Televisão na Música: a crítica de Chico Buarque e dos Titãs

Artistas usam canções para criticar a TV enfatizando a alienação causada por ela

A MPB e a crítica a um dos canhões da indústria cultural: a televisão. Imagens: reprodução da internet
Por Raulino Júnior ||DESDEnhas: as resenhas do Desde|| 

A televisão sempre esteve no centro dos debates, para o bem ou para o mal. E a arte, com a sua capacidade de expressar valores de uma época, e até de prenunciar o que não é percebido num momento presente, é um instrumento eficaz para manifestar opiniões acerca de comportamentos e da indústria cultural. Foi o que Chico Buarque fez, em 1967, ao refletir sobre a caixinha mágica que completou 70 anos há um mês. O artista carioca, que nasceu seis anos antes da chegada da TV no Brasil, fez uma crítica sobre ela através de um samba-canção lançado 17 anos após o feito de Assis Chateaubriand. A música A Televisão, de autoria do próprio Chico, que integra o disco Chico Buarque de Hollanda - Volume 2, o terceiro da carreira do artista, mostra o poder de alienação do objeto septuagenário. 

Na obra, um narrador-onisciente conta a história de um "homem da rua" que, a princípio, resiste, mas, com o tempo, se rende à magia da televisão. O homem da rua, no contexto, é um boêmio, que é cooptado pela telinha. Na primeira estrofe do samba, a resistência do personagem em relação ao novo meio de comunicação fica bem evidente:

O homem da rua
Fica só, por teimosia
Não encontra companhia
Mas pra casa, não vai não

Ou seja: o homem prefere ficar só a acompanhar o entusiasmo da família diante da programação da TV. Para um boêmio, ficar sem companhia é um teste de fogo. Vale ressaltar que, por muito tempo, algumas famílias tinham o hábito de se reunir diante da televisão para acompanhar os seus programas. Nesse sentido, as reuniões serviam como uma prática de lazer. A segunda estrofe complementa a primeira e justifica o motivo pelo qual o homem não vai para casa:

Em casa, a roda
Já mudou, que a moda muda
A roda é triste, a roda é muda
Em volta lá da televisão

Em casa, todos estão hipnotizados e mudos. Ninguém se comunica. "A roda é triste/A roda é muda". Quem reina é a televisão. Aqui, Chico consegue trazer uma imagem emblemática para o que é cantado. Fazendo uma associação com os dias de hoje, é possível substituir a palavra "televisão" por "smartphone". Além disso, quando fala que "a roda já mudou, que a moda muda", se refere aos diferentes públicos que acompanham a programação. Alguns atrações são mais voltadoas para os adultos, outras para crianças e adolescentes. Dessa forma, a audiência  vai mudando. Toda hora é uma moda, um programa diferente, para um público diferente.

Até a lua, em vão, tenta chamar a atenção dos telespectadores:

No céu, a lua
Surge grande e muito prosa
Dá uma volta graciosa
Pra chamar as atenções

O homem da rua
Que da lua está distante
Por ser nego bem falante
Fala só com seus botões

Chico, de forma genial, traz o verso "Fala só com seus botões", mostrando que o homem da rua está tão isolado quanto quem está em casa, falando com os botões da TV. E o verso é propositalmente ambíguo: o homem fala "sozinho com os seus botões" e fala "somente com os seus botões". Nas estrofes seguintes, a crítica ao fato de a TV mudar os hábitos e substituir algumas práticas culturais:

O homem da rua
Com seu tamborim calado
Já pode esperar sentado
Sua escola não vem não

A sua gente
Está aprendendo humildemente
Um batuque diferente
Que vem lá da televisão

E a lua, como elemento da natureza, insiste em chamar a atenção: muda de fase, evolui, mas não é percebida nem pelo homem da rua, pois "não estava no programa" (outra ambiguidade!): 

No céu, a lua
Que não estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Pra mostrar evoluções

O homem da rua
Não percebe o seu chamego
E por falta doutro nego
Samba só com seus botões

Nestas estrofes, Chico fala da alienação de forma mais contumaz. É a TV interferindo nas relações humanas e fazendo até com que a vida pare diante dela:

Os namorados
Já dispensam seu namoro
Quem quer riso, quem quer choro
Não faz mais esforço não

E a própria vida
Ainda vai sentar sentida
Vendo a vida mais vivida
Que vem lá da televisão

O homem da rua, enfim, é vencido e vai ligar os botões da TV. A máquina dominou o homem.

O homem da rua
Por ser nego conformado
Deixa a lua ali de lado
E vai ligar os seus botões

No céu, a lua
Encabulada e já minguando
Numa nuvem se ocultando
Vai de volta pros sertões

A seguir, ouça o samba de Chico.


