Lilih Curi: "Ser mulher no cinema é como ser mulher na vida. Somos silenciadas ou nossas opiniões não são levadas em consideração como gostaríamos"

Entrevista com cineasta mineira radicada em Salvador fecha a série Cinema Falado, que comemorou os nove anos do Desde

Lilih Curi: jornalista, diretora, roteirista, atriz e produtora. Foto: Marina Lordelo.

Se alguma cineasta resolvesse roteirizar a vida de Lilih Curi para produzir uma cinebiografia, teria muito "pano pra manga", como se diz. Neta de libaneses (os avós maternos são de Zahlé) e mineira de Belo Horizonte (BH), ela teve o seu primeiro contato com a arte na infância. "Nasci num bairro católico, onde até hoje vivem meus pais. Minha casa ficava na frente da igreja e meu primeiro contato com a arte foi cantando, vestida de anjo, nas festas de coroação de Nossa Senhora, no mês de maio. Lá, descobri também o teatro, interpretando Lúcia, que vê Nossa Senhora de Fátima. Eu tinha nove anos nessa época. O canto, o teatro, as festas juninas, os figurinos, as maquiagens, a brincadeira de fazer cena... Tudo isso foi uma diversão na minha infância e na adolescência", recorda. Pelo que o histórico familiar indica, ela não é a única artista da linhagem. "Há rumores na família de que o Ivon Curi era primo de minha avó Labibe Curi, mas não sei se isso é verdadeiro. Há poucos anos, descobri que Labibe tocava violino, mas não profissionalmente. E minha prima, Denise Curi, dançava ballet e tinha uma escola onde cheguei a fazer aulas na minha infância". Ao enveredar no universo artístico, adotou o nome Lilih Curi. "Este 'h', no final de Lili, eu ganhei de uma numeróloga", adianta-se. Na adolescência, começa a dar os primeiros passos para uma carreira mais sólida: "Aos 16 anos, no Teatro Universitário da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), fiz um curso profissionalizante de três anos, que era, na época, a 'graduação pública' em teatro, em BH. Mas iniciei, de fato, em 1991, como atriz, no espetáculo Il Festino – Opereta de Adriano Banchieri, com direção de Ivan Feijó, no Palácio das Artes, na capital mineira". Filha dos comerciantes Marta Curi e Dezejar Oliveira, e tendo três irmãos, Lilih parece personificar muito bem aquilo que dizem sobre os libaneses (e sobre quem tem o sangue libanês correndo nas veias!): é cosmopolita e resiliente. Para a primeira característica, um bom exemplo foi a vinda definitiva para Salvador, em 2008: "Vim morar em Salvador, pela primeira vez, em 1993, a convite da diretora teatral Carmen Paternostro, para substituir Iami Rebouças em Merlin ou a Terra Deserta, um espetáculo de sucesso da época que esteve em cartaz no Goethe Institut Salvador. Fiquei aqui até final de 94 e fui para São Paulo. Anos depois, no final de 2008, voltei para fazer mestrado no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal da Bahia (PPGAC/UFBA). Aqui casei, fiquei e estou até hoje". Para a segunda, o próprio ofício de fazer cinema independente no Brasil explica. Como ilustração, ela se apropria de um discurso de Hamlet, famoso personagem de Shakespeare: "Estar pronta é tudo". Nesta entrevista, feita por e-mail e que fecha a série Cinema Falado, que comemorou os nove anos do Desde, a jornalista, diretora, roteirista, atriz e produtora mostra que está mais do que pronta para falar sobre carreira, cinema, políticas públicas, governo brasileiro, filmes prediletos e de como é ser mulher na sétima arte: "Somos silenciadas", reclama.

Desde que eu me entendo por gente: Quando nasceu a sua paixão pelo cinema?

