Deu na TV: livro conta como jovens inexperientes revolucionaram a comunicação, em 1950

Obra narra a história da TV Tupi, que estreou há 70 anos  

A história do primeiro canal de TV narrada por quem fez parte. Imagem: captura de tela

Por Raulino Júnior ||DESDEnhas: as resenhas do Desde|| 

Há exatos 70 anos, no Alto do Sumaré, em São Paulo, jovens inexperientes, na faixa dos 20 anos, e poucos com mais de 30, ergueram a TV Tupi, primeira emissora de televisão do Brasil e da América Latina. Toda a aventura é narrada num livro por uma testemunha e participante efetiva da história: a atriz Vida Alves (1928-2017). Em TV Tupi: uma linda história de amor (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008, Coleção Aplauso), Vida conta o início, o auge e o declínio da TV criada pelo paraibano Assis Chateaubriand (1892-1968). Ela também fazia parte da turma que ajudou a emissora acontecer. Atuou como atriz, apresentadora, novelista, garota-propaganda e mais um monte de funções. Essa era a tônica. Todo mundo fazia tudo. "Ganhamos um brinquedo e começamos a brincar", frase atribuída a Cassiano Gabus Mendes, então diretor artístico da Tupi, que Vida reproduz no livro. Cassiano, na época, tinha 23 anos de idade. O diretor geral da emissora, o baiano Dermival Costalima (o sobrenome está escrito assim, no livro), não tinha nem 40. A Tupi surgiu cheia de improviso, com programação ao vivo e vontade de marcar época. E marcou.

Dermival Costalima e Cassiano Gabus Mendes: pioneiros da televisão. Imagem: reprodução do livro

No livro de memórias, Vida narra os perrengues do dia da inauguração (18 de setembro de 1950), que foi tenso, com uma câmera que não funcionou, mas que Jorge Edo conseguiu reverter. O leitor fica sabendo qual foi o primeiro programa artístico (TV na Taba), a primeira telenovela (Sua vida me pertence, que teve menos de 30 capítulos e beijo no final, entre Vida e Walter Forster, um escândalo para a época), o primeiro programa interativo (Tribunal do Coração, no qual os telespectadores participavam através de carta), o primeiro seriado para jovens (O Falcão Negro, protagonizado por José Parisi), e o primeiro programa voltado para as donas de casa (Revista Feminina, apresentado por Maria Thereza Gregori e onde Ofélia Anunciato começou).

No início, a programação era noturna. Só seis anos mais tarde, em 1956, a Tupi abriu a faixa diurna. Para se ter ideia, o horário infanto-juvenil começava às 18h. A influência do rádio é sempre pontuada na narrativa de Vida Alves. Inclusive, a atriz fala do preconceito que alguns artistas tinham com a TV, pois consideravam algo menor. Isso mudou em 1951, quando estreou o Grande Teatro Tupi, que foi bem-sucedido de imediato. A primeira atriz a se apresentar na TV foi Madalena Nicol, em 10 de janeiro daquele ano. Também em 1951, foi fundada a segunda emissora, a TV Tupi do Rio de Janeiro, inaugurada no dia do aniversário da cidade, 20 de janeiro.

O livro de Vida é assim: cheio de detalhes. Ela fala de cada profissional envolvido no "fazer televisão": as garotas-propaganda, os diretores, os sonoplastas, os novelistas. Fica evidente o esforço da artista para documentar bem a história, sem esquecer de ninguém. Ao abordar o jornalismo, cita o primeiro telejornal, Imagens do Dia, lançado na noite da inauguração; o icônico Repórter Esso, que ficou no ar por 17 anos, e o primeiro jornal da tarde, Edição Extra, que estreou em 1960 e durou quatro anos.

Vida Alves: uma vida dedicada à TV. Imagem: reprodução do livro

Ao longo de 67 capítulos, Vida expõe para o leitor o que viu, fez e viveu. Mostra a expansão da Tupi e a revolução tecnológica da época, como a chegada do videoteipe no Brasil, em 21 de abril de 1960. Os programas que ficaram marcados, como Clube dos Artistas, Almoço com as Estrelas e o TV de Comédia. Quem lê, percebe que Vida é uma testemunha ocular apaixonada pelo seu objeto de estudo, mas ela não disfarça: "Este é um livro de memórias, que contém dados históricos. Não sou historiadora. Sou, ou quero ser, uma cronista da vida vivida", reitera, no capítulo 61. Depois de 22 anos de casa, Vida saiu da Tupi, no mesmo ano da morte de Assis Chateaubriand, em 1968. Parece que a ida do capitão degringolou tudo. A crise se instalou e a Tupi saiu do ar 12 anos depois, em 1980. Em 1995, a atriz fundou a Pró-TV (Associação dos Pioneiros, Profissionais e Incentivadores da Televisão no Brasil) e, em 2017, saiu de cena definitivamente, vítima de falência múltipla dos órgãos. Para quem gosta de televisão, apesar de alguns trechos bem enfadonhos, o livro é um ótimo programa.

Referência:

ALVES, Vida. TV Tupi: uma linda história de amor. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2008. (Coleção Aplauso).

Postar um comentário

0 Comentários