Na Era da Informação, ser informado é compartilhar sem ler

Quem lê tanta notícia?*

Por Raulino Júnior ||Texto de Quinta|| 
Vivemos numa época em que as informações estão por todos os lados, em todos os lugares, publicadas por todas as pessoas. Não há quem não seja bombardeado por notícias, reportagens, postagens, comentários. Independentemente do meio, a informação atinge todo mundo hoje em dia. Da pessoa mais cosmopolita àquela que, por vontade, fica ensimesmada no seu mundo. Vez por outra, aqui e ali, ela ouve uma informação de alguém ou no rádio, ou a informação de alguém no rádio. Enfim, o fato é que estamos na Era da Informação e ninguém duvida disso. Contudo, isso não significa que estejamos tão informados assim. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Parece absurdo, e é. 

O barato, na sociedade atual, e falando especificamente do nosso comportamento em plataformas digitais, é parecer informado. É a última moda, não sei se em Paris também. No Brasil e na Bahia, é tão comum quanto andar para frente. A lógica é a seguinte: a pessoa vê um conteúdo na timeline da rede social digital dela, ou recebe no WhatsApp, julga que é importante e compartilha. A leitura mesmo, deixa para "depois, e depois, e depois de amanhã"**. Como ser competitivo é inerente à natureza humana, com gradações variáveis, a satisfação é ser o primeiro a anunciar que algo aconteceu, a compartilhar aquela notícia importante. É bom, faz bem para o ego e a pessoa fica bem vista diante de um monte de gente que tem comportamento semelhante. A responsabilidade como o que foi compartilhado fica para "depois, e depois, e depois de amanhã". E assim a vida segue na Era da Informação da sociedade desinformada. 

Perceba que não me refiro às fake news, falo das informações que são produzidas com responsabilidade e que, ainda assim, são compartilhadas pelas pessoas sem a devida leitura. Qual é o grau de nocividade disso? Porque a gente já sabe que as fake news trazem informações falsas. E as notícias com informações verdadeiras que não são lidas? Adianta o quê? Certa vez, recebi um conteúdo no WhatsApp, li (como de costume. Isso tem que ser enfatizado!) e percebi que o que fora compartilhado não tinha relação nenhuma com o contexto no qual eu e o "compartilhador" estávamos. Tratava-se de uma inscrição num concurso para professores da educação básica, voltado para pessoas de um determinado estado. Indaguei e recebi uma resposta amarela, do tipo: "Compartilhei para você saber, caso conheça alguém que more lá". Além de não ter lido, a pessoa não foi capaz de assumir o erro nem de pedir desculpas. O retrato fiel de muita gente que vive essa Era da Informação de araque. Não lê e não dá o braço a torcer. Típico. 

"Releasezação" do jornalismo

O mais absurdo é que os, digamos, produtores profissionais de informação também compartilham conteúdos sem ler (e isso vira notícia! Literalmente!). Os jornalistas, que deveriam dar exemplo de um comportamento mais responsável nesse sentido, caíram no poço sem fim de algumas práticas bastante questionáveis da profissão. Há uma "releasezação" do jornalismo e todo mundo sabe disso. Ou seja, a sugestão de pauta, agora, é publicada (em alguns casos, da mesma forma e até mantendo os mesmos erros ortográficos), virando notícia e congêneres.  

Na sua dissertação, intitulada Jornalismo Control c/Control v: uso do release na comunicação da informação on-line, defendida em 2006, na Universidade de Brasília (UnB), Alexandre Zárate Maciel, que fez mestrado em Ciência da Informação, denunciou o costume: "A transformação do release se deu de tal forma que esse passou a se assemelhar à notícia completa, com todos os dados e informações necessárias. Como que poupando o jornalista envolvido em rotina tão atribulada, da necessidade intrínseca à sua profissão de reunir informações de diversas fontes, por vezes contrastantes, e mesmo apurar a veracidade da informação oficial", p. 10. O que tem que ser feito pelo jornalista, afinal ele estudou para isso, é profissional da área, acaba sendo terceirizado. Leia-se: feito por assessores de imprensa. No final das contas, o jornalista faz o quê, então? Precisa ter diploma para copiar e colar aquilo que nem leu?

Essa prática infame da "releasezação" é citada também por Adriana Maria Andrade de Santana, que fez mestrado em Comunicação, na dissertação CTRL+ C CTRL+ V: o release nos jornais pernambucanos, defendida em 2005, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE): "Foi na primeira metade do século passado que o release chegou ao Brasil (DUARTE, 2002), utilizado como meio de divulgação de ações governamentais. De elemento suporte aos profissionais de imprensa, a distribuição de releases se transformou, em muitos casos, em fonte única e – por vezes – até no material final publicado pelas redações", p. 46. 

Na época da faculdade de Jornalismo, alguns colegas de turma e de curso garantiam que uma cantora de Axé superfamosa, que mora em Salvador e que levanta poeira por onde passa, era viciada em cocaína. Eles falavam isso com uma certeza que me assustava. Ficava refletindo sobre o tipo de profissionais que seriam, uma vez que compartilhavam uma informação da qual não tinham prova alguma. Eu, que não sou fã da cantora nem nada, mas sempre acompanhei o trabalho por gostar de Axé Music, alertava que nós, como estudantes de comunicação e futuros profissionais, tínhamos que ter responsabilidade com aquilo que a gente passava adiante. Os colegas argumentavam assim: "Oxente! A irmã da amiga da tia de um amigo meu tem uma filha que trabalha no Hospital Aliança e falou isso, isso e isso para ela sobre a cantora". Bela apuração! Digna de um Pulitzer.  

Jornalista tem que ter responsabilidade do que informa. Alguns deles não fazem o básico da profissão, que é ler e apurar, e acham que isso é tão normal quanto respirar. Se a gente critica, alegam que sofrem muita pressão e que há falta de tempo para um trabalho mais responsável. Justificativa absurda e corporativista. Imagina se os professores fossem para a sala sem preparar aula, reproduzindo tudo que os livros didáticos dizem, sem nenhuma criticidade, e justificassem isso na "falta de tempo"? Imagina, por exemplo, os professores de História nesse contexto? Que história do Brasil seria levada adiante pela "falta de tempo" em ler e apurar? Deixemos de "mas, mas, mas". Jornalista tem que ler (é um absurdo ter que reiterar isso!), porque é uma atividade inerente à profissão, além de ajudar no aprendizado de ortografia (é cada escorregada que a gente vê por aí! E aqui não se trata de preconceito linguístico, basta ler o que os linguistas dizem sobre a questão. Aviso prévio: para saber, vai ter que ler, viu!). Caso contrário, já era a informação de qualidade! Se não quiser fazer isso, que é básico, procure outra forma de contribuir para o mundo e siga em paz. A Responsabilidade agradece! 
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