Lilih Curi: Desde pequena, tenho paixão pelo audiovisual. Vi muita TV na minha infância e adolescência, como a maioria dos brasileiros. Marcantes foram o Sítio do Picapau Amarelo e os filmes da Sessão da Tarde. Outra lembrança dessa época foi ter visto o meu tio num programa de TV local. Aquilo foi tão mágico que até hoje tenho a imagem daqueles instantes e sei que por muito tempo permaneci me indagando como aquilo acontecia. Acho que ali já era paixão! O cinema, especificamente, entrou na minha vida aos dez anos, quando assisti ET, de Spielberg. Aí sim, a telona, que experiência arrebatadora! Lembro como se fosse hoje: o cinema lotado e eu sentada na escadaria da sala, em êxtase. O filme tinha uma tecnologia avançadíssima para a época, o que me marcou profundamente. Como eles faziam para a bicicleta voar? Mas, aos 26 anos, já trabalhando como atriz em SP, que decidi ser cineasta, ao assistir Central do Brasil, de Walter Salles. Eu acho que assisti a esse filme umas sete vezes, e sempre sozinha. Sou da época que se alugava sete filmes, por R$ 7, durante sete dias. Quando você devolvia antes, que era o meu caso, conseguia bônus para um novo pacote e assim fui me formando, no VHS. Assisti a tanto filme, que não me lembro nem mais o nome, mas tudo está guardado em algum lugar!

Desde: A Mostra Lugar de Mulher é no Cinema, da qual você é uma das idealizadoras, com Hilda Lopes Pontes e Moara Rocha, é um espaço político de representatividade feminina. Como nasceu a ideia do evento e qual a importância dele dentro da cena?

LC: A Mostra surgiu numa sinergia entre nós três à época do levante feminista que acontecia em 2016 no Brasil. Foi uma proposta da gente se juntar e conhecer as mulheres do audiovisual baiano para “fazer alguma coisa juntas”. Tínhamos a ideia de exibir nossos filmes e conhecer os das outras mulheres. Na época, eu tinha uma pequena coleção de filmes sobre o universo feminino, uns 18 curtas sobre aborto, violência contra as mulheres etc., que queria exibir para as mulheres também. Eu já era conectada às questões de gênero. Então, depois de algumas tentativas frustradas de juntar filmes e mulheres numa criação e gestão compartilhada de um evento, resolvemos encabeçar a Mostra meio que no ímpeto de, de fato, “fazer alguma coisa” para saciar a sede que tínhamos (e ainda temos!) de sermos escutadas, visibilizadas, contra qualquer tipo de apagamento criativo e artístico, que a gente vivencia aqui na Bahia ou em qualquer lugar do mundo! O sistema patriarcal nos impõe essa situação e a Mostra chegava como um respiro, uma ação concreta, o nosso antídoto para tanta invisibilidade. A partir das três edições, realizadas em 2017, 2018 e 2019, percebemos que todas as 54 mulheres diretoras e gestoras como nós, profissionais do audiovisual da cidade de Salvador e do Estado da Bahia, que sustentam o evento diretamente com a gente, são hoje uma rede viva de atuação na área, com muito mais visibilidade, reconhecimento e autonomia criativa do que antes. Hoje, sabemos quem são as caras! Nós hoje nos reconhecemos! Sabemos quem somos! Estamos em vários projetos, em múltiplas funções, em várias produtoras, saindo do Estado, do País. Sabemos também que é apenas o começo, que cada vez mais estaremos ocupando os espaços de poder, porque não tem mais volta. Sabemos do nosso valor. Se nós mulheres não colocarmos a coroa na cabeça, ninguém o fará! No total, chegamos à casa de cerca de 90 pessoas envolvidas direta e indiretamente no projeto na última edição. Para nos firmarmos, e isso significa ter um público assíduo nos sete dias do evento, precisamos de patrocínio. A 4ª edição está programada para o final de 2020, mas só realizaremos se tivermos patrocínio. Temos valor e sabemos do valor do evento para a cidade de Salvador e, além, para o Brasil, minimamente. Exibimos 156 curtas do Brasil inteiro na 3ª edição. Nossa ideia é crescer mais ainda, internacionalizando o evento, mas pra que isso aconteça, precisamos, e merecemos, o investimento do setor público e privado. Desde a terceira edição, temos Dayane Sena como sócia também do projeto e responsável pela produção executiva. Então, cada vez mais, estamos nos profissionalizando e agregando profissionais de valor e experiência como Day, que, com a gente, tem se mobilizado para que a  4ª edição aconteça.

Desde: E o que é ser mulher no cinema?

