a ser hostilizada pelos pais, com violência física e psicológica, chegando até a viver em cárcere privado. Ainda assim, não abre mão do seu amor por Otávio. A situação se torna insuportável e o casal decide fugir.

O filme tem um roteiro interessante e acertou na escolha do elenco. Fernanda Torres impressiona pela maturidade da atuação. É importante destacar como o cinema nacional já foi mais preocupado em contar boas histórias, que provocam reflexão e deixam algo significativo para quem assiste. Vale a pena conhecer a luta de Eliane.

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Gabriel O Pensador quebrando a nossa cabeça   27/11/2015

Foto: reprodução de imagem do canal oficial do artista no VEVO

Por Raulino Júnior  

Em 1997, todo o Brasil cantava os seguintes refrões: "2345meia78!/Tá na hora de molhar o biscoito!/Eu tô no osso, mas eu não me canso!/Tá na hora de afogar o ganso!"; "Apaga a fumaça do revólver, da pistola/Manda a fumaça do cachimbo pra cachola/Acende, puxa, prende, passa/Índio quer cachimbo, índio quer fazer fumaça"; e "A festa da música tupiniquim/Que tá rolando aqui na rua Antônio Carlos Jobim/Todo mundo tá presente e não tem hora pra acabar/E muita gente ainda tá pra chegar".  Eles fazem parte de músicas do CD Quebra-Cabeça (Sony/BMG), de Gabriel O Pensador. O disco foi produzido por Memê, teve direção artística de Ronaldo Vianna e conta com participações especiais de Lulu Santos (Cachimbo da Paz), Barão Vermelho (+1 Dose) e Evandro Mesquita (Eu e a Tábua).

Como é de praxe na discografia de Gabriel, Quebra-Cabeça tem músicas que tocam em temáticas sociais, mas sempre com humor e uma boa dose de ironia. Pátria que me Pariu (Gabriel O Pensador/André Gomes) é quase um soco na nossa cara, quando fala desses filhos do Brasil que não pedem para nascer e são maltratados desde a gestação: "Uma prostituta chamada Brasil se esqueceu de tomar a pílula e a barriga cresceu/Um bebê não estava nos planos dessa pobre meretriz de dezessete anos/Um aborto era uma fortuna e ela sem dinheiro/Teve que tentar fazer um aborto caseiro...". 

2345meia78 (Gabriel O Pensador) é uma crônica bem divertida, que narra a agonia de um cara que não quer passar o fim de semana sem uma mulher, no "osso". Cachimbo da Paz (Gabriel O Pensador/Memê/Bollado Emecê) é uma declarada apologia a um certo "cachimbo", mas vai além ao tocar em questões como tráfico de drogas, violência e, até, descriminalização: "...e pro índio nada mais faz sentido/Com tantas drogas por que só o seu cachimbo é proibido?". A acidez de Gabriel prevalece quando ele critica o sistema prisional do Brasil: "Na penitenciária, o 'índio fora da lei'/Conheceu os criminosos de verdade/Entrando, saindo e voltando cada vez mais perigosos pra sociedade".

Sem Saúde (Gabriel o Pensador/Memê/Fábio Fonseca), como o título já entrega, critica a insistente situação estrutural da saúde no Brasil: "Emergência! Eu tô passando mal/ Vô morrer aqui na porta do hospital/Era mais fácil eu ter ido direto pro Instituto Médico Legal/Porque isso aqui tá deprimente, doutor/Essa fila tá um caso sério/Já tem doente desistindo de ser atendido e pedindo carona pro cemitério". Não deixa de falar dos erros médicos e da falta de ética da área, principalmente quando toca na temática do assédio sexual.

