A telona se rende à telinha: o olhar do cinema para a televisão

 Curtas mostram como a televisão provocou mudanças nos hábitos das famílias 

Cenas de Túnel e 29 Polegadas: a TV no cinema. Imagens: reprodução do vídeo

Por Raulino Júnior ||DESDEnhas: as resenhas do Desde|| 

Durante esses 70 anos de presença no Brasil, a televisão foi tema de um monte de coisa. Nem o cinema nacional ficou alheio à revolução provocada pelo aparelho que chegou por aqui em 1950, numa aventura capitaneada por Assis Chateaubriand. Das produções feitas pelos amantes da Sétima Arte, vamos destacar dois curtas-metragens: Túnel (Bruno Kennedy e Mayra Jucá, 5 min, 1994, Rio de Janeiro) e 29 Polegadas (Bernard Attal, 21 min, 2004, Bahia).

Em Túnel, a televisão ganha uma relevância tão grande que nada é mais importante do que aquilo que está sendo exibido nela. Há um círculo vicioso que faz com que algumas famílias retratadas no filme não percebam (ou não façam nenhum esforço para isso) o que acontece ao seu redor. O curta apresenta um adolescente que assiste a um programa de TV no qual uma família aparece fazendo a maior algazarra na mesa, enquanto o pai assiste a outro programa, que, por sua vez, traz uma família preconceituosa que só para de despejar a sua violência verbal quando a vinheta do Jornal Olho de Vidro, da TV Olho de Vidro, entra no ar. O telejornal é daqueles que mostram "o mundo cão", com repórter fugindo de tiroteios e protesto de moradores. No final, o adolescente do início volta a aparecer. Dessa vez, com partes do corpo gangrenadas. Inclusive, a orelha até cai. Ou seja: o ser humano se anulando por causa da programação da TV. Atualmente, isso acontece com o vício nos smartphones, não é?

29 Polegadas retrata um lugarejo em que o marido, funcionário público, sai para trabalhar e a sua mulher, que é dona de casa, sai para traí-lo com o vizinho. O curta, produzido na Bahia, é estrelado pelos atores Bertho Filho (um gênio da atuação), Claudia Di Moura e AC Costa. Quando o marido, interpretado por Bertho, compra uma TV de 29 polegadas, há uma mudança de comportamento no casal de amantes. Em vez de a mulher ir para a casa do vizinho, é ele quem passa a visitá-la, em busca de prazeres (sexuais e os proporcionados pela programação das emissoras). É o "televizinho". O marido, por outro lado, se mostra como um cara apenas preocupado em prover o seu lar. Quando compra a televisão, isso fica ainda mais evidente: ele chega do trabalho, não interage com a companheira, mas tem todo o tempo do mundo para assistir aos programas veiculados na TV. 

Ninguém duvida do poder de transformação que a caixinha de 70 anos provocou na sociedade. Os dois curtas abordam isso. Os filmes mostram, com leveza e com um tom crítico, como um aparelho é capaz de dominar o homem. As produções servem para suscitar debates em ambientes de produção de conhecimento, como escolas e universidades. A TV no cinema é uma TV para ser repensada. Isso é sempre bom.

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