LC: É como ser mulher na vida. Somos silenciadas ou nossas opiniões não são levadas em consideração como gostaríamos. Salvo a conduta de alguns poucos homens conscientes, que praticam a igualdade de ser, estar e viver com mulheres. Para permanecermos num ambiente saudável de trabalho, temos que ter jogo de cintura e ensinar o respeito. Por outro lado, sinto que tenho atraído cada vez mais trabalhos diferenciados, em que as mulheres estão na linha de frente, o que faz toda a diferença. E também cheguei numa etapa profissional em que tenho firmado parcerias com amigos, artistas e profissionais que jogam junto com fidelidade, leveza e alegria.

Desde: Você é roteirista, diretora, atriz e produtora na Segredo Filmes, que está em atividade desde 2013. Fazendo um trocadilho, qual é o segredo para fazer cinema independente no Brasil? E na Bahia?

LC: Ufa! O maior segredo é ser positiva, porque se eu for aqui reclamar que a Prefeitura de Salvador, o Governo do Estado e o Governo Federal não apoiam, não investem o suficiente em editais e projetos, é clamar de novo, é clamar pela escassez, pela falta de investimento, pela falta de respeito com a arte e a cultura nesse país. Uma cidade, um Estado que fabrica gênios como Glauber, Caetano, Gil, Bethânia, Riachão, Caymmi, Jorge Amado, Bel Borba e muitos, muitos, muitos outros... deveria tem um mínimo de amor-próprio. Mas mudou alguma coisa? Adiantou a gente reclamar? A gente consegue se unir enquanto classe? Não! Quem sabe com o COVID isso muda. Tenho esperanças! Mas, o que sabemos é que não temos formação política no Brasil, não sabemos exigir os nossos direitos. E quando conseguimos um mínimo de organização, como foi na “Era Lula-Dilma”, não soubemos manter as políticas e valorizá-las. Honestamente, não acredito mais nesse sistema. Ele é caduco, com teorias e práticas velhas, viciadas, é uma “Matrix” da exploração do trabalho e do capital, é um sistema de compadres brancos que se acham europeus e que repetem a violação e o roubo do nosso tempo, da nossa vida, como sofreram os antepassados desses mesmos homens. Está tudo errado. Então... o que me mantém positiva, criativa? São as parcerias, escambos, trocas com as pessoas. Os artistas salvam os artistas! Efetivamente, se cada um de nós não nos sintonizarmos com essa outra frequência para realizar os nossos sonhos, nada muda, continuaremos no limbo do limbo. O segredo é estarmos conscientes da frequência que a gente atua e agirmos na frequência que nos eleve! A Bahia me ensinou que, ou você tem uma atitude proativa, confiante, com parceiros, amigos, na fé, ou você não realiza nada aqui. Ficar esperando editais e empresas apoiarem é uma falácia. Na Segredo Filmes acreditamos e praticamos esta outra frequência: de um sistema de trabalho e economia solidária, onde um colabora com o outro, ganha em um lugar, repassa o cachê e vai realizando os sonhos, os projetos. E claro, não somos Polianas! Quando abre um edital, uma oportunidade, buscamos estar prontos! Como diz Hamlet, estar pronta é tudo!

Desde: Na Segredo Filmes, você já realizou os curtas CARMEN (2013), TERESA (2014) e CAROLINA (2017), que, com ANASTÁCIA (em fase de captação de recursos), integram a Tetralogia da Indignação. DISTOPIA ainda é inédito. Contudo, a mulher é, quase sempre, tema central de suas produções. Por quê? 

LC: Aconteceu de maneira espontânea. Na hora que vi, já estava enredada no gênero. Já tinha o background com a pesquisa em torno da vida e obra de Frida Kahlo, mas não pensava que no cinema iria escrever personagens femininas. Fui então sistematizando as criações na “Tetralogia” e tive influências no entendimento disso, uma delas foi com Minom Pinho, no Kinoforum Labs - Mulheres no Cinema. Ela me despertou para a compreensão de que todas as personagens fazem parte de mim. Por muitas vezes, não fui escutada como Carmen ou fui esquecida como Teresa e como Carolina. Para não permanecer na invisibilidade, aprendi a tomar partido de mim. Anastácia fecha a “Tetralogia”. É um roteiro de curta de ficção selecionado para o Laboratório de Roteiros do PanLab - 2019, que escrevi para Johsi Varjão atuar. A personagem é uma mulher negra que não mais se silencia, ela vai além, denuncia a violência vivenciada. Me vejo também nessa personagem. São várias as violências que sofremos e não é mais possível nos calarmos. Aprendemos a falar, a denunciar. Não tem mais volta. Distopia está sendo lançado neste ano de 2020. É o único “filho”! E toca na minha relação com o masculino e a família. Ainda estou processando... Dois outros projetos estão em andamento, o curta-documentário A Residência e o longa-documentário Mátria, neles as mulheres também são protagonistas e falo de maternidade e família.