Pra Onde Vai? (Gabriel O Pensador/Memê/Alexandre Lucas/Alexandre Dantas) é a parte mais melancólica, triste e reflexiva do CD. Tanto na letra quanto no arranjo. A narrativa, que fala da morte de um jovem, revela um problema que continua atual: "Mais uma vítima de um mundo violento/Se Deus é justo, então quem fez o julgamento?". +1 Dose (Gabriel O Pensador/Frejat/Rodrigo/Guto/Peninha/Fernando/Tiago/Memê) e Eu e a Tábua (Gabriel O Pensador/André Gomes) estão sobrando no CD. São duas canções insossas, dispensáveis. En La Casa (Gabriel O Pensador/Tito) também não empolga. É bem fraca, diante do bom repertório de toda a obra.

Dança do Desempregado (Gabriel O Pensador) é uma sátira muito bem feita pelo rapper carioca. Em 1997, no Brasil, tinha dança disso e dança daquilo pra tudo quanto era lado. A Bahia era a principal exportadora. Não foi por acaso que a batida do pandeiro e o suingue do pagode entraram no arranjo. O fato é que Gabriel teve uma ótima sacada e compôs a música, cujo refrão diz: "Essa é a dança do desempregado/Quem ainda não dançou tá na hora de aprender/A nova dança do desempregado/Amanhã o dançarino pode ser você".  

Bala Perdida (Gabriel O Pensador) revela, mais uma vez, o Gabriel crítico e observador da realidade: "Por favor, meu amor, eu não quero encontrar você morta se eu voltar pra casa vivo/Mas se eu não voltar não precisa chorar/Porque levar uma bala perdida hoje em dia é normal/Bem mais comum do que morte natural/Nem dá mais capa de jornal". Assim, como personaliza o Brasil em Pátria que me Pariu, em Bala Perdida ele também usa essa personificação para dar o seu recado: "Eu gostaria de ser uma bala de mel/Feita com amor, embrulhada num papel/Mas vocês me fizeram pra acabar com a vida/Desde que eu nasci eu sou uma bala perdida/Eu sempre fui perdida, por natureza/Até num suicídio ou em legítima defesa/A maioria ainda nem percebeu: vocês tão muito mais perdidos do que eu".

Em Festa da Música, os compositores Gabriel O Pensador e Memê mostram toda a criatividade deles. A música é muito boa. O mote é uma noite de festa reunindo os artistas da música brasileira. Detalhe: a festa acontece na rua Antonio Carlos Jobim. No encarte do CD, Gabriel traz a seguinte observação: "Esta obra de ficção é uma homenagem a todos que estiveram, estão ou estarão um dia na festa da música brasileira". A última música do disco, O Sopro da Cigarra (Gabriel O Pensador) é, basicamente, a parte instrumental de Pátria que me Pariu.

Quebra-Cabeça é um CD que faz a gente refletir sobre vários problemas do Brasil. Dá pra ter ideia de como Gabriel pensa, qual é a sua ideologia e por que critica o que critica e defende o que defende. Se o objetivo do rapper era mexer com a nossa cabeça, ele conseguiu.

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 Você é Santos ou é Silva?   22/9/2015

Gonzaguinha: um cronista sempre antenado. Foto: reprodução do site oficial do artista.

Em 1977, Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha, lançou o disco Moleque Gozaguinha, que, como fora comum em toda a obra dele, trouxe canções com temáticas sociais bem pertinentes. Uma delas é a crônica cheia de humor, e que nos convida à reflexão, Dias de Santos e Silvas (Gonzaga Jr.), a faixa número um do vinil.

A narrativa, contada em primeira pessoa, fala de um dia na vida de um trabalhador. A história é didática, com divisão das ações bem demarcadas entre manhã, tarde e noite. Nesse sentido, pode ser usada por professores de língua portuguesa de todo o Brasil.

O dia do protagonista se passa num centro urbano e ele dá sinais de que tem a pretensão de transformar a própria realidade. Para isso, aposta no jogo do bicho: "[...] sonhei e fiz fé no avestruz/Que vai me dar uma luz/Levo uma nota pra mão. [...] Ai, meu Deus, se o avestruz der na cabeça/Vou ganhar dinheiro à beça/Faço minha redenção/E vou lá dentro no escritório do patrão/Peço aumento, ele não dá/Mostro a grana e a demissão". Contudo, a esperança do narrador-personagem acaba no final da jornada: o avestruz não deu. 

