Literatura com "L", de like

Mesa de debate na FLIPELÔ discute o papel da internet na produção literária da atualidade
Clarice Freire, Renato Cordeiro (no centro) e Saulo Dourado: literatura em tempos de internet. Foto: Raulino Júnior
Por Raulino Júnior 

Com quantos "likes" se faz uma literatura? Essa foi a pergunta que deu título à mesa de debate promovida hoje, no Teatro SESC-SENAC Pelourinho, dentro da programação da FLIPELÔ (Festa Literária Internacional do Pelourinho), que está no seu segundo ano. Mediado pelo radialista Renato Cordeiro, o bate-papo teve a participação da escritora pernambucana Clarice Freire e do escritor baiano Saulo Dourado. Os dois autores ganharam visibilidade no campo literário usando a internet como espaço para divulgação de seus escritos. Saulo usava o Orkut para escrever contos e enviar como scraps (o que ele chamou de escrepo-contos) para as pessoas adicionadas no seu perfil. Além disso, reunia os textos produzidos no blog Depósito do [Escrepo]. No ano passado, lançou o seu mais recente livro, o romance juvenil Amar é uma conexão discada, pela editora Caramurê. Já Clarice utilizou o Facebook para colocar em prática a sua veia literária. Em 2011, ela criou a página Pó de Lua. A identificação do público com as suas poesias desenhadas foi tão grande que, em 2014, ela lançou o seu primeiro livro, que foi batizado com o mesmo nome da página. A obra foi publicada pela editora Intrínseca. Em 2016, veio o segundo, lançado pela mesma editora, chamado Pó de Lua nas noites em claro.

Para Saulo, hoje em dia, todo mundo é influenciado pela cibercultura de alguma forma. Com a literatura, não seria diferente. "A gente não consegue mais pensar numa vivência sem likes, sem curtidas. A literatura não ia escapar disso", pontua. Clarice, por outro lado, acredita que não só de likes vive um autor. "Like não faz literatura, quem faz literatura é o autor. O like foi um trampolim para as pessoas conhecerem a minha literatura". Questionados pelo Desde sobre se a gente vive numa era em que os likes são determinantes para consagrar novos autores, Saulo e Clarice foram incisivos nas respostas: "Eu não acredito que eles sejam determinantes, porque muitas coisas que têm muitos likes podem não dar certo no meio literário, podem não dar certo em livro, podem ser que não tenham a qualidade tão boa, literariamente falante. Então, determinantes não é. Acho que o trabalho precisa ter uma boa qualidade, o autor precisa ser original. Precisa ter, de fato, uma qualidade literária; porque senão, não dura muito, a gente sabe disso. Mas os likes têm o seu papel, têm o seu valor, porque eles conseguem fazer com que o trabalho fique mais conhecido, mais visto, ganhe visibilidade e, ganhando visibilidade, facilita com que as editoras também tenham até mais acesso e segurança na hora de acreditar naquele trabalho, porque já existe um público. O meu trabalho é uma prova disso. O likes ajudaram muito para que ele fosse visto. Mas não é, necessariamente, porque o trabalho tem muitos likes, que ele vai dar certo no meio literário", avalia Clarice. "A leitura é a grande consequência do trabalho que a gente faz, da arte que a gente cria. O like como finalidade, em algum momento, aquela criação e aquela consequência vão se embolar e a criação pode até ser comprometida. Mas, nessa era, o like é como elogio, é como um abraço, é como aperto, é como'adorei'. Nisso, vai valendo", afirma Saulo.

FLIPELÔ

Em sua segunda edição, a Festa Literária Internacional do Pelourinho começou no dia 8 e segue até 12 de agosto. Neste ano, o tema é "A amizade é o sal da vida", frase de Jorge Amado, e homenageia o escritor João Ubaldo Ribeiro, celebrando a amizade dos dois. A programação completa está disponível neste link: www.flipelo.com.br.

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