Emilio Le Roux e Lilih Curi durante a gravação do curta CAROLINA. Foto: Claudio Zakka.

Desde: Na sua opinião, o que falta ao audiovisual brasileiro?

LC: Investimento. Os editais pararam de acontecer em todo o Brasil. A Cultura está sendo sabotada. O nosso imaginário está sendo atacado. A nossa diversidade está sendo aniquilada.

Desde: E o audiovisual da Bahia? Quais são as principais demandas?

LC: No Governo Rui Costa, não tem investimento, muito menos contínuo. Enquanto Pernambuco dá um show de gestão pública da cultura, Rui investe uma única vez no audiovisual no seu primeiro mandato e uma outra através do edital do Irdeb. E neste mandato de agora fez um outro edital, com problemas. Está aberto agora um edital de 30 milhões para uma única organização social, o que é um absurdo, enquanto as linguagens agonizam por investimento. E a Prefeitura de Salvador também não tem investido no audiovisual. A gestão pública municipal trata a Cultura através da Fundação Gregório de Mattos, com uns trocados da pasta do Turismo, e não através de uma Secretaria de Cultura, com orçamento próprio, como a cidade merece.

Desde: 2019 não foi um ano fácil para o setor cultural, que sofreu com censura e desmantelamentos. Quais, na sua opinião, são as perspectivas para a área até 2022, quando encerra a gestão do presidente Jair Bolsonaro?

LC: O pior possível. Infelizmente, temos um DESpresidente, eleito por um golpe de fake news via WhatsApp, vindo a reboque do golpe anterior, em que Temer articulou “Com o Supremo, com tudo.”, dando uma punhalada no povo pelas costas. Foi o povo que elegeu Dilma. Esses personagens e o Supremo são traidores do Brasil. O Deus chamado Mercado e os seus seguidores que escrevem Brasil com Z nos entregaram ao abismo. Enfim, é isso. É lastimável e aterrorizador chegar aonde chegamos, com a Porcina na Secretaria Especial da Cultura! É tudo um grande Teatro de Horrores ou do Absurdo, eu diria.

Desde: O cinema, inclusive, foi muito atacado pelo atual chefe do Executivo federal. Como o meio lidou com esses ataques?

LC: Esses senhores são incultos. É um governo de incultos. Não são pessoas que compreendem a importância da cultura na formação do imaginário de um povo. Na realidade, eles não querem compreender que o audiovisual eleva uma nação simbólica e economicamente, aumentando o PIB, diminuindo a fome, a violência, o desemprego e tudo que não presta. Não querem aceitar que o Cinema é uma indústria que rende mais que a da Borracha neste país. São caducos na forma de ver e estar no mundo: uma elite do atraso, como qualifica Jessé Souza, aliada a uma alta patente do exército, que alimenta um projeto autoritário de governo, um projeto de apagamento da nossa diversidade cultural. Imagine que eles censuraram o site da ANCINE (Agência Nacional do Cinema), tirando do ar vários cartazes de filmes brasileiros com a justificativa delirante de que os filmes seriam representantes da esquerda. Ou seja, ao atacar uma suposta “ditadura de esquerda”, eles agem como uma “ditadura de direita”. Uma atitude descabida, ilógica! Existe um projeto claro de eliminação das instituições ligadas a toda pauta progressista ou à cultura. A ANCINE foi a melhor coisa que aconteceu para o mercado audiovisual nos últimos anos e ela está sendo bloqueada, não estão liberando cerca de 2 bilhões de reais que estão parados nos cofres da Agência. Os artistas e as produtoras defendem a ANCINE como podem, através dos grupos de trabalho, associações, na busca de diálogo com diversos setores, entre eles, deputados e senadores, para que a Agência e o setor não tenham um fim trágico.

Desde: Qual é a função do cinema na sociedade atual?

LC: A construção e reconstrução do nosso imaginário. Sempre foi! Cinema é o retrato da identidade e da cultura de um povo. A função do cinema chega além, num sentido mais elevado. O cinema toca a alma.