******
Em 1985, com três anos de vida, foi a vez da banda Titãs criticar a televisão. Contudo, a crítica do grupo paulistano foi muito mais ácida que a de Chico. Tanto que Lulu Santos, um dos produtores do disco Televisão (o segundo da carreira do grupo), que traz a canção homônima, ponderou a presença dela no álbum. "Dizia-se atingido pela canção de Arnaldo AntunesMarcelo Fromer e Tony Bellotto, cujos versos não poderiam ser mais diretos: 'É que a televisão me deixou burro, muito burro demais/E agora eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais'. Lulu alegava que também dependia da TV e que a música poderia abortar o sucesso do LP na mídia. Mas os Titãs estavam decididos a não abrir mão da faixa", afirma Natan Barros Pereira, em seu Trabalho de Conclusão de Curso defendido em 2010, na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), e intitulado "Ó, Cride! Fala pra mãe que o discurso anticonsumismo dos Titãs os capturam [sic]: Análise do álbum Televisão. O fato é que o receio de Lulu não se confirmou. A música fez bastante sucesso e a banda se apresentou em diversos programas de TV.

Contudo, quando a gente analisa a letra, a tendência é concordar com Lulu, que, em 2017, regravou a música com um arranjo totalmente diferente do original. Os dois primeiros versos da canção já prenunciavam o que estava por vir:

A televisão me deixou burro, muito burro demais
Agora, todas coisas que eu penso me parecem iguais

Aí está uma crítica à massificação e a uma padronização de comportamento estimulado pelos programas de TV. O eu lírico denuncia que já não reflete sobre nada que vê e se assume vítima da globalização. Os dois versos seguintes abordam a alienação do indivíduo, que, em primeira pessoa, fala de sua própria vida com o advento da televisão:

O sorvete me deixou gripado pelo resto da vida
E, agora, toda noite quando deito é: "Boa noite, querida".

O "Boa noite, querida" pode ter duas interpretações: a primeira, como se o sujeito fosse tão manipulado pela TV que a considera como uma pessoa, membro da família. É aquela pessoa que responde ao "boa noite" dos apresentadores de jornal, tendo a falsa impressão de uma companhia; a segunda, é o eu lírico reproduzindo aquilo que vê na TV, o comportamento visto como ideal. Então, antes de dormir, tem que se cumprir esse ritual de dar boa noite. A citação do sorvete remete ao consumismo exagerado de algo que a TV anunciou e considerou como bom.  

No refrão, os Titãs utilizam o bordão do personagem Pacífico, interpretado por Ronald Golias no humorístico A Praça da Alegria (embrião de A Praça é Nossa), que estreou em 1956,  na TV Paulista:

Ô, Cride, fala pra mãe!
Que eu nunca li num livro que um espirro fosse um vírus sem cura
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!
Ô, Cride, fala pra mãe!

Cride é o apelido de Euclides Gomes dos Santos, amigo de infância de Golias. O verso "Que eu nunca li num livro que um espirro fosse um vírus sem cura" complementa o crédito dado à TV quando o eu lírico diz "O sorvete me deixou gripado pelo resto da vida". É o pensamento de que tudo que é veiculado na TV, é verdade. Os Titãs mostram um sujeito que vive prostrado diante do objeto e o associam a um burro. De fato!

A mãe diz pra eu fazer alguma coisa, mas eu não faço nada
A luz do sol me incomoda, então deixa a cortina fechada
É que a televisão me deixou burro, muito burro demais
E, agora, eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais

O personagem está tão hipnotizado pela televisão que não desgruda da tela, a ponto de não fazer nada. "Esse menino passa o dia todo assistindo. Vai procurar alguma coisa para fazer", diria a mãe dele. O próprio eu lírico tem consciência do efeito nocivo desse comportamento. O agressivo verso "E, agora, eu vivo dentro dessa jaula junto dos animais" confirma isso. De acordo com a música, a televisão aprisiona e não faz pensar, ter criticidade.

No final, o poder da televisão fica tão evidenciado, que o eu lírico afirma:

Ô, Cride, fala pra mãe
Que tudo que a antena captar, meu coração captura
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!
Ô, Cride, fala pra mãe!

Tudo que passa na TV, passa a fazer parte da vida do personagem. Ele crê em tudo! Se deu na TV, é verdade. Há uma passividade diante do que se vê. O cara foi capturado. Abaixo, ouça Televisão


As duas músicas são pontos de vistas que, obviamente, devem ser considerados. "Assim caminha a humanidade": com percepções diferentes sobre as coisas. A crítica é sempre importante e faz crescer. Que a TV dos próximos setenta anos não repita os erros do passado e seja ainda mais interessante.

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