O talento de Gonzaguinha, como compositor, é indiscutível. Ele conseguiu, poeticamente, colocar o dedo na ferida e falar da realidade brasileira em várias de suas canções. Dias de Santos e Silvas é um retrato disso. Critica o capitalismo e mostra como a gente é refém dele. O samba é carregado de uma graça irônica, fazendo com que muito trabalhador se identifique com a situação narrada. E continua atual! A correria do cotidiano, repleta de dificuldades e sempre esperançosa, faz parte da vida de todo mundo "que acorda e se põe em movimento". 

Este texto é, também, uma singela homenagem a Gonzaga Jr., que, se estivesse entre nós, completaria, hoje, 70 anos de idade. Viva, Gonzaguinha!


Observação: você pode escutar a canção citada neste texto e todo o disco Moleque Gonzaguinha na aba "Discografia", constante no site do artista.

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A realidade brasileira em Eles não usam black-tie   30/8/2015


Cena do filme Eles não usam black-tie, de 1981. No registro, Francisco Milani (no centro, de camisa branca), o Sartini; e Milton Gonçalves (na frente, de calça cinza), que interpretou Bráulio. Foto: arquivo da TV Brasil.
  

Em 1956, Gianfrancesco Guarnieri (1934-2006)  escreveu a peça Eles não usam black-tie. Em 1958, o Teatro de Arena fez a primeira montagem do texto. Em 1981, Leon Hirszman (1937-1987) levou a obra para o cinema. A transposição do livro para a tela não deixou nada a desejar. O filme retrata um Brasil conflituoso, formado por um povo que luta pelo seu ideal. 

O drama, que tem pouco mais de duas horas de duração, mostra o cotidiano de uma típica família de classe média brasileira. O pai e o filho mais velho são operários e convivem com o fantasma da instabilidade do emprego, que se dá, principalmente, pela a ameaça de greve e as consequências que ela pode trazer.

Otávio (Gianfrancesco Guarnieri), o pai, representa o cidadão progressista, que integra o comando de greve porque busca melhoria para todos. Tião (Carlos Alberto Riccelli), o filho, fica concentrado nos seus problemas particulares e não participa do movimento, alegando, de forma não muito convincente, que não pode ser precipitado, uma vez que está prestes a ser pai. Maria (Bete Mendes), a namorada, discorda da postura do futuro marido. Inclusive, a cena que mostra o embate dos dois é tão emblemática quanto a do final do filme, com Romana (Fernanda Montenegro) e Otávio na mesa.

Leon Hirszman fez uma adaptação que conseguiu manter a alma do antológico texto de Guarnieri. O filme é direto, irônico e cheio de alfinetadas à realidade brasileira da época.
 
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Fábio Jr. - Acústico: romantismo em forma de música   26/7/2015 

Capa do CD Fábio Jr. - Acústico, de 2002: baladas românticas. Foto: reprodução do site oficial do cantor




Que Fábio Jr. é um romântico inveterado, todo mundo sabe. Em 2002, o cantor e compositor lançou o CD Fábio Jr. - Acústico, pela BMG Brasil, e deixou ainda mais evidente essa característica. Produzido por Nilo Romero e César Lemos, a obra traz canções emblemáticas da carreira de Fábio, como 20 e poucos anos (Fábio Jr.) e Só você (Vinícius Cantuária). 