Desde: Se o Brasil atual fosse um filme, de qual gênero seria e por quê? 

LC: Terror? Cinema do Absurdo? Será que preciso explicar o porquê? Acho que não, né? Infelizmente!

Desde: Lei de Incentivo à Cultura (antiga "Lei Rouanet") passou por mudanças no primeiro ano da gestão de Bolsonaro. Antes disso, o instrumento de fomento à cultura já recebia críticas de artistas e produtores culturais. Claro que os criadores faziam críticas de outra natureza. Qual análise você faz disso tudo? 

LC: Com tanto disse-me-disse, o que mais me entristece é que neste momento estamos sem Lei. Está no Congresso pra ser votada, passou pela Câmara e pelo Senado e nada! Com todos os problemas que tínhamos, o pior seria a Cultura parar. E parou! O pior aconteceu. O problema não é a forma – a Lei em si – isso sim deve sempre passar por avaliações, transformações necessárias e evoluir. Não devemos ter problemas com as críticas, muito pelo contrário, devemos reformular o que já não nos serve mais e medir o que é mais justo para um país de dimensão continental como o Brasil, que vem de 350 anos de história de escravidão e que se tornou República num golpe militar e político em 1889. Ou seja, a Cultura sempre esteve em risco, desde que os invasores roubaram dos índios as suas terras, desde que os jesuítas impuseram às etnias a catequização! Não devemos descansar. É isso! Quanto mais tentam nos calar, mais a gente tem que falar, e falar bem alto.

Wallace Nogueira e Lilih Curi no set de DISTOPIA. Foto: Daiane Rosário.

Desde: Podemos dizer que o seu cinema é de militância? Por quê?

LC: Eu acho que não. Não tenho “uma obra” pra poder ter uma síntese ainda. Sinto que o que realizo tem posicionamento, está endereçado, pois desejo que faça o espectador pensar. Sou militante de um pensamento e de uma prática edificante, para todos, isso sim.

Desde: Quais são as suas referências no cinema?

LC: No Brasil, Walter Salles e Eduardo Coutinho me tocam a alma. Fora daqui, os iranianos. Sou apaixonada por vários cineastas iranianos, porém tenho uma conexão especial com Jafar Panahi e com os Makhmalbaf. Mohsen, o pai, é um gênio; e as filhas, Samira e Hanna, a esposa, Marzieh, têm também obras excelentes. Essas mulheres são também, sem dúvida, uma referência para mim.

Desde: Quais filmes mais te marcaram? Por quê?

LC: Central do Brasil, de Walter Salles, por toda a força do roteiro, da fotografia, das atuações, por toda a arte que Walter nos doou à época, naquele retrato impresso dos nossos brasis. Esta é, sem dúvida, a melhor obra do cineasta até o momento. A Maçã, de Samira Makhmalbaf. Simplesmente fenomenal: poético, tocante, de uma sensibilidade não antes vista na condução da atuação, realizada com atores não profissionais. É a vida real ali, pulsante! Um documentário que se pretende ficção ou vice-versa, e que nos conquista por ser tão orgânico, que a gente vê a pulsão da vida ali, hibridizada nos gêneros. Samira faz magia, consegue realizar uma alquimia entre uma história real e aquilo que entenderíamos por ficção. Este cinema é o meu norte como realizadora. Naquele modo de fazer, reside a minha alma de artista. Salve o Cinema, de Mohsen Makhmalbaf é de uma inteligência arrebatadora. O jogo entre a verdade e a atuação é a base da forma do filme e da relação que o diretor cria com os atores, o que nos dá margem também pra analisar a obra do cineasta como um todo, as intertextualidades que ele cria com a sua própria trajetória fílmica. Este filme é uma aula poderosa. E esta obra me conecta a Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, no que tange à questão da representação ali posta novamente, mas sobre uma ótica diversa, pois Coutinho nos faz pensar sobre o conceito da verdade no cinema e também sobre a possibilidade da fonte/personagem ser ou não uma representação. Coutinho é luxo! Veja que essa questão da representação e do hibridismo dos gêneros, esse lugar limítrofe entre o documentário e a ficção me atrai muito. Enfim, poderia citar outros filmes marcantes: Cabra Marcado para Morrer, também do Coutinho, uma obra-prima, por tudo o que o documentário representa na história do cinema brasileiro; Isto Não é Um Filme, de Jafar Panahi, realizado na prisão domiciliar do diretor; Táxi Teerã, um “falso documentário” de Panahi, que bebe na obra do grande mestre de todos, Abbas Kiarostami, ao realizar todo o filme dentro de um carro; e muitos outros por distintas questões... Amor, de Michael Haneke; A Separação, de Asghar Farhadi; Que Horas Ela Volta?, de Ana MuylaertBacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles; Madame Satã, de Karim Aïnouz. Enfim, é muito filme incrível.

