Antonio Olavo: "O documentário é a forma, na linguagem do cinema, que mais se aproxima da verdade"

Em entrevista para o Desde, Antonio Olavo fala de carreira, violência racista e políticas públicas para o audiovisual

Antonio Olavo: cineasta, documentarista, roteirista, diretor e escritor. Foto: Raulino Júnior
Por Raulino Júnior

Entrevistar Antonio Olavo é se conectar de forma potente com a ancestralidade negra que resistiu de todas as maneiras à opressão e contribuiu para formar a história e cultura do povo brasileiro. É sentir-se diante de um mestre griô, aquele que transmite conhecimentos através de suas vivências e de saberes que acumulou durante a vida. Aos 64 anos, 45 deles dedicados ao cinema, Antonio Olavo dos Santos Filho, como é registrado, teve o estímulo para se tornar cineasta através de um curso livre de cinema que frequentou na juventude e pelo fato de ter vivenciado, na mesma época, a dinâmica de um set de filmagem profissional, ao participar da produção dos filmes Dona Flor e Seus Dois Maridos (Bruno Barreto, 1976) e Os Pastores da Noite (Marcel Camus, 1979). Nesta entrevista que concedeu ao Sem Edição, integrando a série Cinema Falado, que comemora os nove anos do Desde, o baiano de Jequié mostra por que é um dos documentaristas mais importantes do país. Pesquisador contumaz dos temas a que se dedica, nenhuma obra de Olavo fica na superficialidade. Tudo tem um quê e um porquê. Em 1992, em parceria com Josias Santos, fundou a PORTFOLIUM Laboratório de Imagens, produtora de cinema e, eventualmente, editora. Ao longo da carreira como documentarista, produziu cinco longas: Paixão e Guerra no Sertão de Canudos (1993), Quilombos da Bahia (2004), Abdias Nascimento - Memória Negra (2008), A Cor do Trabalho (2014) e Revolta dos Búzios (2018). Além de Travessias Negras, série exibida na TV Educativa da Bahia (TVE Bahia), em 2017. Atualmente, está finalizando o documentário Ave Canudos! Os que sobreviveram te saúdam. Preocupado em valorizar a memória social, especificamente a do povo negro, Olavo é categórico: "A história da escravidão já nos foi contada. Eu já ouvi demais essa história [...]. Eu quero contar a história da resistência à escravidão, que essa existiu, foi grandiosa, foi digna, foi maravilhosa, foi emocionante, foi encantadora [...]. Onde há a opressão, há resistência à opressão. Onde houve a escravidão, houve a luta por liberdade. O tempo inteiro". Assista, nos vídeos a seguir, à entrevista com Antonio Olavo.

Sem Edição| Antonio Olavo ⇨ Série "Cinema Falado" - Parte 1


Na primeira parte da entrevista, Antonio Olavo fala sobre sua vinda de Jequié para Salvador, no final de 1973. Na capital, ingressou na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde cursou Geologia. Nessa mesma época, fez um curso livre de cinema, ministrado por Guido Araújo. Assim, nasceu a vontade de ser cineasta. Através de Guido, teve a oportunidade de participar das produções dos filmes Dona Flor e Seus Dois Maridos e Os Pastores da Noite. Era o responsável pela seleção dos figurantes. No bate-papo, Olavo fala ainda sobre as suas referências no cinema documental, citando Eduardo Coutinho e Silvio Tendler, reflete sobre a falta de crítica cultural nos periódicos, explica o processo de produção dos documentários Paixão e Guerra no Sertão de Canudos e Quilombos da Bahia. No final da entrevista, o documentarista opina sobre racismo e a omissão do Estado: "Essas práticas de violências contra o povo negro, particularmente, é coerente com a estrutura que é montada no Estado já de muito antes e que ainda hoje se perpetua".

Sem Edição| Antonio Olavo ⇨  Série "Cinema Falado" - Parte 2 
                    

Na segunda parte, Antonio Olavo fala sobre os documentários Abdias Nascimento: Memória Negra, A Cor do Trabalho e Revolta dos Búzios. Sobre Abdias, conta como o conheceu e o que o intelectual lhe disse no dia do lançamento do filme, num Teatro Castro Alves completamente lotado, em 2008. O cineasta conta de onde vem a sua predileção em produzir documentários, reflete sobre a Lei de Incentivo à Cultura, analisa as práticas do atual governo no âmbito da cultura e opina sobre as políticas públicas para o audiovisual na Bahia: "Muito aquém do que poderia, muito aquém do que deveria, muito aquém do necessário".

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