Basta o play ser acionado, para o CD arrebatar o ouvinte. A primeira faixa é Em cada amanhecer (Maurício Gasperini/Mauro Gasperini/Juno). A letra fala de arrependimento: "Quando a noite traz o silêncio/Estou sozinho, então, eu penso/Como fui deixar/Você se afastar de mim". E Fábio, que também é ator, empresta toda a sua experiência dramática para interpretar a canção. O resultado é um golaço! As faixas seguintes, Enrosca (Guilherme Lamounier) e Eu me rendo (Sérgio Sá), desfrutam da mesma emoção. O disco esfria um pouco em Minha outra metade (César Lemos/Fábio Jr.), mas ressurge forte e vibrante na encorajadora 20 e poucos anos. O desabafo egoísta presente na música é um convite à perseverança: "Você já sabe/Me conhece muito bem/Eu sou capaz de ir/Vou muito mais além/Do que você imagina/Eu não desisto assim tão fácil, meu amor/Das coisas que eu quero fazer e ainda não fiz/Na vida tudo tem seu preço, seu valor/E o que eu quero, dessa vida, é ser feliz/Eu não abro mão/Nem por você/Nem por ninguém/Eu me desfaço dos meus planos/Quero saber bem mais que os meus 20 e poucos anos". É impossível não destacar a balada Caça e caçador (Eric Bulling/Cláudio Rabello). A música contagia pela letra e pelo balanço. A propósito, todos os arranjos do CD foram elaborados com muito cuidado. 

Fábio, como sempre, emociona ao cantar Pai (Fábio Jr.), que é uma declaração de amor daquelas bem rasgadas. A gravação ficou no estilo voz e violão, com o instrumento vocal bem marcado. É acústico, não é? Não tinha como ser de outro jeito. O lado de intérprete do cantor paulista é o seu maior trunfo. Fábio sabe usar isso nos momentos certos. Nesse sentido, em Se quiser vai (Simone Saback), o artista chega ao clímax. Em 2006, no seu CD duplo Dois Quartos, a cantora e compositora Ana Carolina regravou a música de Simone, mas, curiosamente, com outro título: Vai. Contudo, o espírito da letra fica bem mais definido na interpretação de Fábio.

A única falha de Fábio Jr. - Acústico foi colocar músicas importantes da carreira de Fábio como pot-pourri. Isso acontece com O que é que há (Fábio Jr./Sérgio Sá), Pareço um menino (César Augusto/Piska), Quando gira o mundo (Rosa Girón/versão: Cláudio Rabello), Sem limites pra sonhar (Rosa Girón/M. Perez Garcia/versão: Cláudio Rabello e Jeremy Brick), Alma gêmea (Peninha) e Felicidade (U.Tozzi/R. Riefoli/G. Bigazzi/versão: Cláudio Rabello). Todas elas mereciam estar isoladas no CD. A execução de cada uma é bem rápida e deixa o ouvinte pedindo um pouco mais. Talvez essa tenha sido a intenção.

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O negro som do Cidade 23/6/2015

Toni Garrido num dos momentos finais do DVD Acústico MTV Cidade Negra. Foto: captura de tela feita em 22 de junho de 2015.


Nos dias 25 e 26 de novembro de 2001, o grupo Cidade Negra gravava o seu CD e DVD da série Acústico MTV, no Rio de Janeiro. Os produtos foram lançados no ano seguinte. O DVD, mote deste texto, chegou ao mercado com 20 faixas, sendo duas inéditas: a metafórica e bem-sucedida Girassol (Toni Garrido/Da Gama/Lazão/Bino Farias/Pedro Luis) e Berlim (Toni Garrido/Da Gama), que soa como um lamento. Além disso, o grupo fez uma versão em português para a música Johnny B. Goode, de Chuck Berry.

O DVD é simples e sem grandes efeitos, porque deixa a música protagonizar o espetáculo. O que é muito positivo. A veia cênica de Toni Garrido dialoga com o cenário que foi criado e com as letras das canções. O cantor é um intérprete de mão-cheia, como se diz. A afinação precisa e a maciez da voz também se destacam. Da Gama (guitarra), Bino (baixo) Lazão (bateria) completam o time vencedor.

