Você é uma ameaça

Será que eu já posso enlouquecer ou devo apenas sorrir?*

Por Raulino Júnior ||Texto de Quinta|| 
Já parou para pensar nisso? Pare, agora, e pense. Principalmente, considerando as pessoas que estão na sua órbita. Você pode ser uma ameaça para elas, mesmo elas dizendo o quanto você é importante, referência e coisa e tal. Essa importância se torna oca quando elas insistem em te anular. Caso contrário, não saberiam lidar com as potencialidades que você tem, e que elas sabem que você tem. Lembra daquele ditado: "Ninguém chuta cachorro morto"? É por aí. 

A coisa é gritante, estranha. A sua ameaça é algo perceptível, mas nunca declarado pela outra parte. E uso um termo do direito para evidenciar o caráter de contrato social das nossas relações. Nesse "contrato", não há espaço para dar mais palco para quem tem tudo para roubar a cena. Sabe aquele coleguinha que fica sabendo de um processo seletivo, ou qualquer coisa do gênero, no qual você atende a todas as exigências e, mesmo assim, ele não te avisa? Não é difícil imaginar o que ele teme! Não que você seja um bambambã, mas a sua concorrência é um peso. Isso é muito triste. Sigo acreditando que o que tem que ser nosso, vai ser nosso, não tem boicote que impeça. A atitude de não avisar revela insegurança e mesquinhez.

A música Mais uma vez, de Renato Russo e Flávio Venturini, traz os seguintes versos: "Tem gente que está do mesmo lado que você/Mas deveria estar do lado de lá". Eles traduzem bem a razão de ser deste texto. Na verdade, você é uma ameaça tão grande que quem se sente ameaçado quer você por perto, para te escoltar. Não é para proteger, é por medo mesmo. É como se, na primeira oportunidade, você pudesse roubar, mesmo sem intenção, uma oportunidade que poderia ser dele. A lógica é: eu vou andar lado a lado com meu potencial concorrente, para saber de suas estratégias, de seus caminhos, mas vou anulá-lo sempre que puder. É uma proximidade distante, uma indiferença premeditada. Algumas atitudes revelam muito mais do que escondem. O que está implícito vem à tona naturalmente. Basta apurar as vistas.

O que fazer diante disso? Agir da mesma maneira ou não dar importância e seguir o fluxo? "Será que eu já posso enlouquecer ou devo apenas sorrir?". Somos todos falhos e acho que dar um peso para isso não é bom nem para você nem para quem é adepto dessa forma de viver. Se você é uma ameaça, o problema, com certeza, não é seu. Quem se sente ameaçado tem que ter mais autoconfiança. Só isso. Não é difícil. É preciso olhar para dentro para entender o que se passa do lado de fora. Autoconhecimento é mesmo constrangedor.
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* Pitty, em Me Adora.

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