Desde: Você tem experiência tanto na produção de documentários quanto na produção de filmes de ficção. Qual gênero te mobiliza mais? Por quê?

LC: São processos diferentes na ficção e no documentário e sou enamorada dos dois em medidas diversas. Obedeço a minha pulsão em criar, então não me guio pelo gênero, para ser sincera. Na ficção, amo o processo da carpintaria do roteiro, me apaixono pela potência da escrita cinematográfica. O desafio tem sido sempre conseguir editais que financiem os projetos para esses roteiros saírem da gaveta e se tornarem, de fato, os filmes. DISTOPIA, que lançaremos neste ano de 2020, foi o meu primeiro roteiro de ficção, propriamente dito. Digo isto porque os curtas anteriores foram híbridos entre ficção e documentário. ANASTÁCIA é o segundo roteiro e continuamos buscando formas de realizar o filme. Na seara dos documentários, a criação processual me encanta, inicia com uma paixão por um personagem ou tema e o filme vai tomando forma de uma maneira mais livre de um roteiro prévio. Além de ser mais viável financeiramente do que a ficção, o processo criativo e as questões que o filme traz vão se definindo à medida que o material fílmico se concretiza, quando já temos as imagens e sons no HD. Sinto que a criação no documentário me inspira a dialogar diariamente com as minhas questões mais subjetivas, sinto que posso tudo naquele instante da filmagem. Inclusive, não fazer o filme, não colocar aquele instante amarrado a uma ação concreta no futuro. Posso, despretensiosamente, filmar ou apenas testemunhar o que a câmera me pedir pra olhar. E com o documentário me sinto muito mais livre pra fotografar também. Cada vez mais, sinto necessidade de fotografar os meus filmes. É um espaço de muita paixão! Paixão pela criação. E gosto das pessoas, das personagens, da profundidade das questões que escolho abordar nos filmes.

Desde: Como é o exercício de ir ao cinema, assistir a um filme e ter um olhar menos criterioso? Existe esse distanciamento?

LC: Sou espectadora de profissão sendo diretora de cinema, não é mesmo? Então, para mim, é um misto de coisas. Quando o filme é bom, envolvente, não dá pra pensar, você entra, já está lá, pronto! Sentiu. Embarcou. É mágica a sétima arte! Mas há filmes que nos distanciam mesmo, inevitavelmente, mas isso acontece quando ele não me cativa pela narrativa, principalmente, quando o discurso é frágil. Ou quando tecnicamente é muito ruim, principalmente quando o som é muito ruim. Algumas questões menos arrojadas de imagens e arte, às vezes, passam batido quando a história me prende. Eu tenho tido boas experiências nas salas de cinema. Os últimos que eu assisti foram Parasita e Coringa e saí mexida com os dois, de maneira completamente diversa.

Desde: Qual história você ainda quer contar na tela grande? Por quê?

LC: São muitas. Mas tem um longa que venho devagarinho desenvolvendo o roteiro, intitulado de Por uma banana. Uma ficção baseada numa história dos meus avós que vieram do Líbano, em que três irmãos se dividiram entre Brasil, Argentina e EUA depois de brigarem no navio por uma banana. Uma história de fome que custou a separação da família Curi.

Desde: Você é multifacetada, tem experiência em teatro, cinema e TV. Contudo, e é uma pergunta filosófica, o que você mais gosta de ser?

LC: Pintora. Frida Kahlo está me ensinando! Mas é um hobby. A pintura me centra, me dá presença, me acalma. E, ultimamente, tenho voltado a compor também, despretensiosamente. Fiz algumas músicas com Élio Camalle quando morei em São Paulo e, desde 2019, tenho criado com Johsi Varjão e Luã Almeida. As músicas estão, sem pressa, sem pausa, chegando nas plataformas musicais.

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