O espectador é arrebatado pelo DVD logo no começo: as canções Sombra da Maldade (Toni Garrido/Da Gama), Realidade Virtual (Toni Garrido/Lazão/Da Gama/Bino Farias), Pensamento (Lazão/Ras Bernardo/Da Gama/Bino Farias), GirassolPodes Crer (Toni Garrido/Lazão/Da Gama/Bino Farias) e Doutor (Lazão/Da Gama/Toni Garrido/Bino Farias) são as responsáveis por isso. Como é de praxe, a obra teve como intenção reunir os grandes sucessos do grupo oriundo da Baixada Fluminense. As canções falam de amizade (Podes Crer), de problemas sociais (DoutorSoldado da Paz [Herbert Viana]), de espiritualidade (Mensagem [Lazão/Da Gama/Ras Bernardo/Bino Farias], que traz o verso "Deus é a vontade de estar feliz") e de romantismo (Realidade VirtualConciliação [Lazão/Da Gama/Ras Bernardo/Bino Farias], Firmamento [Henry Lawes/Winston Foster, versão: Lazão/Da Gama/Bino Farias/Toni Garrido] , Onde Você Mora? [Nando Reis/Marisa Monte]). Não dá para não destacar o caráter filosófico de Pensamento, uma espécie de autoajuda em forma de música. A emblemática A Estrada (Lazão/Da Gama/Toni Garrido/Bino Farias), que toca em quase todas as cerimônias de formatura, é outro ponto alto do DVD.

A participação de Gilberto Gil é só uma mera participação. Nada demais. Cheia daquelas babações que já estamos acostumados quando se trata da presença de ícones da música considerados "de peso". Com Toni, Gil canta Extra, de sua autoria, lançada no disco homônimo de 1983. Antes de chamá-lo ao palco, Garrido baba: "Agora, a gente vai ter, talvez, o momento mais sublime da história, da vida do Cidade Negra. É o momento que você encontra, na realidade, o seu verdadeiro pai, o pai musical do Cidade Negra, o irmão musical do Cidade Negra, o bróder. Aonde [sic] ele chega, por onde ele passa, nascem flores e amores. O homem que cheira flor, que exala perfume de flor: Gilberto Gil". What?!

A direção artística do Acústico MTV Cidade Negra foi assinada por Liminha e Ronaldo Viana. Um acerto. O DVD retrata com precisão a identidade musical do grupo. Vale muito a pena assistir ao registro!

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Cazuza: só as mães (e os fãs) são felizes  28/5/2015

Foto: reprodução do site oficial de Cazuza

Um livro emocionante, cheio de histórias curiosas e com uma narrativa que não deixa o leitor desgrudar das páginas. Assim é Cazuza: só as mẽs são felizes, biografia lançada em 1997, pela Editora Globo. A jornalista Regina Echeverria foi quem teve a missão de transpor para o papel as 20 horas de depoimento de Lucinha Araujo, mãe do cantor. O trabalho foi tão bem-sucedido que, em 2004, serviu de base para o filme Cazuza: o tempo não pára, de Sandra Werneck e Walter Carvalho.

O subtítulo da obra [só as mães são felizes] se refere a uma canção homônima composta por Frejat e Cazuza, lançada por este em 1985, no álbum que ficou conhecido como Exagerado, o primeiro após a saída do Barão Vermelho. No prefácio, Lucinha mostra que as mães não são tão felizes assim: "Lamento não ter tido a chance de conviver mais, muito mais, do que os poucos 32 anos de Cazuza. Sinto não ter tido mais tempo para aprender a compreendê-lo e fazer com que perdoasse os erros do passado: o excesso de zelo, a cegueira que me impedia ver o poeta que ele era, e aproveitar um pouco mais do artista inconformado em que se revelou. Queria que me perdoasse, por ter dado tanta importância a coisas tão pequenas, nas quais eu acreditava como verdade suprema. Que me perdoasse por tê-lo sonhado à minha imagem e semelhança e a forçar que ele pautasse sua vida, que apenas começava, em convenções inúteis". 

Quem lê o livro, conhece um pouco da intimidade da família Araujo, descobre que Cazuza sempre fora chamado pelo apelido, mesmo antes de nascer, e que o cantor só passou a gostar do seu nome de batismo (Agenor) após descobrir que Cartola também tinha sido batizado com tal antropônimo. Mas, na verdade, o nome de Cartola era Angenor. Será que Cazuza morreu sem saber disso?

Em 21 capítulos, Lucinha revela detalhes da convivência com o seu Agenor de Miranda Araujo Neto. A vontade do leitor é a de não chegar naquele fatídico 7 de julho de 1990, data da morte de Cazuza. Três meses depois, em 17 de outubro, Lucinha, com o auxílio de alguns amigos, fundou a Sociedade Viva Cazuza, que dá assistência a crianças e adolescentes carentes portadoras do vírus da Aids. Assim, muitas mães são felizes. Viva Lucinha!


Referência:

ARAUJO, Lucinha. Cazuza: só as mães são felizes. Lucinha Araujo em depoimento a Regina Echeverria. 2.ed. São Paulo: Globo, 2004.



Gravado ao vivo: o caso Mastruz com Leite  26/4/2015 

Capa do 1º CD ao vivo da banda Mastruz com Leite: um clássico. Foto: Raulino Júnior


 Na década de 90, do século passado, a indústria fonográfica do Brasil apostou num novo gênero de álbum: o "ao vivo". Vários cantores e bandas entraram nesse filão e lançaram os seus trabalhos. É que o CD gravado "ao vivo", além de ter sido uma novidade para a época, era garantia de sucesso. O formato reunia poucas músicas inéditas, mas resgatava aquelas canções do repertório do artista que todo mundo gostava e sabia cantar. Então, não tinha erro. É praticamente o que alguns artistas da cena atual da música fazem ao gravar um DVD atrás do outro. Ou seja, na falta de criatividade, lança-se um "museu de grandes novidades". 

A banda cearense Mastruz com Leite gravou o seu em 1997, no Parque de Vaquejada da Fazenda Mastruz com Leite, em Pentecoste, no Ceará. O disco, que é um clássico na história do grupo, saiu pelo selo SomZoom Studio e teve direção artística de Emanoel Gurgel (o mentor da banda). De fato, a gravação ficou muito boa. Isso se deve pela escolha do repertório e pela competência dos vocalistas daquela formação: Kátia CileneFrançaAduilio MendesBete Nascimento e Tony Silveira. De acordo com informações do site Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, o CD vendeu um milhão e meio de cópias.

O álbum começa com um pot-pourri vibrante, que inclui as músicas Na Ponta do Pé e Forrobodó, ambas de Luiz Fidélis. A partir daí, a sequência musical faz o ouvinte se sentir naquele show, que foi gravado nos dias 5, 6 e 7 de setembro. Ao todo, Mastruz com Leite Ao Vivo I tem 21músicas. Canções como Rock do Sertão (Luiz Fidélis), Meu vaqueiro, Meu Peão (Rita de Cássia), Leito da Saudade (Ferreira Filho/Rômulo César/Cláudio Mello), Meu Estrangeiro (Rita de Cássia) e Flor do Mamulengo (Luiz Fidélis) figuram na obra. Destaque também para Meio-Dia (Luiz Fidélis/Danilo Lopes), sucesso do CD Rock do Sertão, de 1994. Na letra, um discurso forte, que fala de seca, dificuldades e esperança. O pot-pourri com Filha do Sol e Os Dez Mandamentos, as duas compostas pela dupla Dadá di Moreno e Jeová de Carvalho, merece ser ouvido, e com empolgação. O xotezinho Noda de Caju (Luiz Fidélis) é outra preciosidade do disco. A obra termina com mais um pot-pourri, dessa vez incluindo as divertidas músicas Cabeça com Bob's (Eliezer Setton/Elizete Setton) e Barriga Crescida (Eliezer Setton).

Atualmente, a Mastruz com Leite entrou na onda do "forró" eletrônico e não é nem de perto aquela banda que fazia um forró fincado nos ensinamentos de Luiz Gonzaga. Hoje, o grupo é congênere da péssima Avioẽs do Forró (é bem difícil encontrar o forró ali). Fica a lembrança.



Sandy e o recado para a imprensa  31/3/2015 


Sandy Leah: música para quem pega no seu pé. Foto: reprodução do site oficial da artista (divulgação)


 O ano era 2006. O CD não tinha nome, apenas Sandy & Júnior. Na capa, nada de foto: um símbolo representando uma mulher e um homem. Na faixa 5 do álbum, o recado: Discutível Perfeição.

A cantora Sandy Leah Lima, 32 anos, ficou famosa na infância, quando começou a cantar ao lado do irmão, Júnior Lima. Juntos, formaram uma dupla de sucesso, com mais de 17 milhões de discos vendidos (segundo informação presente no site oficial de Sandy), seriado de TV e vários produtos licenciados. Em 2007, a dupla chegou ao fim, depois de 17 anos de estrada.
Capa do CD Sandy & Júnior, de 2006. Foto: reprodução do blogue Encartes Pop. Acesso: 31 de março de 2015.

À medida que crescia , Sandy teve que aprender a lidar com todos os lados da fama. Inclusive, o ruim. Ao longo de sua fase de maior notoriedade na carreira, a artista sempre foi alvo de "jornalistas", que insistiam em retratá-la como perfeitinha. Embora, muitas vezes, Sandy tivesse dado vazão para isso, a falta do que falar sobre ela fazia os profissionais da imprensa reproduzirem tal conceito. Coisas do corporativismo da classe. Argh!

A menarca, o primeiro namorado, o primeiro beijo, a primeira vez. Esses eram alguns dos interesses dos jornalistas em relação a Sandy. Sobre o CD? As composições? O processo de produção do álbum? Nadica de nada! Poucos e raros profissionais queriam saber sobre isso. A razão da prática jornalística, quando o assunto era a filha de Xororó, se resumia em falar do seu comportamento de boa moça, da sua retidão e disciplina. Em 2006, Sandy gritou em forma de música:

"Por favor, não me idealize/ Assim você tá fadado ao deslize/ Verdade seja dita/ Nada mais me irrita/ Do que essa estupidez/ É melhor você ter certeza/ Tô longe de ser a Madre Tereza/ Não pise no meu calo/ Ou viro bicho e falo/ O que não quer ouvir/ Admito, eu vivo maquiada/ Minha vida é mesmo tão sofisticada/ Saiba, esse glamour não dura o tempo inteiro/ Eu também preciso ir ao banheiro/ A princesa também sente, chora, sofre, sonha e ouve não (ouve não)/ Eu prefiro a verdade a essa discutível perfeição/ A princesa também briga, encrenca, berra e fala palavrão/ Me recuso a buscar essa discutível perfeição// Já tá mais do que comprovado/ Mentira, um dia, escorre pelo ralo/ Tachada de mimada, Rapunzel aprisionada/ Eu nem vou ligar/ Mas vê se pelo menos mude o texto/ Ou tá arriscando o seu emprego/ Pense grande, o seu destino é bem maior, tenha fé/ Do que ficar caçando alguém pra pegar no pé/ A princesa também sente, chora, sofre, sonha e ouve não (ouve não)/ Eu prefiro a verdade a essa discutível perfeição/ A princesa também briga, encrenca, berra e fala palavrão (mas só se eu quiser)/ Me recuso a buscar essa discutível perfeição// Preste atenção, tome cuidado/ Boca fechada não entra mosquito, diz o ditado/ Respeite meus longos anos de estrada/ De boba é que eu não tenho nada/ A princesa também sente, chora, sofre, sonha e ouve não/ Também mente, é inconsequente, tem preguiça, perde a direção/ Porque ninguém nesse mundo é cem por cento cheio de razão/ Me recuso a buscar essa discutível perfeição".

A letra de Sandy e Tatiana Parra é direta e certeira. Todo mundo compreende a quem se destina. Principalmente, quando se depara com versos como estes: "Mas vê se pelo menos mude o texto/ Ou tá arriscando o seu emprego/ Pense grande, o seu destino é bem maior, tenha fé/ Do que ficar caçando alguém pra pegar no pé". Simples, precisa e irônica (o uso de "princesa" foi uma boa sacada!). Uma pena não ter sido muito executada. A dupla trabalhou pouco a música. Alguns jornalistas pretensiosos vão falar: "Que bobagem! Uma letra boba dessa!". A gente entende. No Brasil, jornalista é sinônimo de presunção.

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Roda Viva: a coerência artística de Daniela Mercury   13/2/2015


https://www.youtube.com/watch?v=6FtKARmClT4
Daniela Mercury, no Roda Viva. Captura de tela feita em 13 de fevereiro de 2015. Clique na imagem para assistir à entrevista.


Em 1º de janeiro de 1996, a TV Cultura exibiu, no tradicional programa Roda Viva, uma entrevista com a cantora e compositora Daniela Mercury. Vale muito a pena assistir! Principalmente, para entender por que a Axé Music se tornou uma música hegemônica no Brasil. A competência e preocupação artística de Daniela já eram evidentes desde lá. Definitivamente, o canto é dela!

Na entrevista, mediada por Matinas Suzuki, Daniela fala sobre sua relação com o dinheiro ("Eu gosto de dinheiro para produzir, para realizar os meus sonhos"), sobre as críticas ao seu trabalho, sobre as dificuldades do início da carreira e outros assuntos que interessam a quem gosta de música e cultura brasileira. Naquele momento, ela estava prestes a lançar o CD Feijão com Arroz, um clássico de sua discografia, e mudando o seu percurso no Carnaval de Salvador: ia desbravar a Barra. Em 1996, Daniela estava completando dez anos de carnaval em Salvador.

Alguns trechos são bastante interessantes e mostram como Daniela é uma artista coerente com o seu público, a sua música e a sua arte. Isso transparece quando a artista fala sobre a sua dedicação aos shows: "Eu faço cada show como se fosse o único e o último da minha vida. Seja onde for, há qualidade, há entrega absoluta, disso eu não abro mão; em hipótese alguma. Mesmo estando até um pouco debilitada fisicamente pelas viagens. Eu não escondo nada, eu não guardo nada. Eu sou completamente intensa na minha relação com o palco"

A conhecida personalidade forte de Daniela também figurou no Roda Viva. Ao falar sobre a presença da dança nos seus espetáculos, ela solta: "Eu tenho a dança como um outro elemento de comunicação com o público, muito claramente. Eu não uso ela só como um enfeite". Enfim, a repetição é necessária: vale muito a pena assistir ao programa! No YouTube, ele está disponível no canal do usuário Roberto Soares.

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Essa Preta...        18/1/2015

Preta Gil. Foto: reprodução do site oficial da artista (divulgação)


Por Raulino Júnior 

 Preta Gil tenta. Isso ninguém pode negar. Tentar é válido, não é? Deixa a menina.

Em 2004, na  TV Bandeirantes, ela apresentou o Caixa Preta, programa de auditório que não tinha novidade alguma, apenas a Preta como apresentadora.  Por isso, naquele ano, muita gente falava sobre o fato de ela ser a única apresentadora negra da TV brasileira. Na época, Gilberto Gilsu padre,  era ministro da Cultura e Preta ainda recebia os respingos por ter posado nua para o encarte de seu primeiro CD, o Prêt-à Porter. Ou seja, ela estava em evidência.

Caixa Preta era dirigido por Marlene Mattos, que por mais de 15 anos deu régua e compasso a Xuxa. Marlene era a então diretora de programação da Bandeirantes e botou Preta Gil para comandar um programa fadado ao fracasso. O conteúdo da atração era normal: entrevistas com artistas famosos, musicais, interação com a plateia e enquetes nas ruas de São Paulo. Ia ao ar nas noites de sábado. O problema era que nada funcionava. Preta gritava demais, constrangia alguns convidados falando sobre sexo e tentava ser engraçada. Ah, e tinha uma caixa preta, de onde saíam questões "bem interessantes" para as visitas. Resultado: o programa ficou no ar por quatro meses

Preta fez novelas, participou de minissérie, apresentou outros programas e, hoje, além de dar seguimento à sua carreira musical, integra o elenco do programa Esquenta!, de Regina Casé. E continua tentando...

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